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O urso e o elefante: a parceria entre Rússia e Índia como pilar de um novo século asiático

© AP Photo / Mídia AssociadaMinistro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, à direita, e o ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, apertam as mãos durante sua reunião à margem de uma reunião de ministros das Relações Exteriores do BRICS na Cidade do Cabo, África do Sul, quinta-feira, 1º de junho de 2023
Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, à direita, e o ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, apertam as mãos durante sua reunião à margem de uma reunião de ministros das Relações Exteriores do BRICS na Cidade do Cabo, África do Sul, quinta-feira, 1º de junho de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 22.06.2023
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A Rússia tornou-se recentemente a quarta parceira comercial mais importante da Índia, atrás somente de Estados Unidos e China.
De acordo com dados do Ministério do Comércio e Indústria indiano, no primeiro trimestre desse ano Nova Deli aumentou a importação de mercadorias russas em 4,2 vezes, chegando ao patamar de US$ 20,5 bilhões (R$ 97,9 bilhões).
No ano passado, a Rússia já havia se tornado a principal fornecedora de petróleo à Índia, ultrapassando a posição de países como Iraque e Arábia Saudita. Em vista desses números, hoje é possível afirmar que a parceria política e econômica entre russos e indianos será um dos principais pilares para a construção de um novo século asiático.
Além do comércio, vale lembrar que as relações Moscou-Nova Deli são historicamente marcadas pela cooperação técnico-militar desde o período soviético. É por conta disso que a Índia ocupa a tradicional posição de grande importadora de armas e equipamentos da Rússia ao longo das últimas décadas.
No mais, na qualidade de Grandes Potências do asiático, Rússia e Índia têm implementado desde os anos 2000 uma série de políticas que visam reestruturar a ordem global no plano eurasiático, limitando a influência de atores extrarregionais, como Estados Unidos e União Europeia.
© AFP 2023 / Mídia AssociadaO ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu e seu homólogo indiano Rajnath Singh participam de uma reunião bilateral à margem da reunião da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) em Nova Deli, 28 de abril de 2023
O ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu e seu homólogo indiano Rajnath Singh participam de uma reunião bilateral à margem da reunião da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) em Nova Deli, 28 de abril de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 22.06.2023
O ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu e seu homólogo indiano Rajnath Singh participam de uma reunião bilateral à margem da reunião da Organização de Cooperação de Xangai (SCO) em Nova Deli, 28 de abril de 2023
Uma dessas políticas foi a criação em 2006 do grupo RIC (composto por Rússia, Índia e China), cujo objetivo se concentrava em coordenar posições comuns a respeito de temas importantes no âmbito regional e internacional.
No mais, essa ideia de defender os interesses nacionais da Rússia por meio de uma cooperação mais profunda com potências asiáticas como a Índia fora preconizada pelo importante diplomata Evgeny Primakov (ministro das Relações Exteriores de 1996 a 1998 e primeiro-ministro russo entre 1998 e 1999).
Para Primakov, o estabelecimento de alianças com países como Índia e China permitia à Rússia facilitar o processo de consolidação de um mundo multipolar que refletisse adequadamente a pluralidade civilizacional e de sistemas de valores nas relações internacionais.
Em tempos recentes, por sua vez, diante de um complicado contexto de sanções por parte do Ocidente ao país, a Rússia enxerga na Índia um país fundamental para a sua "viragem asiática", situação essa reconhecida pelo mais recente Conceito de Política Externa assinado por Vladimir Putin ainda nesse ano.
A Índia, além do mais, não se alinhou ao Ocidente nas votações condenatórias à Rússia durante as sessões da Assembleia Geral nos últimos dois anos (seguindo o exemplo de China e África do Sul, dois dos membros do BRICS), demonstrando uma maior neutralidade em relação ao conflito, apesar da pressão ocidental.
Não obstante, com as tentativas da União Europeia e dos Estados Unidos de utilizar os ativos sequestrados da Rússia em suas instituições para a reconstrução futura da Ucrânia, russos e indianos começaram a enxergar a necessidade de migrar gradualmente o seu comércio para moedas alternativas.
A contestação do papel do dólar como moeda de transação global, assim como da suposta "neutralidade" das organizações comandadas pelo G7, levou a Rússia e diversos outros países a repensar suas relações de dependência para com estas instituições.
A Índia, nesse ínterim, passou a realizar boa parte de suas compras de petróleo da Rússia em rupias. Com efeito, as empresas do setor energético russo (como a Gazprom e a Rosneft) há tempos adquiriram a capacidade de negociar commodities em outras moedas, que não o dólar.
Essa experiência tem sido exercitada nas relações da Rússia com a China, por exemplo, na qual as companhias russas utilizam os yuans obtidos por suas exportações para pagar por produtos e serviços chineses. Um cenário similar tem sido aos poucos implementado no comércio entre Rússia e Índia, por sua vez.
Em caráter complementar, é importante notar que tanto Rússia como Índia identificam-se como "países continentais", cujo tamanho, população, localização e potencial econômico, os credenciam de forma natural a um papel de grande destaque no jogo de forças internacional.
Ambos os países também se apresentam como verdadeiros Estados-civilizações, cuja cooperação não somente bilateral, mas também no âmbito do BRICS, tem funcionado como um anteparo ao projeto cultural hegemônico do Ocidente.
Moscou e Nova Deli, portanto, comprometeram-se a defender uma ordem mundial mais justa e multifacetada, na qual os Estados possam exercer o direito de escolher o seu próprio destino, sem qualquer tipo de interferência externa.
Lançador de mísseis do exército indiano atravessa avenida durante as comemorações do Dia da Independência da Índia, em Nova Delhi. Índia, 26 de janeiro de 2023 - Sputnik Brasil, 1920, 28.02.2023
Panorama internacional
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A parceria entre Rússia e Índia, além do mais, serve para demonstrar que Moscou não está isolada internacionalmente, como se quer fazer pensar no Ocidente. Tal situação fica ainda mais evidente quando se observam os números, por exemplo, do último Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, ocorrido entre os dias 14 e 17 de junho. A Índia foi o terceiro país que mais enviou delegados ao evento (atrás somente de Emirados Árabes Unidos e China), além de representantes da sociedade civil e da mídia.
Por fim, neste novo mundo que se apresenta, atores-chave como Rússia e Índia serão fundamentais para a definição dos contornos estruturais do sistema internacional no século XXI.
Através dessa articulação política em torno de posições comuns entre Moscou e Nova Deli nos planos bilateral e multilateral (envolvendo grupos como o RIC, BRICS, a própria Organização de Cooperação de Xangai ou mesmo o G20), Vladimir Putin e Narendra Modi vão abrindo os caminhos para o estabelecimento de um mundo pós-americano.
Ao mesmo tempo, em parceria com a Índia, a Rússia continuará buscando o objetivo de diminuir o hiato existente entre os países desenvolvidos e os países subdesenvolvidos do sistema, assim como os privilégios do Ocidente nos organismos de governança global.
Isso tudo sugere que a afinidade política Moscou-Nova Deli servirá como um dos pilares fundamentais dessa nova ordem multipolar nascente, na qual um lugar de destaque já está mais do que reservado para as potências asiáticas que ditarão os rumos do século XXI.
As opiniões expressas neste artigo podem não coincidir com as da redação.
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