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7 de setembro: 'Ainda hoje, para brasileiro, todo o português é burro', diz especialista lusitano

© Foto / DivulgaçãoCapa do livro inédito 'Portugal-Brasil: Raízes do Estranhamento', do português Carlos Fino
Capa do livro inédito 'Portugal-Brasil: Raízes do Estranhamento', do português Carlos Fino - Sputnik Brasil, 1920, 07.09.2021
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O português Carlos Fino lançará o livro "Portugal-Brasil: raízes do estranhamento" até o fim do ano. Fruto da sua tese de doutorado pelas universidades de Brasília e do Minho, a obra explora o distanciamento entre os dois países desde a independência brasileira, como conta em entrevista à Sputnik. 
Tendo estudado Direito na Universidade Clássica de Lisboa e na Université Libre de Bruxelles, com uma carreira jornalística extensa e premiada como correspondente estrangeiro em Moscou, Bruxelas e Washington, Fino mora desde 2004 no Brasil, onde foi conselheiro da Embaixada de Portugal em Brasília entre aquele ano e 2012, nos dois mandatos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Casado com uma brasileira, ele deu início a suas pesquisas para o doutorado em Ciências da Comunicação em 2013, em uma parceria entre as universidades de Brasília e do Minho, no Norte de Portugal.
Com um currículo que abarca coberturas de conflitos como a guerra civil na Albânia e os ataques dos Estados Unidos contra o Talibã, Fino ficou famoso por ter sido o primeiro no mundo a noticiar, pela RTP, o bombardeio a Bagdá, em 2003, que deu início à Guerra do Iraque.
Após uma longa e vitoriosa carreira jornalística, resolveu se dedicar ao estudo sobre as raízes do estranhamento e da (in)comunicação entre Portugal e Brasil. Nesta entrevista à Sputnik Brasil, ele fala sobre o significado do 7 de setembro para seu país atualmente, bem como sobre o antilusitanismo histórico em terras brasileiras, apesar de pouco dizer sobre o antibrasileirismo em solos lusitanos.
"Ainda hoje, em geral, para brasileiro, todo o português é burro [...] É certo que o antilusitanismo é histórico, não está virado contra o Portugal contemporâneo, que muitos brasileiros apreciam [...] Mas não deixa, por isso, de ser real e profundo, uma vez que está na origem da própria nacionalidade brasileira, a qual, para se constituir e fortalecer, teve que fazer do português o outro a se diferenciar, expulsar ou eliminar", opina Fino.
© Foto / DivulgaçãoCarlos Fino com o ex-presidente Lula
Carlos Fino com o ex-presidente Lula - Sputnik Brasil, 1920, 09.11.2021
Carlos Fino com o ex-presidente Lula
Apesar de preferir não responder às perguntas feitas por este correspondente da Sputnik Brasil em Lisboa sobre a atual política interna brasileira, especificamente sobre como Jair Bolsonaro tem se aproveitado da data para inflamar ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à democracia, Fino dá sua perspectiva sobre as relações diplomáticas entre os dois países.
"A minha esperança é que o Brasil, à medida que for mais desenvolvido, passe a ser mais condescendente para com a sua própria História e, portanto, também em relação a Portugal", defende.
Confira a íntegra da entrevista abaixo:
Sputnik Brasil: O que significa o 7 de setembro para Portugal hoje?
Carlos Fino: Enquanto data concreta e para a maioria da população, provavelmente muito pouco, dada a ausência de celebrações mútuas recíprocas. Mas o acontecimento em si – a separação do Brasil de Portugal – continua a ser tema de reflexão acadêmica, designadamente historiográfica. A questão não está fechada porque, ao contrário do que tende a pensar o senso comum, o primeiro impulso para a separação, por mais estranho que pareça, partiu de Portugal. A nacionalidade brasileira não existia – a nação (índios e negros excluídos) era a mesma; foi o Estado brasileiro que gerou pela força o sentido nacional, que aliás só se consolida verdadeiramente no decorrer da Guerra do Paraguai (1864-1870). Mas Portugal sempre esteve tão ligado ao Brasil – calcula-se que pelo menos três milhões de portugueses migraram ao longo de três séculos para terras de Vera Cruz – que a separação deixou uma marca e gerou o sonho de uma reaproximação que muitos julgam ser mútuo, quando, na realidade – como ensinou Eduardo Lourenço – é só lusitano.
S: Acredita que, em 199 anos, Brasil e Portugal nunca estiveram tão distantes como agora?
CF: Não diria isso, já que em tempos – no final do século XIX – chegou a haver corte de relações! Por outro lado, os movimentos migratórios dos últimos anos – designadamente do Brasil para Portugal – têm sido significativos, a ponto da comunidade brasileira ser hoje a maior comunidade estrangeira em Portugal. A presença de centenas de milhares de brasileiros a viver no país, interagindo diariamente com os portugueses, acaba certamente por criar laços e gerar ideias mútuas sobre o outro, infelizmente muitas vezes marcadas pelo preconceito. De um lado e do outro há ideias feitas desajustadas que levam tempo a dissipar, sobretudo quando não há – como na realidade não há – um esforço oficial continuado no sentido da aproximação e do desfazer desses preconceitos, alguns dos quais estão presentes no sistema de ensino e são ampla e reiteradamente veiculados pelos media.
S: O senhor afirma na sua tese que as relações entre Portugal e o Brasil têm sido permeadas por sentimentos de estranhamento ou desconforto mútuos, mesmo quando, no plano estatal, há coincidência ideológica e política dos regimes que os governam. No atual momento não parece haver convergência ideológica e política entre os governos de Jair Bolsonaro e Marcelo Rebelo de Sousa. O quanto isso tem contribuído para o distanciamento e a incomunicação entre os dois países?
CF: Apesar das notórias diferenças políticas e ideológicas, tem havido algum pragmatismo de parte a parte para se avançar nalguns temas em que há interesse recíproco. O que continua a faltar – mas isso não é de agora – é o desejo mútuo de aprofundar a relação, combatendo os preconceitos no sistema de ensino e nos media, no caso do Brasil e, no caso de Portugal, algumas ideias feitas em termos de comportamentos.
S: Isso ficou claro na última visita de Rebelo de Sousa ao Brasil, em que foi recebido por Bolsonaro sem máscara e ainda teria havido constrangimentos por piadas de cunho sexual contadas pelo presidente brasileiro, segundo noticiou o colunista Lauro Jardim, do Globo. Como os portugueses enxergam isso?
CF: Marcelo tem feito um esforço para trazer o Brasil a uma participação mais ativa e empenhada na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Afinal, o Brasil é um dos pais da criança, quando, nos anos 90, o então embaixador brasileiro em Lisboa, o saudoso José Aparecido de Oliveira, se empenhou de alma e coração nesse projeto. Quanto às notícias que refere, que não foram oficialmente nem confirmadas nem desmentidas, é que as palavras e ações – se é que as houve – ficam com quem as pratica. Ou, nos termos de Marcelo, quando se referiu à ausência do presidente brasileiro na cerimônia de relançamento do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, afirmou que "só dança quem entra na roda".
S: Por outro lado, Bolsonaro nunca visitou Portugal como presidente, apesar de Rebelo de Sousa ter prestigiado a cerimônia de sua posse em Brasília. A que o senhor atribui esse descaso do mandatário brasileiro com Portugal?
CF: Nas palavras de Eduardo Lourenço: "Brasil-Portugal: um sonho falso e um único sonhador".  A verdade é que Portugal há muito tempo que não está no radar do Brasil. E o atual presidente foi enfático quando, ainda com [Donald] Trump, marcou como sua prioridade absoluta a aproximação política com o grande vizinho do Norte. E há também, incontornável, a China, já hoje o maior mercado do agronegócio brasileiro. Só depois disso virá a Europa... E dentro da Europa, para ele – como para a maioria dos brasileiros – Portugal só se distingue dos outros países porque lá se fala português... Não porque haja entre nós um passado comum. Ainda hoje, muitos brasileiros preferem primeiro ir a qualquer outro país, antes mesmo de conhecerem Portugal.
S: O senhor fala do antilusitanismo no Brasil. Como isso é percebido no dia a dia? Pode dar exemplos práticos atuais que vão além de produções audiovisuais como 'Carlota Joaquina' e o 'Quinto dos Infernos'?
CF: Todos os portugueses com quem convivi ou convivo no Brasil têm relatos de antilusitanismo na sua experiência de vida aqui. Mas nem sempre isso se traduz em manifestações explícitas, como é o caso das anedotas, muitas vezes ofensivas e discriminatórias, que ainda circulam muito. Ainda hoje, em geral, para brasileiro, todo o português é burro. Lembra da Maitê [Proença]? Não é caso único nem isolado.
Daí que ninguém, no Brasil, tenha ficado espantado ou indignado – fez foi rir. Além disso, o antilusitanismo traduz-se num estado de espírito latente, que se expressa de formas difusas, mas reais – que vão desde o cinema (como os filmes que refere, que deixam um lastro profundo por muito tempo no imaginário popular) ao culto de uma ideologia que – num movimento autofágico e depreciativo da própria identidade brasileira – tende a valorizar tudo o que não é português, esquecendo ou rasurando a memória lusitana como se ela não estivesse na origem e não fizesse parte intrínseca do Brasil, como realmente faz. Calabar já quase deixou – nessas narrativas – de ser o traidor que foi, chegando a pôr em perigo a unidade do Brasil na luta contra os holandeses; hoje, aos olhos de muitos, é aqui quase um herói porque se virou contra os portugueses. Inacreditável, mas real.
© Foto / Reprodução/Copacabana FilmesCena de 'Carlota Joaquina', interpretada por Marieta Severo de forma caricata no filme homônimo de Carla Camurati
Cena de 'Carlota Joaquina', interpretada por Marieta Severo de forma caricata no filme homônimo de Carla Camurati - Sputnik Brasil, 1920, 09.11.2021
Cena de 'Carlota Joaquina', interpretada por Marieta Severo de forma caricata no filme homônimo de Carla Camurati
É certo que o antilusitanismo é histórico, não está virado contra o Portugal contemporâneo, que muitos brasileiros apreciam. E muitas vezes, de tão arreigado, nem sequer é plenamente consciente, podendo por isso viajar incógnito a bordo dos aviões da TAP. Mas não deixa, por isso, de ser real e profundo, uma vez que está na origem da própria nacionalidade brasileira, a qual, para se constituir e fortalecer, teve que fazer do português o outro a se diferenciar, expulsar ou eliminar. Daí que não precise de se manifestar para estar presente e ser sentido, mesmo quando coberto pelo manto diáfano da cordialidade, limitando-se – tantas vezes – a ser apenas um olhar por detrás do olhar...
S: A que atribui esses sentimentos recíprocos de antilusitanismo no Brasil e antibrasileirismo em Portugal?
CF: Há um passado histórico que vem pelo menos desde a Independência, quando se travaram disputas e confrontos antiportugueses, alguns bastante violentos, como a célebre Rusga de Cuiabá, uma chacina antilusitana em Mato Grosso, no século XIX. Como escreveu o naturalista escocês George Gardner, que viajou então pelo Brasil, sempre que um motim ou qualquer tentativa de revolta se verificava no interior – o que era aliás frequente – os pobres portugueses são as primeiras vítimas, chacinados sem piedade, roubados de quanto possuem, concluindo: "Não há sentimento de simpatia entre as duas nações".
Depois, esse antilusitanismo acentuou-se nos anos do jacobinismo na República, quando Antônio Torres chegou a considerar o português "o pior inimigo do Brasil" e, em seguida, houve ainda a reação à onda de imigração portuguesa, no final do século XIX, sobretudo no Rio de Janeiro, em que os portugueses eram o outro que o brasileiro não queria porque falava diferente, tinha outros hábitos, e disputavam com a mão de obra local os lugares no mercado de trabalho.
A imagem negativa do português surgiu assim no contexto da demarcação cultural que já vinha ocorrendo desde a Independência com vista a identificar o que era próprio da identidade nacional e o que a distinguia da identidade portuguesa, da qual tinha absoluta necessidade de se diferenciar. A ridicularização do português no Brasil funcionou como mecanismo do afastamento pretendido.
S: O senhor também defende que o antilusitanismo no Brasil foi disseminado no ensino e nos meios de comunicação...
CF: Mas o que fixou definitivamente o antilusitanismo no Brasil – onde, em abono da verdade, sempre existiu também uma corrente pró-lusitana – foram o ensino e os meios de comunicação. Basta dar uma olhada na forma como o relato histórico é feito nas escolas brasileiras para se perceber como a opinião antilusitana é cultivada e difundida – uma narrativa que é depois retomada pelos media, designadamente o cinema, com obras como aquelas que referiu.
Nos anos 60, o poeta e ensaísta português Jorge de Sena chegou a propor (a exemplo do que fizeram os EUA e a Inglaterra) que se formasse uma comissão mista luso-brasileira de historiadores para, com absoluto rigor, eliminar dos manuais de um e outro país as visões unilaterais e os preconceitos. Infelizmente, essa proposta não passou até hoje do papel. Mesmo quando os regimes de um e outro país foram mais próximos – Vargas e Salazar – e, apesar disso, o Brasil continuou a cultivar uma memória negativa do seu passado lusitano. Ao contrário, aliás, do que fez a Argentina, que, com Perón, reviu e atenuou a imagem inamistosa que havia em relação à Espanha. A minha esperança é que o Brasil, à medida que for mais desenvolvido, passe a ser mais condescendente para com a sua própria História e, portanto, também em relação a Portugal.
S: O senhor afirma que o antilusitanismo permeia o sistema educativo brasileiro. Como a Independência do Brasil é ensinada nas escolas portuguesas?
CF: Tanto quanto sei, de uma forma desapaixonada, explicando o contexto de transferência da Corte para o Brasil na sequência das invasões napoleônicas e depois o assumir do poder no Rio de Janeiro por D. Pedro que, apesar de relutante no início, acabou por ser empurrado pelos acontecimentos a declarar a separação para preservar o trono e evitar ter de regressar a Portugal numa situação menorizada. Note que o primeiro impulso para a separação veio de Portugal, que na altura se considerava desprezado pela Corte instalada no Rio de Janeiro, na situação – como referia o Manifesto à Nação dos revoltosos liberais de 1820 – de "colônia de uma colônia".
S: Concorda que a língua, que deveria servir como um fator de união, muitas vezes, acaba se tornando uma barreira? Essa é a percepção que tenho cá em Portugal, com o preconceito linguístico de que os brasileiros não falam português, mas brasileiro, por exemplo. Qual é a percepção linguística que o senhor tem como português a viver no Brasil?
CF: Falamos sem dúvida a mesma língua, por mais que muitos portugueses – numa reação anacronicamente imperial – considerem que os brasileiros não falam o idioma de Camões (o que indigna profunda e justificadamente quem é alvo dessas atitudes) e que alguns acadêmicos brasileiros teimem até hoje em criar uma língua brasileira diferenciada. Esse debate já foi travado e resolvido nos anos 40 do século passado e a sua ressurgência só mostra como Portugal ainda não se desfez de uma injustificada tendência centralista – que em boa verdade, como ensina [António Manuel] Hespanha, nem sequer era a do Império – e como o Brasil continua a não ter, por mero e injustificado complexo, a questão da sua própria identidade cultural plenamente resolvida, teimando em não dar ao luso o que é do luso – na expressão do escritor brasileiro Álvares de Azevedo. Basta ver/ouvir as estações de rádio e televisão do país para se entender que a língua é a mesma, apesar das diferenças regionais e da forma como é falada no dia a dia nas ruas. A persistência dos preconceitos – designadamente a intolerância de muitos portugueses para com a diversidade das formas com que o português é falado fora do país – um verdadeiro preconceito linguístico – certamente não ajuda nada nas relações.
S: Em um dos seus artigos, o senhor cita haver um autêntico desdém pelas coisas portuguesas no Brasil. Essa indiferença não é diferente de lusofobia?
CF: Não é indiferença, é desdém mesmo. Ainda que lusofobia seja um termo excessivo. E não sou eu que o digo – são os próprios intelectuais brasileiros, Marcelo Coelho, articulista e membro (até hoje) do conselho editorial do jornal Folha de S. Paulo, um dos mais importantes do país, escreveu o seguinte, em 1999, quando do lançamento de "Mitologia da Saudade", primeiro livro de Eduardo Lourenço publicado no Brasil:
"Um livro sobre a saudade, escrito por um intelectual português, tem tudo para provocar reações alérgicas no público brasileiro. Não há coisa a que sejamos mais refratários do que à cultura portuguesa. Para nós, é quase uma contradição nos próprios termos. Fernando Pessoa e José Saramago só passaram por nossa alfândega porque recalcamos a lusitanidade deles [...] Tomamos posse virtual desses dois grandes escritores portugueses, portanto, sem abandonar nossa estranheza, nosso desdém, pela lusitanidade".
S: Recentemente, a escritora Clara Ferreira Alves publicou um artigo no Expresso em que escreveu que, no Brasil, ninguém lê nem compra livros. Apesar de lermos e admirarmos Camões, Pessoa, Eça, Saramago, Valter Hugo Mãe, apenas para citar alguns, não parece suficiente aos portugueses?
CF: Já no século XIX alguns intelectuais portugueses afirmavam o mesmo; mas era depois no Brasil que muitos deles encontravam o "suplemento de alma" para as suas obras, que o restrito mercado português não lhes podia proporcionar.
© Foto / Divulgação/UMinhoO jornalista português Carlos Fino, doutor em Ciências da Comunicação pelas universidades de Brasília e do Minho
O jornalista português Carlos Fino, doutor em Ciências da Comunicação pelas universidades de Brasília e do Minho - Sputnik Brasil, 1920, 09.11.2021
O jornalista português Carlos Fino, doutor em Ciências da Comunicação pelas universidades de Brasília e do Minho
CF: Todo o debate é legítimo, desde que travado com respeito mútuo e com base nos fatos historicamente comprovados. A questão da escravatura, que hoje legitimamente nos choca e precisa ser claramente condenada, tinha outro enquadramento noutras épocas e esse fato não pode deixar de ser tido em conta. Não se pode, de uma forma geral, condenar o passado com os olhos do presente. Por outro lado, transformar um debate legítimo numa arma política com vista a obter, hoje, determinados objetivos, é certamente controverso e não parece ser a melhor forma de esclarecer a questão.
Os dados globais sobre a escravatura negra no Brasil são relativamente imprecisos, dependendo da forma como se efetua o cálculo e do período abrangido, mas sempre da ordem dos milhões. Segundo [Livi-]Bacci, em três séculos e meio, foram transferidos para o Brasil 3,65 milhões de homens, mulheres e crianças, ou seja, 38% do tráfico mundial, constituindo os seus descendentes quase metade da população em começos do século XIX. Já The Trans-Atlantic Slave Trade Database refere que, entre 1500 e 1866 (englobando portanto já o Brasil independente, período de 60 anos em que o tráfico se intensificou), foram desembarcados no Brasil 4,9 milhões de escravos. Mesmo assim, em livro recente, o historiador português João Pedro Marques assegura que, contrariamente a uma ideia bastante difundida, Portugal não foi a maior potência escravista do Ocidente, cabendo essa "distinção" aos Estados Unidos.
Para aprofundar o debate, faço ainda notar que, na senda do historiador português António Manuel Hespanha, o historiador brasileiro João Fragoso sublinha que no Antigo Regime católico, de formação escolástica, a ordem era sustentada por "uma disciplina social na qual a obediência era amorosa, portanto, consentida e voluntária". Por outro lado, e concorrendo no mesmo sentido, a prática – não acessível a todos, mas também não excepcional – da alforria, garantia uma certa mobilidade social, contribuindo para a estabilidade geral do sistema. Fragoso considera até "estar superado o reducionismo analítico que dividia a sociedade entre senhores e escravos".
Trata-se de posição polêmica, claro, mas que terá de ser tida também em conta no debate. Por outro lado, é preciso não esquecer que os grandes beneficiários do tráfico foram em boa medida e por muito tempo os grandes senhores brasileiros (descendentes de portugueses, é certo, mas já brasileiros). Então, quem deve pedir desculpa a quem? 
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