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Brasileira denuncia asilo em Lisboa: 'Pediram para eu trabalhar com COVID-19 e mentir para polícia'

© REUTERS / Pedro NunesHomem caminhando no bairro de Alfama em meio à pandemia da COVID-19 em Portugal, 11 de março de 2021
Homem caminhando no bairro de Alfama em meio à pandemia da COVID-19 em Portugal, 11 de março de 2021 - Sputnik Brasil, 1920, 25.03.2021
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Uma brasileira denunciou à Sputnik o funcionamento de um asilo sem alvará em Lisboa. Ex-funcionária da instituição, ela diz que foi orientada a trabalhar mesmo com COVID-19 e a mentir se a polícia aparecesse no estabelecimento. Em 2020, havia 788 asilos ilegais em Portugal, de acordo com o governo.

A mineira Cindy Romão trabalhou como cuidadora na Casa de Repouso São Cristóvão, em Odivelas, na Área Metropolitana de Lisboa, entre abril de 2020 e final de fevereiro deste ano. Em janeiro, sentiu sintomas de COVID-19 e testou positivo para a doença. De acordo com ela, todos os outros cinco funcionários também testaram positivo, assim como o casal que é dono do asilo e a maioria dos cerca de 20 idosos residentes.  

Apesar disso, Cindy conta que Lurdes Lopes, esposa do dono do lar de idosos, como são conhecidos os asilos em Portugal, pediu a ela que trabalhasse mesmo infectada. Não só isso. De acordo com uma troca de mensagens à qual Sputnik Brasil teve acesso, Lurdes teria pedido que ela mentisse se a polícia aparecesse no estabelecimento.

"Tenho print dela pedindo para mentir para a polícia caso eles fossem lá, porque estava todo mundo infectado, e a ordem [da polícia] era ela [Lurdes] trabalhar com mais outra funcionária, dia e noite,​ e não sair de jeito nenhum de lá. Mas ela e a outra que também estava infectada foram para casa todos os dias", revela Cindy.
© Foto / ReproduçãoTroca de mensagens entre Cindy e Lurdes Lopes, esposa do dono asilo
Brasileira denuncia asilo em Lisboa: 'Pediram para eu trabalhar com COVID-19 e mentir para polícia' - Sputnik Brasil, 1920, 25.03.2021
Troca de mensagens entre Cindy e Lurdes Lopes, esposa do dono asilo

Sputnik Brasil comunicou a denúncia ao Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, questionando se a Casa de Repouso São Cristóvão tem alvará para funcionamento, bem como se já houve fiscalização neste lar e se foi aplicada alguma multa. Em nota, a pasta confirmou que o asilo não tem licença e que já existe um processo para fechá-lo.

"O Departamento de Fiscalização do Instituto da Segurança Social abriu um processo de averiguações a esta instituição, que não dispõe de licenciamento. Foi já elaborada sanção acessória de encerramento", lê-se na nota enviada à Sputnik Brasil.

De acordo com os dados do Sistema Nacional de Saúde referentes a 2020, há, em Portugal, 2.526 lares para idosos, nos quais estão institucionalizadas 99.234 pessoas e onde trabalham 60 mil profissionais.

© Foto / Reprodução/Lares OnlineFachada da Casa de Repouso São Cristóvão, instituição que aparece sem informação sobre licença no site Lares Online
Brasileira denuncia asilo em Lisboa: 'Pediram para eu trabalhar com COVID-19 e mentir para polícia' - Sputnik Brasil, 1920, 25.03.2021
Fachada da Casa de Repouso São Cristóvão, instituição que aparece sem informação sobre licença no site Lares Online

Segundo Cindy, todos fizeram testes para detecção de COVID-19 no asilo no dia 18 de janeiro. A brasileira conta que estava no dia da sua folga quando recebeu uma ligação da chefe pressionando-a para voltar ao trabalho mesmo antes de acabar a quarentena de 14 dias. Ela voltou, então, no dia 27.

"Ela exigiu que eu fosse trabalhar com COVID-19. Liguei para o Ministério do Trabalho, e a moça falou: 'Não saia de casa, não vá ao trabalho porque você vai estar cometendo crime.' [Quando] eu disse que não [iria], ela [Lurdes] disse que todos os funcionários, inclusive ela, estavam trabalhando com COVID-19: 'Não posso contar com você mesmo, Cindy! Vou arrumar outra para colocar no seu lugar.' E desligou na minha cara, muito brava", relata.

Questionada pela Sputnik Brasil se houve algum tipo de isolamento dos poucos idosos que teriam testado negativo para COVID-19, ela responde que três foram colocados em um quarto separado. No entanto, um deles acabou infectado mesmo assim. De acordo com Cindy, equipamentos de proteção individual eram escassos e usados de forma inadequada, sem reposição.

"Ela [Lurdes] pediu para usar a mesma roupa de plástico por mais de três dias e ficava brava quando rasgava e a gente pedia mais. Eu acabava cuidando de uma senhora que estava com COVID-19 e, com essa mesma roupa, ia cuidar de outras que não estavam. Uma amiga que trabalha em outro lar falou que, a partir do momento em que se entra na ala dos infectados, tira-se a roupa na hora, toma-se um banho e veste-se outra roupa limpa para cuidar das pessoas não infectadas", compara. 
© Foto / DivulgaçãoA mineira Cindy Romão
Brasileira denuncia asilo em Lisboa: 'Pediram para eu trabalhar com COVID-19 e mentir para polícia' - Sputnik Brasil, 1920, 25.03.2021
A mineira Cindy Romão

Dono do asilo diz tratar-se de calúnias

Sputnik Brasil entrou em contato com Lurdes Lopes, mas ela disse que o proprietário do lar é Isauro Lopes, seu marido. Após ouvir as acusações de que ela teria orientado Cindy a mentir para a polícia e a trabalhar mesmo infectada, Lurdes desligou o telefone. Já seu marido afirmou tratar-se de calúnias. 

"Não vou responder a calúnias, porque são calúnias. As pessoas que fazem essas denúncias têm que provar. Ela tem as provas delas, eu tenho as minhas, os meus argumentos", disse Isauro Lopes, sem, contudo, apresentá-los.

Questionado se sua instituição tem licença para funcionar, ele não respondeu.

"Estou nesse ramo há 22 anos e fui levado à Justiça uma única vez por um funcionário, e o juiz disse que a pessoa deveria estar a trabalhar em vez de inventar histórias", completou antes de desligar.  

No site Lares Online, uma plataforma virtual de asilos portugueses, a Casa de Repouso São Cristóvão aparece com uma capacidade para 22 idosos, mas "sem informação sobre licença". Em uma consulta feita por este correspondente em Lisboa, foi informado que a mensalidade para a estadia de um idoso custa € 1.000 (R$ 6.664). 

Na descrição do site, é informado que o asilo disponibiliza quartos individuais, duplos e triplos, com uma sala comum e uma área de refeições. O tratamento de roupa, a alimentação e a hidratação são assegurados pelo lar, segundo a plataforma. Cada cama inclui um sistema de chamada, para que o idoso, em caso de dificuldade, seja auxiliado pelas auxiliares geriátricas.

"Esta casa de repouso recebe idosos independentes e com graus diferentes de dependência, desde ligeira a acamados. Todos aqueles que tenham deficiência motora ou visual, ou menos de 65 anos são bem-vindos. No entanto, não são aceitas pessoas com esquizofrenia, com problemas alcoólicos, ou com HIV", lê-se na descrição. 
© Foto / Reprodução/Lares OnlineUm dos quartos da Casa de Repouso São Cristóvão
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Um dos quartos da Casa de Repouso São Cristóvão

Associação recomenda retirada de idosos infectados de asilos 

De acordo com a Associação de Apoio Domiciliário de Lares e Casas de Repouso de Idosos (ALI), entidade que intervém em parceira com proprietários "no sentido de moralizar e sensibilizar para a qualidade dos serviços prestados", a instituição não consta da Carta Social, um estudo de análise da dinâmica da Rede de Serviços e Equipamentos Sociais, tutelados pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS). 

Um funcionário disse à Sputnik Brasil que Ana Paula Fernandes, secretária-geral da ALI, conhece o dono da Casa de Repouso São Cristóvão e que ele já teve um lar com o mesmo nome em outro endereço.

"Há lares a funcionar muito mal, que não deviam estar abertos. Lisboa não teve uma resposta tão eficaz como outras autarquias, mas, o que se coloca é a responsabilidade de quem está à frente do lar. Assisti a coisas muito graves em lares que visitei em Caneças, mas alguns mudam a morada [endereço]. Pode estar a funcionar de forma ilegal, mas ter número de contribuinte e pagar impostos", explica Ana Paula Fernandes à Sputnik Brasil.

Nesta semana, a ALI emitiu um comunicado em que alerta para a urgência da tomada de medidas relativas aos lares de idosos, por já terem conhecimento de residentes infectados em alguns deles. A entidade recomenda a retirada dos infectados pelo fato de o isolamento não ser suficiente e a permanência no asilo ser um risco acrescido, ainda que haja cuidados.

"Como já aconteceu em um lar do norte do país, em que a autoridade de saúde demorou 10 dias a retirar uma utente [paciente] infectada, tendo falecido no dia seguinte, sendo que resultou em mais um utente também já infectado, com pedido de retirada já há dois dias ainda não efectuado, com todo o risco inerente", lê-se no comunicado.

Outra questão urgente abordada pela ALI é a distribuição de material de prevenção aos cuidadores, como máscaras e luvas, porque os lares, embora não sejam estabelecimentos de saúde, são equiparados a tais. 

"Quando há casos de COVID-19 e a Direção-Geral de Saúde (DGS) fica a par, a polícia controla para saber se as pessoas estão em confinamento ou não", completa Ana Paula Fernandes. 
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