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Boulos vira o jogo: 'PSOL vai ter que conversar com PT e PT com PSOL', diz especialista

© Folhapress / Marcelo ChelloCandidato à prefeitura de São Paulo pelo PSOL, Guilherme Boulos
Candidato à prefeitura de São Paulo pelo PSOL, Guilherme Boulos - Sputnik Brasil
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Com uma grande votação em São Paulo, o candidato a prefeito Guilherme Boulos (PSOL) assume papel de protagonismo no cenário político nacional, disseram especialistas à Sputnik Brasil.

Com praticamente 100% das urnas apuradas na capital paulista, Bruno Covas (PSDB) aparecia com 32,85% dos votos (1.747.938 ), enquanto Boulos tinha 20,24% (1.077.168).

A ida para o segundo turno já era uma possibilidade apontada pelas últimas pesquisas, mas o candidato cresceu ainda mais na hora da votação e conseguiu um resultado expressivo. Em terceiro, surgia Márcio França (PSB), com 13,65% (726.132); em quarto, Celso Russomanno (Republicanos), com 10,5%; em quinto, Arthur do Val (Patriotas), com 9,78%; e, em sexto, Jilmar Tatto (PT), com 8,75%. 

Para o cientista político Danilo Bragança, pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF), o candidato do PSOL, "com a formação que tem", "não pode ser considerado uma surpresa". 

"A apresentação do Boulos já tinha sido feita em 2018", disse o especialista à Sputnik Brasil. "Surpresa foi ele conseguir mobilizar uma parcela do eleitorado que estava pouco afeita a votar na esquerda, que foi a periferia pobre que votou em massa em Bolsonaro em 2018 e causou um desequilíbrio na balança", acrescentou Bragança. 

'Grande sacação é a Internet'

Além disso, o cientista polítIco aponta como fator de destaque a elogiada campanha digital do psolista, que conseguiu grande mobilização nas redes sociais. 

"A grande sacação é a Internet, a maneira como ele consegue mobilizar esse eleitoral jovem, que não ia votar ou votaria no mais fácil. Boulos é um político muito bem preparado, um quadro muito forte. Ele tem uma capacidade de comunicação que muito se assemelha ao ex-presidente Lula", disse o pesquisador da UFF. 

Para o cientista político Paulo Baía, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos principais destaques das eleições municipais foi a "projeção do PSOLcomo um partido nacional". 

'Vai ter que conversar com o PT e o PT com PSOL'

Além de São Paulo, a sigla irá ao segundo turno em Belém, com o ex-prefeito Edmilson Rodrigues, que teve 34,22% dos votos, seguido por Delegado Eguchi (Patriotas), com 23,06%. 

"O PSOL passa a fazer parte do tabuleiro de xadrez principal do país. O partido é um grande interlocutor da esquerda, com uma proposta bem definida, que vai ter que conversar com o PT, e o PT conversar com o PSOL", disse Baía à Sputnik Brasil. 
© Folhapress / Marx Vasconcelos /Futura PressEdmilson Rodrigues, do Psol, vota em Belém. Ex-prefeito da capital paraense foi o mais votado e disputará o segundo turno
Boulos vira o jogo: 'PSOL vai ter que conversar com PT e PT com PSOL', diz especialista - Sputnik Brasil
Edmilson Rodrigues, do Psol, vota em Belém. Ex-prefeito da capital paraense foi o mais votado e disputará o segundo turno

Antipetismo, não anti-esquerdismo

Para o sociólogo Marcelo Seráfico, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), o resultado das eleições mostram que o antipetismo pode até permanecer como força eleitoral no país, mas "separado do anti-esquerdismo". 

"Boulos, Edmilson, Manuela e alguns outros no segundo turno indicam isso", afirmou à Sputnik Brasil. 

Em Porto Alegre, Manuela D’Ávila (PCdoB) ficou em segundo lugar, com 29% dos votos, atrás de Sebastião Melo (MDB), que teve 31%. 

Em relação ao Partido dos Trabalhadores, Seráfico diz que a "principal luta" do partido será "escapar do antipetismo". 

"Essas eleições estão sendo um teste nesse sentido. O PSDB não foi objeto desse tipo de movimento de estigmatização, a despeito de compor com o PT um sistema que alguns chegaram a comparar ao dos partidos nos Estados Unidos. O resultado dessas eleições serão importantes para ambos, pois tendem a relativizar o hegemonismo de PT e PSDB como emblemas, verdadeiros ou não, da esquerda e da centro-direita. O PT, em particular, só se vê como cabeça de chapa. Isso tende a mudar", afirmou o sociólogo. 

PT mais forte do que em 2016

Para Paulo Baía, o PT se fortaleceu em relação às eleições municipais de 2016, quando perdeu muitas prefeituras em que governava. 

"O partido vai eleger um número importante de prefeitos e significativo de vereadores. Isso faz com que o PT se mantenha como uma força competitiva nacional, mais combativo, mais estruturado e com mais esperança", disse o cientista político. 

Política tradicional x antipolítica

Além disso, muitos especialistas concluíram que as eleições de 2020 apontam para um fortalecimento das legendas e políticos tradicionais, ao contrário do pleito de 2018, marcado por forte renovação e um sentimento genérico contra a "velha política". 

"Os partidos tradicionais parecem estar voltando. A questão é: por quê? É preciso ver, porém, se essa volta se assenta apenas em figuras tradicionais ou se há uma renovação de quadros, e qual a natureza dessa renovação. É improvável que se possa atribuir a mudança a questões propriamente ideológicas desses partidos. Creio que uma das chaves para entender tenha a ver com um ajuste fino e oportunista entre pautas típicas desses partidos e algumas das bandeiras bolsonaristas, como a das ditas escolas cívico-militares, da segurança pública etc.", disse Marcelo Seráfico.
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