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Para sanar dívida, Brasil precisa de estadistas e não políticos que buscam reeleição, diz analista

© Folhapress / Pedro LadeiraPresidente Jair Bolsonaro ao lado do ministro Paulo Guedes (Economia) durante cerimônia de lançamento do programa de taxa fixa no crédito imobiliário da Caixa, no Palácio do Planalto
Presidente Jair Bolsonaro ao lado do ministro Paulo Guedes (Economia)  durante cerimônia de lançamento do programa de taxa fixa no crédito imobiliário da Caixa, no Palácio do Planalto - Sputnik Brasil
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O Brasil terá a segunda maior dívida bruta entre países emergentes em 2020, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Para explicar os efeitos disso, a Sputnik Brasil conversou com o economista Josilmar Cordenonssi, que defende que o país precisa de um ajuste fiscal duradouro.

A estimativa publicada pelo FMI aponta que o endividamento bruto do país alcançará 101,4% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todos os bens e serviços produzidos no Brasil. Esse quadro representa o segundo pior cenário entre 40 países de economias emergentes analisados pela organização. Apenas a Angola, que deve chegar ao patamar de 120,3% de endividamento em relação ao PIB neste ano, tem um quadro pior que o brasileiro.

O economista Josilmar Cordenonssi, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, recorda que o Brasil já era o país com o maior endividamento bruto entre países emergentes, que alcançava cerca de 87% do PIB já em 2018.

Segundo ele, o país aumentou a dívida bruta ao longo dos últimos anos, mas esse processo foi agravado pelos efeitos econômicos da pandemia da COVID-19. Para o economista, a continuação de uma agenda de reformas no país deixaria a situação "relativamente bem".

"Só que essa agenda de reformas parou, veio a pandemia, que fez com que o PIB caísse muito e ao mesmo tempo a arrecadação do governo caiu e a necessidade de aumentar gastos veio de uma forma imperativa", explica o professor do Mackenzie em entrevista à Sputnik Brasil.

Cordenonssi aponta que, apesar do histórico recente da dívida, essa combinação de fatores com aumento de gasto público criou a situação descrita pela análise do FMI. O economista aponta que sair desse quadro será "um desafio nacional".

"A gente vai ter que, de uma certa forma, crescer – a ideia é crescer e a dívida crescer menos que o PIB. Então, na verdade [com] a ideia que está sendo discutida aí, temos um desafio a mais, que é manter um certo nível de assistência [social], o [presidente brasileiro Jair] Bolsonaro quer transformar o Bolsa Família em Renda Cidadã, ampliando os gastos, e isso possivelmente vai estourar o teto de gastos do ano que vem", afirma.
© REUTERS / Adriano MachadoPresidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes
Para sanar dívida, Brasil precisa de estadistas e não políticos que buscam reeleição, diz analista - Sputnik Brasil
Presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes

Para o economista, projetos sociais como o Bolsa Família e seu possível substituto são justos, mas exigem uma trajetória sustentável da dívida.

"Para implementar esse projeto social, para ampliar esse projeto social, que é socialmente bastante justo e legítimo, mas por outro lado tem que manter uma trajetória sustentável da dívida, ou seja, tem que diminuir outros gastos. É aí que está o ponto, o nó político que a gente não consegue desatar. A gente precisa cortar gastos e todos os gastos são muito sensíveis politicamente", avalia o especialista.

Segundo o economista, o mercado financeiro está incomodado com essa possibilidade, uma vez que ultrapassando o teto de gastos há riscos de aumento da inflação e taxa de juros.

"O mercado financeiro fica nervoso em refinanciar a dívida. O risco está em refinanciar a dívida, esse refinanciamento da dívida pública que já está acontecendo, já tem um certo tumulto, um problema no refinanciamento da dívida no curto prazo, principalmente, está tendo muito ruído", aponta.

Para o economista, o ruído permanecerá enquanto o governo federal não resolver essa questão, já postergada para depois das eleições. Cordenonssi recorda que a proposta apresentada semanas atrás pelo governo federal para o Renda Cidadã, com cortes no pagamento de precatórios e no Fundeb, já foi considerada problemática pelo mercado.

Previsão para 2022 é ainda mais grave

Ainda segundo as estimativas do FMI, a dívida bruta brasileira deve piorar em 2022 e chegar a 103,5%, tornando-se a maior dívida entre os países emergentes. Para o economista, se concretizado, esse é um quadro de ruína da economia brasileira.

"Se os políticos ficarem pensando apenas na reeleição e não nas próximas gerações - como são as cabeças de estadistas, que ficam olhando as próximas gerações e não as próximas eleições -, se nós focarmos nas próximas gerações, nós temos que fazer um ajuste fiscal profundo e duradouro, de forma a melhorar a distribuição de renda", afirma.
© AP Photo / Silvia IzquierdoMoradores carregam doações de alimentos durante a pandemia do novo coronavírus da favela do Mandela, no Rio de Janeiro, em 21 de abril de 2020.
Para sanar dívida, Brasil precisa de estadistas e não políticos que buscam reeleição, diz analista - Sputnik Brasil
Moradores carregam doações de alimentos durante a pandemia do novo coronavírus da favela do Mandela, no Rio de Janeiro, em 21 de abril de 2020.

O economista aponta que o Brasil tem muitas desigualdades nos gastos do setor público e que subsidia muitos ricos, deixando as camadas mais pobres desassistidas. Para ele, o Estado brasileiro deveria ser um ente que diminui a desigualdade de renda, não o contrário.

"Aqui no Brasil as transferências de renda, [com] a forma como o governo gasta, muitas vezes nós concentramos renda. A gente tem que mudar essa forma do Estado brasileiro funcionar, em prol da sociedade, favorecendo o crescimento e automaticamente a sustentabilidade da dívida. Isso está em nossas mãos", afirma.

Cordenonssi também defende que o Brasil privatize ativos nesse processo, ressaltando que o valor desses ativos está se depreciando com o tempo.

"A gente está perdendo tempo em adiar essa privatização e fazer um ajuste duradouro nas contas públicas", conclui.
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