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Cilada afegã para norte-americanos: só lhes resta cometer atrocidades

© AFP 2021 / Wakil KOHSARBandeira dos EUA na Base Aérea de Bagram, Afeganistão
Bandeira dos EUA na Base Aérea de Bagram, Afeganistão - Sputnik Brasil
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O Ministério das Relações Exteriores da Rússia apelou aos EUA para retirarem suas tropas do Afeganistão. Segundo o representante do Ministério russo, a campanha dos EUA nesse país falhou, e a ideia de substituição das tropas norte-americanas por um contingente de uma corporação militar privada é uma iniciativa inútil.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia apelou aos EUA para retirarem suas tropas do Afeganistão. Segundo o representante do Ministério russo, a campanha dos EUA nesse país falhou, e a ideia de substituição das tropas norte-americanas por um contingente de uma corporação militar privada é uma iniciativa inútil.Eu queria frisar uma coisa importante.

Soldado das tropas norte-americanas na província de Candaar, Afeganistão - Sputnik Brasil
EUA estarão dispostos a saírem do Afeganistão?
O Afeganistão é um lugar muito interessante em termos da geografia e história. Diferentes forças o têm conquistado regularmente. Porém, nenhum dos conquistadores conseguiu manter o lugar por relativamente muito tempo. É que o Afeganistão é um lugar demasiado pobre. As condições naturais fazem com que a agricultura local tenha muita dificuldade em conseguir sustentar a população. Apenas nos tempos soviéticos, quando ao povo local foram generosamente proporcionados fertilizantes, equipamento agrícola e mesmo empresas produtoras, a produtividade do trabalho cresceu bastante para poder pagar seus créditos com produtos da agricultura (vale notar que eram créditos soviéticos, não extorsivos). Até no país ter aparecido o nosso equipamento agrícola, o país estava faminto demais até em termos de Ásia Central. Por isso, o país não representava interesse para os conquistadores.

O único interesse que esta região representava, era como cruzamento de vias comerciais entre regiões economicamente mais desenvolvidas. Além do mais, até para os próprios cidadãos do Afeganistão, o país é sobretudo importante como um cruzamento de vias de transporte. A maior parte da população dele são nômades, o que estipula a dificuldade até na criação dos rudimentos básicos de um Estado, aquilo que se chama de "banditismo estacionário". É quando não há novas vítimas por perto, e só é possível roubar as mesmas pessoas. Isso faz com que o ladrão comensure seus desejos com as possibilidades das vítimas. Mas esta teoria só funciona quando as pessoas por perto na verdade são as mesmas. Mas nas condições de nomadismo, aparecem de cada vez novos alvos para o roubo. Além disso, esses alvos são tão pobres que o lucro do ladrão é muito pouco para criar uma estrutura estável, o que poderia tornar este roubo numa renda permanente.

Por este motivo, durante a maior parte da sua história, o Afeganistão não representou um Estado unido. E os governantes do país só podiam ocupar seu cargo se seguissem o princípio "vive e deixa viver", tirando de seus súditos apenas o mínimo que fosse suficiente para sustentar uma corte real modesta, sem aplicar o instituto de recolha de impostos, nem financiar quaisquer ramos econômicos.

Forças de segurança do Afeganistão ocupam posições durante o combate na cidade de Kunduz, norte do Afeganistão, 29 de setembro de 2015 - Sputnik Brasil
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Isto explica porque aqueles que conquistaram o Afeganistão em diferentes alturas faziam isso apenas para passar até terras mais lucrativas, ou defender suas próprias terras. Por exemplo, a maior parte do conflito russo-britânico que teve lugar na virada dos séculos XVIII-XIX, foi provocada pelas preocupações da Grã-Bretanha que a Rússia, que controlava a Ásia Central, cedo ou tarde fosse conquistar o Afeganistão. Depois, percebendo que não teria nada a fazer, ela seguiria em frente até à Índia Britânica (os territórios contemporâneos do Paquistão e da Índia).

Além do mais, os próprios britânicos tentaram repetidamente tomar o controle sobre o Afeganistão, e sempre perceberam que não tinham como tirar disso qualquer proveito, mas o povo local (por terem pouca propriedade) de cada vez resistiu desesperadamente. Quer dizer, eles têm medo que sejam forçados a perder o pouco que têm e não conseguirem sobreviver, por isso não poupam suas vidas defendendo sua propriedade modesta.

A fronteira atual entre o Afeganistão e Paquistão foi estabelecida, se não me engano, em 1870, sendo muito instável. Os nômades sempre têm atravessado esta fronteira em ambas as direções. Na verdade, são as mesmas tribos que vivem dos dois lados da fronteira, o que faz com que a noção de "cidadania afegã" seja muito esbatida.

É claro que há uma possibilidade de desenvolver lá uma economia eficaz para promover o bem-estar da população local, foi isso mesmo que a União Soviética esteve realizando durante várias décadas (não sei por quê, mas todo o mundo se esqueceu que, antes da invasão pelas tropas soviéticas do Afeganistão, nós estivemos colaborando com o país por décadas, o ajudando a desenvolver sua própria economia).

May 27, 2016 photo, members of a breakaway faction of the Taliban fighters walk during a gathering, in Shindand district of Herat province, Afghanistan - Sputnik Brasil
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Mas depois, como se sabe, primeiro a impaciência de esquerdistas locais, depois em resultado do jogo da ameaça por parte dos norte-americanos de usarem o Afeganistão como um meio de invadir o nosso território, encorajando os bandidos locais, nós fomos forçados a introduzir as tropas. Mesmo que aquelas tropas tenham agido com sucesso, no sentido político aquele passo prejudicou demais a nossa reputação.

Mas os norte-americanos, introduzindo suas tropas ao Afeganistão, também o consideraram como um cruzamento. Eles tentaram o tornar numa ameaça ao Irã, de quem os EUA não gostam em extremo desde o derrubamento do xá pró-americano. Mas os norte-americanos não conseguiram realizar isso, porque o exército iraniano era mais experiente que o afegão.  Por outro lado, ao contrário de nós, eles não pretendiam criar no Afeganistão uma economia estável, além do mais, as ações deles destruíram aquilo que já tinha sido criado. É que os EUA não têm fronteira com o Afegão, mas este tem com países neutrais em relação aos EUA, ou seus inimigos. Por isso, é benéfico para os norte-americanos que lá haja mais bandidos nómadas e menos estacionários. Esse fato explica por que os EUA puderam criar lá apenas um governo decorativo.

Pelo que eu entendo, o presidente em exercício e o governo afegão têm até menos poder que tinham os reis afegãos e os socialistas que derrubaram o último rei. Vale ressaltar que, mesmo quando as tropas soviéticas abandonaram o Afeganistão, os socialistas por um certo período representaram uma força notável naquele país.

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Os norte-americanos não têm interesse em ver algo estável no Afeganistão. Eles até podem nos tentar persuadir que tencionam criar um Estado sólido, mas, como se sabe, a distância entre as palavras de políticos estadunidenses e suas ações é muito mais longa que no caso de quaisquer outros políticos no mundo.

Tudo isso explica por que os estadunidenses na verdade deveriam abandonar o Afeganistão, de vez. Porque a presença deles lá não faz bem a ninguém, nem no território do Afeganistão, nem à volta do país.

Além disso, os próprios norte-americanos recebem muito mais dissabores do que pensavam que iam receber.

Quanto à ideia de substituir as tropas estadunidenses por corporações militares, além da corrupção acelerada, vão aparecer outras consequências. Por exemplo, caso as tropas regulares matem civis, isso provoca dificuldades políticas. No caso de tropas de uma corporação independente, as dificuldades políticas já não acontecem.

Pelo que eu posso julgar, os norte-americanos estão passando de uma presença militar direta para uma presença militar comercial, mesmo quando eles não duvidam que ainda durante muito tempo vão cometer atrocidades e matar civis em massa. Então, o que eles estão tentando fazer agora, com uma probabilidade alta, significa que eles tencionam continuar cometendo atrocidades e querem evitar as responsabilidades por essas atrocidades.

Anatoly Wasserman para a Sputnik

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