Franceses falam com exclusividade à Sputnik Brasil sobre a tragédia de Nice

ENTREVISTA COM FRED SZTAJNKRYCER E COM YANN DUZERT
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O atentado de quinta-feira, 14 de julho, na cidade de Nice, continua causando intensa comoção e deixando aquele país em estado de choque. Cidadãos franceses que já viveram no Brasil falaram com exclusividade à Sputnik sobre a tragédia francesa.

Residente em Paris, o engenheiro de computação Fred Sztajnkrycer, ex-professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), descreve como os franceses reagiram à barbárie:

“Foi um grande choque, até mesmo porque, há alguns dias, tivemos a Eurocopa e toda a atenção, todas as forças, toda a Inteligência da França concentradas no torneio, e tudo correu bem”, diz Sztajnkrycer.

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“Tivemos muitas preocupações de segurança porque a França é um objetivo estratégico do Estado Islâmico [Daesh], mas não tivemos nenhum problema durante o torneio. Ninguém estava preparado para assistir a esse drama que aconteceu em Nice, cidade que fica à beira-mar, é uma beleza de tranquilidade, e por tudo isso atrai muitos turistas. Acho que é a primeira vez que acontece um atentado na França, fora de Paris. Creio que os terroristas do Estado Islâmico querem provar que eles podem fazer isso em qualquer lugar do país.” 

Após o atentado, o Presidente François Hollande anunciou que irá prorrogar o estado de emergência por mais três meses (a excepcionalidade terminaria em 26 de julho próximo). Ele reforçará as medidas de segurança e convocará reservistas em toda a França para combater os terroristas. Mas, na avaliação de Fred Sztajnkrycer, ainda é preciso adotar maiores cuidados com o terrorismo:

“A França pretende mobilizar um número maior de policiais, contando inclusive com aposentados e reservistas. Mas o problema é atuar na prevenção ao terrorismo, já que o inimigo costuma agir de forma isolada. O terrorista de origem tunisiana que causou toda esta tragédia é um exemplo disso, pois, segundo as primeiras informações dos policiais, ele agiu de forma isolada, sem vinculação a qualquer organização internacional ou nacional. O terrorista agiria sozinho.”

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Já na opinião de Yann Duzert, professor de Negociação e Resolução de Conflitos, da área de Resoluções Internacionais da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro, é preciso adotar algumas cautelas antes de se estabelecer a verdadeira motivação do francês de origem tunisiana Mohamed Lahouaiej-Bouhlel para provocar a tragédia de quinta-feira. O Professor Yann Duzert, que está na França, também falou com exclusividade à Sputnik Brasil: 

“A França continua em estado de consternação, de pânico, a ponto de a população não saber para onde ir e como resolver esse problema de integração. Não se sabe como integrar à França esses cidadãos que chegam de outros países. É o caso do autor da tragédia, que procedia da Tunísia  e tinha permissão legal para permanecer no país. Mais uma vez, evidenciou-se a dificuldade da França em lidar com questões relacionadas ao terrorismo. Por sinal, estou convencido de que a palavra terrorismo, para este caso específico de Mohamed Lahouaiej-Bouhlel, deve ser repensada. A princípio, trata-se de um delinquente clássico, que já teve casos de violência no trânsito, violência conjugal, que estava passando por dificuldades financeiras, dificuldades no trabalho, e já havia sido condenado pela Justiça francesa pela prática de crimes. Do ponto de vista religioso, era um muçulmano, mas talvez não muito convicto, pois, segundo o noticiário da imprensa francesa, Mohamed não observou estritamente as regras e os rituais do Ramadan, o mês mais sagrado dos muçulmanos. Então, não se pode desprezar a possibilidade de que as suas condições pessoais, tais como depressão, difícil situação conjugal e financeira, e um processo de divórcio tenham influenciado a carnificina que cometeu.”

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O Professor Yann Duzert conclui: “Mas também não se pode deixar de considerar o que a polícia liberou de informações sobre Mohamed, de que ele tinha fascinação por assistir a vídeos com atos terroristas praticados por radicais islâmicos. Enfim, o que quero enfatizar é a necessidade de ponderar uma série de fatores e circunstâncias que levaram este indivíduo a cometer um atentado tão trágico, irracional e covarde.”

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