Venezuela: General norte-americano confirma política intervencionista dos EUA

ENTREVISTA COM JOÃO CLAUDIO PITILLO 2 DE 28-10-15 e
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Uma entrevista concedida à rede de TV CNN em espanhol pelo General John Kelly, responsável pelo Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos, causou revolta ao Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. O pesquisador do Núcleo das Américas da UERJ, João Cláudio Pitillo, comenta para a Sputnik Brasil.

Na entrevista à CNN, John Kelly fez diversas considerações sobre a Venezuela, afirmando que a inflação este ano será de 200% e que o país se ressente da falta de gêneros elementares como alimentos e papel higiênico. Kelly foi além, afirmando que “a solução dos problemas do país está nas mãos do povo da Venezuela”.

Nicolás Maduro reagiu de imediato aos comentários do militar norte-americano. Segundo a rede de televisão Telesur, Maduro disse que as palavras de Kelly refletem o desespero dos Estados Unidos e do Presidente Barack Obama com o fato de países da América do Sul e do Caribe não aceitarem ingerência nem submissão aos interesses norte-americanos.

Maduro, inclusive, pediu ajuda aos governantes dos países sul-americanos e caribenhos contra o que considera “novas ameaças dos Estados Unidos contra a Venezuela”.

O Professor João Cláudio Platenik Pitillo, pesquisador do Núcleo das Américas da UERJ – Universidade Estadual do Rio de Janeiro, comentou as declarações de Kelly e Maduro para a Sputnik Brasil. Em entrevista exclusiva, Pitillo afirmou que Maduro tem razões para se preocupar e que o General Kelly foi além do que a sua patente militar lhe permite fazer e declarar.

Sputnik: O Presidente Nicolás Maduro tem razões para se preocupar com as declarações do General John Kelly, em que o militar norte-americano faz críticas à situação da Venezuela? O senhor vê isso como motivo de preocupação para o líder venezuelano?

João Cláudio Pitillo: Isso é motivo de preocupação não só para o líder venezuelano como para toda a América Latina. A fala do General John Kelly mostra o pensamento dos militares de alta patente do Comando Militar estadunidense e deixa clara a política intervencionista e de agressão à autodeterminação dos povos que tem sido característica dos Estados Unidos nos últimos 70 anos. Mas nós também temos que refletir que a fala deste comandante é fruto do que o Presidente Obama disse em maio deste ano, quando afirmou categoricamente que a Venezuela é uma ameaça à segurança nacional estadunidense. Isso é muito preocupante. A fala do General John Kelly demonstra não só um desconhecimento da realidade venezuelana como está carregada de rancor, de recados, de mensagens subliminares de que a Venezuela está totalmente errada e os EUA estão totalmente certos. Isto é muito ruim para a política hemisférica.

S: Numa dessas mensagens ele afirma que a solução para os problemas da Venezuela está nas mãos do povo venezuelano. O que isso quer dizer?

JCP: Esta fala é muito ambígua porque a Venezuela está sob o Governo do Presidente Maduro, está sob a liderança do PSUV – Partido Socialista Unido da Venezuela, por determinação do povo venezuelano. Se ele avisa que tem que respeitar a orientação do povo venezuelano, ele se contradiz na sua fala. Temos que ver a que ‘povo venezuelano’ ele se refere, se são os venezuelanos mais pobres ou se é aquela camada média e de média para cima que vive iludida com as promessas vindas de Miami.

S: O Presidente Maduro pediu apoio aos líderes dos Governos dos países da América Latina e Caribe e solidariedade a estes chefes de Estado para que mantenham sua posição em favor da Venezuela diante do que ele considera novas ameaças dos EUA. O senhor acredita que possa haver uma união desses países visando à integridade da Venezuela?

JCP: Antes de considerar esta união temos que prestar atenção ao faro de que esta fala do General John Kelly não é à toa. Os EUA vêm amargando um fracasso retumbante em sua política intervencionista na Ásia e no Oriente Médio. A sanha dos EUA por petróleo é abrangente e perpassa pelo mundo todo. A teimosia dos EUA em não alterar sua matriz energética, já que tem tecnologia e know-how para isso, mostra que o imperialismo em relação ao petróleo faz com que os EUA passem por cima de tudo e de todos e usem o maior poder do mundo – a maior potência militar e econômica do mundo – e não se furtem a usar isso contra os mais fracos. O Presidente Maduro, quando apela para a solidariedade latino-americana, tem esta visão também. Ele percebe que esse poder totalitário dos EUA é muito perigoso, muito sintomático, e reverbera nas fronteiras venezuelanas. Nós vimos há pouco tempo os problemas fronteiriços envolvendo a Colômbia e também envolvendo a Guiana, e isso causa uma preocupação muito grande ao Presidente Nicolás Maduro e ao povo venezuelano, porque a Venezuela é um país pacífico, não há histórico de agressões e de intimidações, por parte da Venezuela, a nenhum de seus irmãos. Quando o Presidente Maduro clama por apoio e solidariedade não é à sua condição política, à sua posição ideológica, é uma solidariedade à autodeterminação dos povos, é o direito venezuelano de seguir o seu caminho.

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