WikiLeaks revela detalhes do plano de intervenção militar da UE no Mediterrâneo

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Imigrantes cruzando o Mediterrâneo em direção à Europa - Sputnik Brasil
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Em um golpe embaraçoso para os chefes de defesa da União Europeia (UE), o site WikiLeaks divulgou dois documentos compilados pelo comitê militar do bloco que revelam detalhes do plano de intervenção naval no Mar Mediterrâneo e o temor das autoridades em relação à própria reputação de Bruxelas.

Um dos textos afirma, de fato, que a reputação do bloco estará em risco se "for atribuída a perda de vidas, correta ou incorretamente, à ação ou inação por parte da força da UE".

Os documentos vazados também revelam planos para realizar operações militares com o objetivo de destruir, em território líbio, os barcos usados no transporte de imigrantes ilegais, a fim de impedi-los de chegar à Europa.

Destaca-se que o comitê militar da UE deve considerar "toda a gama de recursos de vigilância, inteligência e informação disponível para os Estados membros e parceiros", sendo apoiado por Bruxelas – particularmente, pelo Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE) e pelo Centro de Análise de Inteligência da UE.

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A ação militar, cuja aprovação foi dada pelos Estados membros em 18 de maio, tem sido criticada por diversas organizações de direitos humanos, que afirmam que as autoridades europeias estariam colocando mais vidas em risco com o plano de "romper o modelo de negócios dos traficantes de pessoas" por meio do naufrágio proposital das embarcações líbias.

Todo ano, milhares de refugiados dos conflitos na Síria, na Eritreia, no Afeganistão e na África do Norte tentam completar a perigosa travessia do Mediterrâneo com a expectativa de conseguir uma vida melhor na Europa. A maioria parte da Líbia, onde traficantes de pessoas ganham dinheiro explorando o desespero dos imigrantes.

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Um dos documentos publicados pelo Wikileaks diz que os navios de guerra destacados para destruir os barcos líbios poderão ter que enfrentar uma decisão difícil se encontrarem imigrantes cuja segurança esteja em risco, porque, segundo observa o texto, "a preservação da vida humana no mar é uma obrigação legal sob o direito internacional".

Também é revelado o reconhecimento de que a força militar da UE poderia ser usada contra grupos como o Estado Islâmico (EI) "dentro do território soberano da Líbia".

"A ameaça para a força deve ser reconhecida, especialmente durante atividades como o embarque e quando estiver operando em terra ou nas proximidades de um litoral desprotegido, ou durante a interação com navios sem condição de navegabilidade pelo mar. A potencial presença de forças hostis, extremistas ou terroristas, tais como o Da'esh [outra denominação do EI], também deve ser tomada em consideração", recomenda o documento.

Os líderes políticos europeus estão sendo acusados de ter sangue nas mãos desde o dramático retrocesso nas operações de busca e salvamento que impediam centenas de imigrantes de se afogarem no Mediterrâneo. No entanto, parece que a estratégia militar da UE pode vir a ter um legado semelhante. Os papeis vazados pelo Wikileaks evidenciam o foco que as autoridades de defesa do bloco dão à necessidade de concentrar sua retórica na quebra do tal "modelo de negócios dos contrabandistas de imigrantes", e não na urgência de salvar vidas humanas.

"A estratégia de informação deve evitar sugerir que o foco é resgatar os imigrantes no mar, mas enfatizar que o objetivo da operação é interromper o modelo de negócios do tráfico de imigrantes", afirma o documento.

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Desde que a OTAN interviu na Líbia em 2011, em missão liderada pela UE para remover Muammar Khaddafi do poder, o número de refugiados que buscam a Europa saindo do país africano aumentou significativamente. A situação tem gerado uma grave crise humanitária, social e política no Velho Continente. Em 2014, mais de 170 mil pessoas tentaram atravessar o Mediterrâneo a partir da Líbia. Cerca de 20 mil morreram afogadas na última década.

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Enquanto isso, Bruxelas prepara uma resolução para o Conselho de Segurança da ONU com o objetivo de permitir que a sua força de intervenção militar naval, a EUNAVFOR Med, siga em frente conforme o planejado. A missão deverá ter três frases: coleta de informações, bloqueio e apreensão de barcos e destruição de embarcações e outros bens. O documento vazado diz que "deve-se considerar” a necessidade de se “estar preparado para adaptar a operação ou encerrá-la na fase dois", caso a ONU diga não ao projeto europeu.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, estará em Bruxelas esta semana e se reunirá amanhã (27) com a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini.

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