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    Situação com coronavírus no Brasil em meados de março de 2021 (116)
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    Há um ano, a pandemia da COVID-19 era oficialmente declarada. Para explicar os motivos de o número de mortes no Brasil continuar crescendo rápido até hoje, a Sputnik Brasil ouviu microbiologistas e epidemiologistas, que apontaram que o país segue sem horizonte de controle da doença.

    A pandemia da COVID-19 foi declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 11 de março de 2020. No dia seguinte, a primeira vítima do SARS-CoV-2 morreria no Brasil. Àquela altura, a previsão mais pessimista do Ministério da Saúde brasileiro apontava 180 mil mortes até o final do ano - o que foi visto no governo como exagero. Ao final de 2020, cerca de 195 mil pessoas estavam mortas pela doença no país.

    Apesar do início da vacinação em 2021, o ritmo vagaroso não mitigou a pandemia no Brasil. Diante do colapso dos hospitais, bastaram 68 dias para que mais de 75 mil brasileiros morressem de COVID-19 neste ano. Em 2020, essa marca levou 126 dias para ser alcançada.

    Após um ano de pandemia, o Brasil soma 270.917 mortos e é o segundo país com mais mortes por COVID-19. Na quarta-feira (10), com 2.364 mortes em 24 horas, o pior resultado até então, o Brasil se tornou o país com a maior média móvel diária de óbitos no planeta – 1.645.

    Diante dos fatores para explicar a tragédia brasileira, a microbiologista Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), atribui ao negacionismo do governo federal de Jair Bolsonaro (sem partido) a principal razão para o quadro devastador.

    "Tudo isso é resultado de uma política negacionista que vem, infelizmente, do governo federal", salienta Pasternak, em entrevista à Sputnik Brasil, acrescentando que houve complacência do Ministério da Saúde para com essa postura. O atual ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, é investigado por negligência no colapso de hospitais em Manaus.

    Pasternak lista uma série de ações do governo Bolsonaro que exemplificam uma postura negacionista, como negar a gravidade da pandemia, a necessidade do isolamento, a necessidade do uso de máscaras, incitar aglomerações, promover curas milagrosas sem comprovação e difamar as vacinas.

    "O que mais contribuiu para o fracasso na contenção da pandemia no Brasil foi o negacionismo. O negacionismo que veio diretamente do governo federal, endossado pelo Ministério da Saúde", afirma Pasternak.
    Em Brasília, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (à esquerda), e o agora ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello (à direita), participam de cerimônia no salão nobre do Palácio do Planalto, em 14 de outubro de 2020
    © Folhapress / Edu Andrade
    Em Brasília, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro (à esquerda), e o agora ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello (à direita), participam de cerimônia no salão nobre do Palácio do Planalto, em 14 de outubro de 2020

    Da mesma forma pensa a epidemiologista Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que aponta que as políticas necessárias para a contenção da doença no país foram totalmente negligenciadas.

    "Acredito que o negacionismo é a causa, o eixo central de todos os erros que aconteceram - o negacionismo junto com a incompetência. O próprio fato de negar a ciência já demonstra a qualidade técnica das pessoas que estão como as autoridades no país neste momento", afirma a epidemiologista em entrevista à Sputnik Brasil.

    'Nós somos hoje um país que é visto com medo pelo resto do mundo'

    Recentemente, após a descoberta de variantes brasileiras do SARS-CoV-2, o país viu dezenas de nações proibindo viajantes que passassem pelo território brasileiro, isolando o Brasil do mundo com medo da doença sem controle.

    Apesar de não ter o maior número de mortes na pandemia, o Brasil foi considerado em janeiro deste ano como o país com a pior gestão da crise sanitária mundial. Segundo dados do Instituto Lowy, um think tank da Austrália, o Brasil teve o desempenho mais fraco dentre 100 países analisados, levando em conta critérios como mortes, casos confirmados e capacidade de detecção da doença.

    "O Brasil é classificado hoje como o pior país do mundo em desempenho na contenção da pandemia. Nós somos hoje um país que é visto com medo pelo resto do mundo", afirma a microbiologista Natália Pasternak.

    A professora da UFES, Ethel Maciel, também cita a pesquisa para mostrar o desempenho ruim do Brasil no combate à pandemia e lembra que, à época do estudo, Bolsonaro tinha companhia no continente em relação ao negacionismo. Hoje, o brasileiro posa sozinho.

    "A região das Américas é uma das mais afetadas, mas não é à toa que naquele momento os dois líderes negacionistas estavam no poder [Bolsonaro e o ex-presidente dos EUA, Donald Trump]", aponta Maciel. Os EUA ficaram em 94º no ranking.
    Pacientes com COVID-19 desembarcaram do avião Pégasus 16, da Polícia Militar de Minas Gerais, no aeroporto de Uberaba, no triângulo mineiro, e são encaminhados para hospital regional
    © Folhapress / L.Adolfo
    Pacientes com COVID-19 desembarcaram do avião Pégasus 16, da Polícia Militar de Minas Gerais, no aeroporto de Uberaba, no triângulo mineiro, e são encaminhados para hospital regional

    A cientista da UFES ressalta, porém, que atualmente os EUA têm em curso uma campanha de vacinação e uma coordenação nacional científica para conter a pandemia e por isso têm visto o avanço da doença perder fôlego, diferente do Brasil. É o que lembra também a microbiologista Paula Martins, que reforça a diferença que o planejamento da vacinação fez nos EUA, o país mais impactado pela pandemia até agora.

    "A gente passou a média móvel de mortes dos EUA. E por que isso? Eles [os EUA] têm a população maior [cerca de 328 milhões contra 211 milhões no Brasil], estavam com um índice de morte diária de pessoas elevadíssimo. E o que é isso? É a vacina. E a gente não se planejou para ter a vacinação em massa, para comprar a vacina, ter a vacina. O sistema de vacinação a gente tem e é muito eficiente. O SUS é bem estruturado para isso", afirma Martins em entrevista à Sputnik Brasil.

    Conforme dados do site Our World in Data, os EUA, que têm 529 mil mortes por COVID-19, são hoje o país que mais vacinou em números absolutos, chegando a quase 94 milhões de pessoas inoculadas com pelo menos uma dose de vacina contra o novo coronavírus.

    "O Brasil conduziu muito mal e continua conduzindo muito mal, com a performance já analisada, inclusive, por institutos de pesquisa, como pior país. Porque agora nós estamos sozinhos nesse negacionismo, o que vai isolar o país e vai colocar o Brasil em uma posição pior ainda frente à comunidade internacional", avalia a epidemiologista Ethel Maciel.

    Sem governo federal, estados e municípios ainda não fazem o necessário

    Com a lacuna deixada na coordenação da pandemia, governos de estados e municípios ganharam protagonismo no enfrentamento à COVID-19 ao longo da crise sanitária. Foram os governadores os primeiros a fechar o comércio e as escolas, e foi também um governador quem garantiu as primeiras doses de vacinas contra o novo coronavírus no Brasil – no caso, João Doria (PSDB), de São Paulo, que negociou a vacina chinesa CoronaVac por meio do Instituto Butantan.

    Mônica Calazans, enfermeira de 54 anos do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, é a primeira vacinada contra a COVID-19 no Brasil
    Mônica Calazans, enfermeira de 54 anos do Instituto Emílio Ribas, em São Paulo, é a primeira vacinada contra a COVID-19 no Brasil

    Diante da contínua oposição do governo federal e das pressões políticas, as medidas restritivas foram afrouxadas ao longo da pandemia e só com a recente disparada do vírus voltaram a ser implementadas. Na quarta-feira (10), 21 governadores assinaram um pacto nacional pelo controle da pandemia, que pela primeira vez ameaça gerar um colapso de todo o sistema de saúde do país.

    Para Ethel Maciel, no Brasil, as atuais medidas adotadas em estados e municípios não são suficientes para conter a pandemia. Ainda evitando o lockdown, nas últimas semanas diversos estados adotaram medidas tidas como de meio-termo, tais como toque de recolher e fechamento de atividades não essenciais, mas a doença segue avançando.

    "[Essas medidas] são insuficientes porque estamos com uma vacinação muito lenta. As medidas de mitigação, as medidas não farmacológicas, estão sendo adotadas de forma ainda muito tímida", avalia a professora Ethel Maciel.

    A opinião é compartilhada também pela microbiologista Paula Martins, que ressalta que o Brasil não fez em nenhum momento um lockdown sério

    "Talvez a gente devesse ter tomado medidas um pouco mais drásticas, no início da pandemia, para que não se chegasse a esse ponto, inclusive, de ter as novas variantes, porque o aparecimento das variantes é uma coisa natural, esperada, mas quanto mais a pandemia evolui, maior a chance de a gente ter essas variantes perigosas", afirma Martins.

    Já Ethel Maciel, além de criticar as medidas adotadas, também classifica a velocidade da vacinação no Brasil como "pífia". Por ora, o Brasil não conseguiu vacinar sequer o grupo prioritário - cerca de 70 milhões de pessoas, segundo Maciel. Desde o início da vacinação, em 17 de janeiro, apenas 8,3 milhões de brasileiros receberam pelo menos a primeira dose de uma vacina, conforme apontam dados do consórcio dos veículos de imprensa.

    Mulheres seguram cruzes durante protesto contra a resposta do presidente Jair Bolsonaro à pandemia de COVID-19, em São Paulo, 8 de março de 2021
    © REUTERS / Amanda Perobelli
    Mulheres seguram cruzes durante protesto contra a resposta do presidente Jair Bolsonaro à pandemia de COVID-19, em São Paulo, 8 de março de 2021

    Por outro lado, as medidas de restrições, mesmo quando adotadas, também enfrentam dificuldade na adesão da população, o que Maciel atribui à politização ao longo da pandemia. A situação foi ainda reforçada por escândalos de corrupção ligados à compra de respiradores, como no Rio de Janeiro, onde o governador Wilson Witzel (PSC) foi afastado do cargo. Além disso, a desigualdade econômica no país dificulta ainda mais a realização plena das quarentenas, exigindo medidas como auxílios financeiros às famílias.

    "No momento, nem nós, internamente, temos confiança no governo, nem a comunidade internacional. Estamos aí estampando as principais capas de jornais internacionais, nas quais o Brasil agora representa, de fato, a possibilidade de emergência de novas variantes. Uma ameaça global", lamenta a epidemiologista Ethel Maciel.

    Brasil não tem horizonte de fim da pandemia

    A microbiologista Natalia Pasternak ressalta que, com a ausência do governo federal, resta depositar esperanças de que estados e municípios ajam em conjunto para impedir o avanço das mortes. Para ela, ainda é possível reverter o quadro.

    "O Brasil é visto hoje como, na sua incompetência em conter a pandemia, um risco sanitário mundial. Vergonha maior do que essa, acho que a gente nunca passou, nem no 7x1. Reverter esse quadro é possível, mas depende de vontade política que não parece existir nesse governo", aponta a cientista

    Segundo Pasternak, apenas depois que uma coordenação nacional tomar forma concreta e com medidas firmes de restrição - mesmo sem o apoio de Brasília - é que será possível fazer previsões sobre o fim da pandemia no Brasil.

    "Então, vai caber ao Congresso, ao STF, a governadores e prefeitos, que façam impor as medidas de restrição, que façam acordos para a compra de vacinas, para que o Brasil não se transforme em um pária do mundo", afirma Pasternak.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    Situação com coronavírus no Brasil em meados de março de 2021 (116)

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    Tags:
    Wilson Witzel, João Doria, Vacina CoronaVac, Estados Unidos, Jair Bolsonaro, Brasil, COVID-19
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