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    Brasil e COVID-19 em meados de fevereiro de 2021 (80)
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    Em meio à pandemia de COVID-19, em 2021 não haverá a festa mais tradicional e característica do país, que começaria no próximo sábado (13). Por isso, a Sputnik Brasil conversou com presidentes de blocos de rua e outros profissionais envolvidos com o evento para dimensionar as perdas concretas e imateriais.

    Se todo Carnaval tem seu fim, em 2021 não terá nem começo. O descontrole da pandemia de COVID-19 no Brasil enterrou as chances de a festa ocorrer a partir do próximo sábado, dia 13 de fevereiro, como previa o calendário. Nem mesmo deverá acontecer de maneira excepcional em julho, como as autoridades do país planejavam até o ano passado.

    O atraso no processo de vacinação e a disputada corrida pela importação de imunizantes e insumos tornaram as condições para a realização de um megaevento insustentáveis. A prioridade no país é resolver a crise sanitária, contendo o quanto antes o avanço e a disseminação de novas cepas do coronavírus.

    Porém, na outra ponta, em segundo plano neste momento, estão aqueles que trabalham com o Carnaval, contribuindo para promover a cultura brasileira e dinamizar a economia nesta época do ano.

    O Cordão da Bola Preta, o bloco mais tradicional do Carnaval carioca, por exemplo, não desfilará pelas ruas do Centro da cidade pela primeira vez em 103 anos desde sua fundação, em 1918.

    Em entrevista à Sputnik Brasil, Pedro Ernesto, presidente do bloco, lamentou a interrupção da "trajetória vitoriosa de tantos anos consecutivos", mas se diz totalmente de acordo com o cancelamento.

    "É uma emoção muito grande. O Bola Preta está na minha vida desde 1971, há exatamente 50 anos. E nunca aconteceu algo parecido, nem próximo disso. E agora somos pegos pela pandemia, que realmente merece atenção de todos nós. É muito sério, perdemos amigos e conhecidos. Então, todo cuidado é pouco. A atitude de não ter esse ano foi muito equilibrada do prefeito [Eduardo Paes]. Está sendo interrompido por uma causa muito justa", afirmou.
    Desfile do bloco Cordão da Bola Preta, no Centro do Rio de Janeiro, no dia 10 de fevereiro de 2018
    © Folhapress / Bruno Santos
    Desfile do bloco Cordão da Bola Preta, no Centro do Rio de Janeiro, no dia 10 de fevereiro de 2018

    Ernesto revelou que os impactos econômicos são "profundos" e que serão "vividos por um longo tempo". Ele lembra que o Bola Preta, diferentemente de outros blocos, possui uma sede desde a sua fundação. E é de lá que vêm os recursos para o dia a dia do grupo, para o pagamento dos empregados e de toda a estrutura de manutenção.

    "Estamos sem essa receita desde o dia 25 de fevereiro do ano passado. Mas nesse momento, não tem como inventar história, não tem como fazer evento, com aglomeração, na situação que estamos vivendo", disse o presidente do bloco, que tradicionalmente desfila no sábado de Carnaval.

    Para não passar totalmente em branco, o Bola Preta promoverá três lives, em seu canal no YouTube, nos próximos dias: no próprio sábado (13), às 11h30, na segunda-feira (15), às 20h, e na terça-feira (16), também às 20h.

    Já o presidente do Bloco das Carmelitas, Alvanísio Damasceno, explica que o grupo, que não possui músicos profissionais, consegue se sustentar com os ensaios para o Carnaval. Com a pandemia, o bloco teve que administrar uma dívida, que foi quitada após a realização de lives e venda de camisetas.

    "Os integrantes do bloco não vivem da música, então o impacto financeiro não foi tão grande, não teve despesa. Desde outubro, sabíamos que não haveria [Carnaval], que não teria vacina, que chegaria uma segunda onda [...] Seria uma irresponsabilidade ter desfile", disse em entrevista à Sputnik Brasil.

    Damasceno não é a favor nem mesmo de um Carnaval fora de época em julho. "Mesmo que autorizassem, não faz muito sentido para nós do bloco, apenas para as escolas de samba, que possuem toda a infraestrutura. Gostaria de fazer uma festa junina, se fosse possível, mas não um Carnaval fora de época", afirmou.

    O Bloco da Carmelitas costuma sair na sexta-feira de Carnaval e repetir a dose na terça-feira seguinte.

    ​As escolas de samba também atravessam um momento de dificuldades. E os obstáculos para as agremiações menos conhecidas, que não desfilam na Marquês de Sapucaí, são ainda maiores. Leonardo Cavalcanti, presidente da Unidos do Cabral, que se apresenta no Carnaval da Intendente Magalhães, em Madureira, conta que as atividades do grupo estão totalmente paralisadas.

    "É um misto de tristeza com a consciência da importância de não ter Carnaval. Estamos tristes por não ter, mas felizes por ser pelo bem comum, pela saúde", afirmou.
    Barracão das escolas de samba da Intendente Magalhães em 17 de fevereiro de 2020
    © Folhapress / Zô Guimarães
    Barracão das escolas de samba da Intendente Magalhães em 17 de fevereiro de 2020

    A Unidos do Cabral, atualmente, está no Grupo de Avaliação, a última divisão, que não possui rebaixamento. Segundo o presidente, a escola não recebe verba da Prefeitura desde 2015, em função das regras estabelecidas para divisões mais inferiores.

    "Acho que a grande mídia não está cobrindo isso, mas as escolas de samba têm que repensar seu papel na cultura do Rio. Por conversarem com o turismo, o papel social e cultural foi esquecido. As escolas estão batendo cabeça porque não tem desfile. Na década de 90, ainda tinha um papel social e cultural. Estamos em uma guerra 'danada' para a escola ser muito mais que um desfile", desabafou.

    Prejuízos bilionários

    De acordo com estimativas da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), ao menos R$ 8 bilhões poderão deixar de movimentar a economia brasileira com o cancelamento do Carnaval. Segundo a entidade, o país deixará de criar cerca de 25 mil empregos temporários entre janeiro e fevereiro.

    Um estudo da CNC mostra que os gastos com alimentação fora do domicílio são mais da metade do que circula em época de Carnaval. Em 2020, do total de R$ 8 bilhões movimentados, R$ 4,8 bilhões foram com alimentação.

    "O impacto é colossal. Desde março do ano passado, tivemos uma redução gigantesca no fluxo de clientes. E o Carnaval é uma fonte de receita muito grande", lamenta Pedro Hermeto, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) do estado do Rio de Janeiro.
    Fachada do Restaurante Bar Amarelinho, na Cinelândia, no Centro do Rio de Janeiro (RJ)
    © Folhapress / Rafael Andrade
    Fachada do Restaurante Bar Amarelinho, na Cinelândia, no Centro do Rio de Janeiro (RJ)

    Ele conta que os bares e restaurantes devem deixar de arrecadar entre 30% e 40% sem o evento festivo. Hermeto ressalta que o setor anda de "mãos dadas" com o turismo e que um impulsiona o outro.

    "Se o país está recebendo e acolhendo bem o turista, a vida dos donos de bares é boa. E se a vida para ele está boa, pode ter certeza que a cidade está bem equipada para receber o turista", garante.

    Já José Bouzón, vice-presidente do Hotéis Rio, Sindicato Patronal dos Meios de Hospedagens do Rio de Janeiro, estima que a cidade terá apenas 40% de ocupação nos dias de Carnaval. Para os hotéis próximos a praias, a previsão sobe para entre 70% e 80% da capacidade. Em 2020, segundo Bouzón, a ocupação esteve em 100% e o preço médio cobrado para a hospedagem foi o dobro.

    "Com o cenário atual da pandemia, a ocupação está bastante razoável. Temos que respeitar as decisões (das autoridades). Eles têm os dados, as estatísticas e a avaliação global. Gostaríamos que houvesse Carnaval, mas, se avaliaram que não pode, obedecemos. Uma coisa é o que gostaríamos, e outra é o que diz a realidade", afirmou.

    Hora de pensar no Carnaval de 2022?

    Apesar de ainda faltar mais de um ano para o Carnaval de 2022, já que pelo calendário os quatro principais dias da festa serão de 26 de fevereiro a 1º de março, os envolvidos não escondem a expectativa. Com a ansiedade acumulada dos foliões, o presidente do Bola Preta diz que, se for possível após o processo de vacinação, a ideia é já começar as celebrações no fim de 2021.

    "Nós temos uma expectativa muito positiva que a campanha de vacinação vai acelerar e que, possivelmente, em outubro estaremos com a população imunizada. Com isso, vamos poder pensar em fazer um Carnaval longo, de novembro a fevereiro, revivendo a antiga trajetória do Bola Preta, que abria o Carnaval no sábado após o Dia de Finados (2 de novembro) e terminava em um sábado após o Carnaval", recordou Pedro Ernesto.
    Foliões se divertem no Bloco das Carmelitas, no bairro de Santa Teresa, no Centro do Rio de Janeiro, no dia 20 de fevereiro de 2020
    © Folhapress / Bruno Santos
    Foliões se divertem no Bloco das Carmelitas, no bairro de Santa Teresa, no Centro do Rio de Janeiro, no dia 20 de fevereiro de 2020

    Alvanísio Damasceno, do Bloco das Carmelitas, também acredita que a expectativa para 2022 é "a melhor possível". Ele conta que as conversas sobre o evento devem começar no meio deste ano, tanto as reuniões internas do bloco, como as com a Sebastiana, que é a Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro da Cidade do Rio de Janeiro, que faz a ponte com autoridades e potenciais patrocinadores.

    "Todo mundo estará na secura do ano anterior. Por enquanto, a expectativa é de ter todos vacinados e curtir", afirmou.

    Leonardo Cavalcanti, presidente da Unidos do Cabral, lembra que a maioria da escolas de samba, principalmente do Grupo Especial e de Acesso, já tem enredo pronto, porque havia a possibilidade de desfile em julho. Porém, no caso da Unidos do Cabral, os preparativos só começam quando for possível.

    "Não nos preocupamos em escolher enredo, pois tínhamos consciência que seria impraticável ter Carnaval em julho. Quando chegar maio e junho deste ano, decidiremos o enredo. Em outubro e novembro, escolhemos o samba e, paralelamente, preparamos a fantasia e faremos todo o esforço conjunto", explicou.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    Brasil e COVID-19 em meados de fevereiro de 2021 (80)

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    Sebastiana -Associação Independente dos Blocos de Carnaval de Rua da Zona Sul, Santa Teresa e Centro do Rio de Janeiro, escolas de samba, blocos de rua, Rio de Janeiro, Eduardo Paes, Carnaval, pandemia, novo coronavírus, COVID-19
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