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    O Vietnã conclui o 13º Congresso do Partido Comunista, que definiu a liderança e o plano econômico para os próximos cinco anos. A Sputnik explica quais os desafios desse país citado como exemplo no combate à COVID-19 e cobiçado por duas superpotências.

    Nesta terça-feira (2), o Partido Comunista do Vietnã antecipou a conclusão de seu 13º Congresso para lidar com o mais grave surto de COVID-19 registrado no país: 200 casos em uma só comunidade.

    Antes de encerrar os trabalhos, o Congresso conduziu o secretário-geral, Nguyen Phu Trong, para seu terceiro mandato e aprovou o plano econômico para os próximos cinco anos.

    "A liderança no Vietnã é estruturada em 'quatro pilares': o secretário-geral do partido, o presidente, o primeiro-ministro e o diretor da Assembleia Nacional", disse o pesquisador da Academia Diplomática do Vietnã, Dang Hoang Linh, à Sputnik Brasil.

    "O secretário-geral é o que agrega mais poder, seguido pelo presidente, que é o chefe de governo, e do primeiro-ministro, que responde pela política econômica", explicou Linh.

    Com 76 anos, o primeiro-ministro, Phu Trong, recebeu uma autorização para manter sua atividade política, apesar de ter ultrapassado a idade limite. 

    Secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, Nguyen Phu Trong, recebe repórteres após ser reeleito para o cargo, em Hanói, Vietnã, 1º de fevereiro de 2021
    © REUTERS / Kham
    Secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã, Nguyen Phu Trong, recebe repórteres após ser reeleito para o cargo, em Hanói, Vietnã, 1º de fevereiro de 2021

    No país, a transição de poder se dá por geração, explicou a docente da Academia de Imprensa do Vietnã, Tran Thị Minh Tuyet.

    "O poder central vietnamita mantém uma estrutura de poder dividida em três grupos etários: abaixo de 50, de 50 a 60 e acima de 60", disse Tuyet à Sputnik Brasil. "Esse sistema garante continuidade e transição sem grandes turbulências."

    De fato, a palavra de ordem deste 13º Congresso foi "continuidade": nove dos 18 membros do Politburo do país se mantiveram no cargo. O primeiro-ministro, Nguyen Xuan Phuc, por sua vez, foi elevado ao cargo de presidente.

    "O crescimento econômico de 2.91% em 2020, um dos mais elevados do mundo, foi um sucesso em meio à COVID-19", disse Linh. "Isso deu credibilidade para o partido [...] e para o governo."

    Além disso, "o Vietnã conseguiu conter a pandemia com sucesso". O país registrou somente 1891 casos e 35 mortes em decorrência do novo coronavírus, segundo a Universidade Johns Hopkins (EUA).

    Mulheres usando máscaras protetoras em salão de beleza de Hanói, Vietnã, 29 de janeiro de 2021
    © REUTERS / Thanh Hue
    Mulheres usando máscaras protetoras em salão de beleza de Hanói, Vietnã, 29 de janeiro de 2021

    "O sucesso do Vietnã se deve a diversos fatores, como a determinação e flexibilidade da resposta à epidemia, a participação e todo o sistema político, [...] o trabalho incansável dos médicos e cooperação e apoio da população", disse Tuyet.

    Segundo ela, o método de "rastreamento, mapeamento e quarentena" deu bons resultados.

    Crescimento solitário

    A resposta à pandemia fez do Vietnã um dos principais receptores de investimento estrangeiro direto em 2020.

    Empresas como a Apple transferiram parte de sua produção da China para o Vietnã, a fim de evitar tarifas norte-americanas impostas durante a chamada "guerra comercial" entre as potências econômicas.

    "O Centro Nacional de Informação e Prognósticos Socioeconômicos acredita que o crescimento econômico do Vietnã em 2021 deve retomar altos níveis", disse o pesquisador do centro de estratégia para a Ásia da Academia de Ciências da Rússia, Nguyen Kuok Hung, à Sputnik Brasil.

    De acordo com o Centro, a economia deve crescer entre 6,3% e 6,8% neste ano, a depender do impacto da COVID-19 na economia mundial.

    No entanto, Hung lembra que "a forte dependência de importações e exportações deixa a economia vietnamita vulnerável a choques externos".

    Participante do 13º Congresso Nacional do Partido Comunista do Vietnã usa broche com o símbolo da agremiação, em Hanói, Vietnã, 27 de janeiro de 2021
    © REUTERS / Kham
    Participante do 13º Congresso Nacional do Partido Comunista do Vietnã usa broche com o símbolo da agremiação, em Hanói, Vietnã, 27 de janeiro de 2021

    A falta de produtividade e qualificação da mão de obra também podem frear o crescimento da economia do país.

    "Os investimentos diretos estrangeiros no Vietnã são, em sua maioria, focados em processamento e manufaturas, que não demandam mão de obra qualificada", apontou Linh. "Isso não cria uma base para o treinamento de mão de obra para o futuro."

    "O Vietnã precisa fazer a transição de um modelo econômico focado em extensão, para um focado em profundidade", acredita Tuyet. "Mas será um desafio fazer essa transição em contexto de falta de tecnologia e mão de obra qualificada."

    Segundo Tuyet, com PIB per capita de cerca de US$ 3 mil (aproximadamente R$ 16 mil), o Vietnã corre o risco de ficar preso na "armadilha da renda média".

    Homem leva crianças em motocicleta, na capital do Vietnã, Hanói, 29 de janeiro de 2021
    © REUTERS / Thanh Hue
    Homem leva crianças em motocicleta, na capital do Vietnã, Hanói, 29 de janeiro de 2021

    "Se o Vietnã não reestruturar a sua economia, promover a luta contra a corrupção, pode em breve se ver na posição de 'ficar velho antes de ficar rico'", alertou Tuyet.

    Entre a China e os EUA

    Como em diversos momentos de sua história moderna, o Vietnã deve lidar com as pressões das duas potências militares e econômicas em luta por influência na Ásia: a China e os EUA.

    "Em suas estratégias, as superpotências tentam criar alianças e parcerias na região para aumentar a sua influência. E o Vietnã não é uma exceção", disse Linh.

    Para Linh, o Vietnã pode extrair vantagens dessa situação, uma vez que a "competição […] cria condições favoráveis para o Vietnã desenvolver mercados, acessar capital e tecnologia moderna através da cooperação."

    Os 200 membros recém-eleitos para o Comitê Central do Partido Comunista do Vietnã posam para foto, durante o 13º Congresso Nacional do partido, em Hanói, 1º de fevereiro de 2021
    © REUTERS / VNA
    Os 200 membros recém-eleitos para o Comitê Central do Partido Comunista do Vietnã posam para foto, durante o 13º Congresso Nacional do partido, em Hanói, 1º de fevereiro de 2021

    No entanto, Tuyet lembra que "a situação no mar do Sul da China está ficando cada vez mais complexa, ameaçando a segurança e estabilidade da região, assim como os interesses legítimos de vários países, incluindo o Vietnã".

    O Vietnã reivindica a posse do conjunto de ilhas Paracel e Spratly, também chamadas de Hoang As e Truong Sa. Países como a China, Malásia, Brunei e Filipinas também reivindicam áreas nesses arquipélagos no mar do Sul da China.

    "O Vietnã deve ser determinado e persistente em sua luta para proteger a sua soberania no mar do Sul da China - conhecido como mar do Leste no país - sem que isso perturbe sua cooperação com a China", disse Tuyet.

    No entanto, ela lembra da necessidade de manter a construção de boa relação com os EUA, contra quem o Vietnã lutou uma sangrenta guerra ente 1955 e 1975.

    Caça decola do porta-aviões USS Ronald Reagan durante exercícios no mar do Sul da China
    © Foto / Twitter / U.S. Navy
    Caça decola do porta-aviões USS Ronald Reagan durante exercícios no mar do Sul da China

    "Atualmente, o grande desafio do Vietnã é expandir o relacionamento com os EUA ao mesmo tempo em que mantém relações estáveis com seu vizinho gigante, a China", disse Linh.

    Nesse duelo de titãs, Tuyet lembra que o Vietnã deve adotar "estratégia e métodos acertados para evitar virar só mais um 'peão' a serviço de grandes países, como os EUA e a China".

    O 13º Congresso do Partido Comunista do Vietnã foi celebrado entre os dias 25 e 1º de fevereiro, na capital do país, Hanói. Cerca de 1.600 delegados participaram do evento, que foi abreviado em função da detecção de 200 casos de COVID-19 em comunidade do país.

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    Tags:
    Mar do Sul da China, Ásia-Pacífico, Ásia, EUA, China, Partido Comunista do Vietnã, Vietnã, COVID-19, pandemia
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