11:39 30 Outubro 2020
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    A Sputnik Explica os motivos por trás da onda de protestos e greves que sacode a Bielorrússia desde as eleições presidenciais de 9 de agosto, que apontaram vitória do atual líder do país, Aleksandr Lukashenko, com mais de 80% dos votos.

    Em 9 de agosto, a divulgação de resultados parciais das eleições bielorrussas gerou indignação na população local. Com mais de 80% dos votos, o líder do país, Aleksandr Lukashenko, esperava uma transição tranquila para mais um mandato no cargo mais alto da República da Bielorrússia.

    Mas protestos massivos e greves de trabalhadores paralisaram a vida política e econômica do país. Convencida de que as eleições foram forjadas, a sociedade pede mudanças.

    Por que depois de 26 anos no poder, a liderança de Lukashenko está sendo contestada justamente agora? Quais as opções que a Bielorrússia tem para sair da crise?

    A Sputnik Brasil conversou com o economista e cientista político bielorrusso Dmitry Bolkunets para compreender a crise política bielorrussa.

    Estagnação econômica

    De acordo com Bolkunets, a revolta contra Lukashenko foi motivada por uma sucessão de erros cometidos pela sua administração.

    "O primeiro fator é a estagnação econômica da República [...]. O salário médio das pessoas não muda há quinze anos", disse o economista.

    "De acordo com as estatísticas oficiais, a Bielorrússia tem o índice de desemprego mais baixo do mundo. Mas a verdade é que mais de um milhão de bielorrussos trabalham fora do país", contou.

    Manifestantes realizam protesto contra o resultado de eleições presidenciais, na capital da Bielorrússia, Minsk, 17 de agosto de 2020
    © REUTERS . Vasily Fedosenko
    Manifestantes realizam protesto contra o resultado de eleições presidenciais, na capital da Bielorrússia, Minsk, 17 de agosto de 2020

    Segundo o economista, durante a campanha eleitoral, Lukashenko não teria sido "capaz de propor nenhum programa para desenvolvimento econômico do país".

    Desgaste da imagem de Lukashenko

    Bolkunets acredita que a resposta do presidente bielorrusso à pandemia do novo coronavírus, negando sucessivamente que o vírus fosse uma ameaça, gerou insatisfação na sociedade. 

    "Ele faz declarações grosseiras em relação à população ou a grupos sociais específicos, como médicos e agentes de saúde. Acho que as pessoas se cansaram", opinou Bolkunets.

    Além disso, "nos últimos anos, Lukashenko passou a adotar uma mensagem severa antirrussa [...], injuriou ministros, [e] até pediu pra prender um alto funcionário de Moscou", ressaltou Bolkunets.

    Forças especiais da Bielorrússia apresentam armas e equipamentos para presidente do país
    © AP Photo / Nikolai Petrov
    Forças especiais da Bielorrússia apresentam armas e equipamentos para presidente do país

    Segundo o economista, "na sociedade bielorrussa existe um forte sentimento pró-Rússia [...], então quando Lukashenko faz esse tipo de coisa a popularidade dele cai".

    Fraude eleitoral

    Apesar dos fatores conjunturais, a crise política bielorrussa é causada, sobretudo, pelos resultados das eleições presidenciais de 9 de agosto, que muitos consideram forjados.

    "As pessoas estão convencidas de que não houve eleições reais no país", disse Bolkunets.

    Segundo ele, os dois principais candidatos da oposição foram presos antes da realização do pleito: o banqueiro Viktor Babariko, "que tinha conseguido angariar quase meio milhão de assinaturas para sua candidatura – um recorde no país", e o diplomata Pavel Latushko.

    Nesse contexto, Svetlana Tikhanovskaya ascende como figura política de oposição de destaque.

    Manifestação em apoio a Svetlana Tikhanovskaya na Bielorrússia
    © AP Photo / Dmitry Lovetsky
    Manifestação em apoio a Svetlana Tikhanovskaya na Bielorrússia

    "Ela é a esposa de um blogueiro, até então pouco conhecido, que se chama Sergei Tikhanovsky", explicou Bolkunets. "Ele quis participar das eleições, mas foi preso. Então Svetlana concorreu no lugar dele."

    "Ela não é uma política, ela é dona de casa que virou uma candidata de protesto", disse. "A sua aprovação reflete, na verdade, a reprovação de Lukashenko. Não votaram nela, mas na saída de Lukashenko."

    Neste momento, Svetlana Tikhanovskaya se encontra na Lituânia, onde pode estar "sob a influência de outros atores que gostariam de influenciar a situação bielorrussa", acredita o economista.

    "Mas precisamos lembrar que Svetlana tem um marido que está preso na Bielorrússia, então o campo de ação dela está restrito", notou Bolkunets. 

    Ajuda da Rússia?

    Diante da forte crise política, Lukashenko solicitou apoio ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, conforme previsto em acordo da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, do qual Moscou e Minsk fazem parte.

    "Durante a campanha eleitoral, Lukashenko acusou repetidamente a Rússia de interferir nas eleições", disse Bolkunets. "Mas, assim que começaram as manifestações, ele ligou para Putin para pedir ajuda."

    Para o especialista, no entanto, a Rússia não deve fornecer a ajuda militar prevista no âmbito da Organização do Tratado de Segurança Coletiva.

    Presidente bielorrusso, Aleksandr Lukashenko, encontra-se com seu homólogo russo, Vladimir Putin, na cidade russa de Sochi
    © Sputnik / Sergei Mamontov
    Presidente bielorrusso, Aleksandr Lukashenko, encontra-se com seu homólogo russo, Vladimir Putin, na cidade russa de Sochi

    "Não importa para a Rússia agora quem estará na liderança da Bielorrússia, o importante é que o líder tenha o apoio da maioria da população", acredita Bolkunets.

    Para Moscou, uma "liderança que não tenha o apoio da elite bielorrussa ou legitimidade perante a sociedade poderá gerar uma situação perigosa".

    Por isso, ele acredita que Moscou deverá fornecer "ajudas pontuais, em cumprimento aos tratados bilaterais".

    Mas "fornecer ajuda para Lukashenko agora pode ter consequências ruins para a Rússia no futuro", uma vez que isso seria "malvisto por uma parte da sociedade bielorrussa, podendo inclusive provocar um sentimento antirrusso".

    Além disso, caso a eventual ajuda seja "considerada pela sociedade internacional uma violação à soberania bielorrussa, isso pode vir a deflagrar sanções internacionais", lembrou o cientista político.

    Saídas da crise

    De acordo com Bolkunets, existem "três saídas possíveis da crise, todas previstas na Constituição da Bielorrússia".

    A primeira seria a "renúncia voluntária de Lukashenko, que entregaria o poder para o primeiro-ministro". Sob nova liderança, o país poderia realizar novas eleições.

    "Uma segunda opção é realizar uma reforma constitucional que redistribua a competência entre os poderes", disse Bolkunets. Posteriormente, novas eleições seriam convocadas sob a égide de uma nova constituição.

    "O próprio Lukashenko propôs essa opção, mais sem estipular nenhum prazo para a realização de novas eleições."

    "Mas a verdade é que a sociedade já não confia nele para liderar o processo", temendo que ele use "a transição para ganhar tempo para permanecer no poder por mais tempo", acredita Bolkunets.

    Pessoas tocam instrumentos musicais em protestos na Bielorrússia
    © AP Photo / Dmitry Lovetsky
    Pessoas tocam instrumentos musicais em protestos na Bielorrússia

    Por fim, o atual presidente pode apostar na manutenção do status quo, "na esperança de que os protestos diminuam e que as greves acabem".

    No entanto, Bolkunets acredita que "mais cedo ou mais tarde", o período de liderança de Lukashenko deve chegar ao fim.

    "Ele se encontra no período que se convencionou chamar de 'o outono do patriarca'. É a era na qual o sol se põe e nesse período a Bielorrússia já não poderá contar com ele", concluiu.

    Desde o dia 9 de agosto, a Bielorrússia tem sido palco de uma onda de protestos e greves, desencadeados após a divulgação de resultados eleitorais, segundo os quais o atual presidente Aleksandr Lukashenko teria sido reeleito com 80,1% dos votos e a opositora Svetlana Tikhanovskaya teria obtido 10,12%.

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    Tags:
    Crise, greve, protestos, Vladimir Putin, Rússia, Aleksandr Lukashenko, Bielorrússia
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