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    Trump anunciou a retirada de tropas dos EUA da Alemanha, um país que, segundo ele, se comportaria de forma "delinquente" e trataria "mal" seus aliados. A Sputnik explica como fica a influência de Washington na defesa alemã e quais as alternativas que Berlim pode explorar daqui para a frente.

    Nesta segunda-feira (15), o presidente dos EUA anunciou a retirada de cerca de 10.000 soldados dos EUA da Alemanha, em aparente retaliação ao país por desafiar a linha de Washington em assuntos como comércio e gastos de defesa.

    Durante coletiva de imprensa na Casa Branca, Trump disse que a Alemanha se esquiva de forma "delinquente" de cumprir a meta de gastos com defesa da OTAN e trata os EUA de forma "injusta" em assuntos comerciais.

    "Estamos protegendo a Alemanha e eles são delinquentes. Isso não faz sentido", disse Trump nesta segunda-feira (15). "Iremos reduzir o número de tropas para cerca de 25.000 soldados."

    Gastos com defesa

    Para Trump, a Alemanha não estaria fazendo o suficiente para cumprir a meta de gastos em defesa de 2% do PIB estipulada pela OTAN – recursos que, muitas vezes, acabam nos cofres de exportadores de armamentos norte-americanos.

    "Saímos prejudicados tanto no comércio, quanto na OTAN [...] Até eles pagarem, nós vamos remover nossos soldados", declarou o presidente dos EUA.

    Mikhail Polianskiy, mestre em Política Internacional pelo Instituto de Relações Internacionais de Moscou (MGIMO, na sigla em russo), não acredita que a decisão dos EUA irá forçar Berlim a aumentar seus gastos militares.

    Generais aplaudem Trump após assinatura de ordem executiva sobre reforma policial, na Casa Branca, em Washington, 16 de junho de 2020
    © REUTERS . Leah Millis
    Generais aplaudem Trump após assinatura de ordem executiva sobre reforma policial, na Casa Branca, em Washington, 16 de junho de 2020

    "O Ministério da Defesa alemão já tem planos para aumentar seus gastos de defesa para 1,5% do PIB até 2024. Mas isso não representa os 2% que o governo norte-americano está demandando", disse Polianskiy à Sputnik Brasil.

    Ademais, partidos de oposição na Alemanha, "como o Partido Verde, não iriam permitir um aumento exponencial nos gastos de defesa à revelia dos gastos com o desenvolvimento da economia", lembrou Polianskiy.

    Presença dos EUA na Alemanha

    De acordo com dados de agosto de 2019 do Exército e da Força Aérea dos EUA, atualmente o Pentágono mantém cerca de 38.605 militares na Alemanha, distribuídos por duas bases aéreas e cinco quartéis do Exército.

    Além das tropas, os EUA mantêm cerca de 17.500 civis do Departamento de Defesa dos EUA, informou o The New York Times.

    Foto de soldados dos EUA é colocada em local no qual havia posto de controle norte-americano, na capital alemã, Berlim, 9 de junho de 2020
    © AP Photo / Markus Schreiber
    Foto de soldados dos EUA é colocada em local no qual havia posto de controle norte-americano, na capital alemã, Berlim, 9 de junho de 2020

    A presença dos EUA na Alemanha é "essencial para o trânsito de tropas dos EUA para a África e o Oriente Médio", notou Polianskiy.

    A base aérea de Ramstein, por exemplo, é o quartel-general da Força Aérea dos EUA na África e na Europa. O centro médico de Landstuhl é essencial para a recepção de militares feridos em combate no Iraque e Afeganistão.

    Em evento do Conselho de Relações Exteriores (CFR, na sigla em inglês), a embaixadora da Alemanha nos EUA, Emily Haber, negou que as tropas dos EUA estejam em seu país "para defender a Alemanha".

    "[As tropas] estão lá para assegurar a defesa transatlântica. Também estão lá para projetar o poder americano na África e na Ásia", disse Haber.

    Mas, para o presidente dos EUA quem se beneficia de fato da presença dos EUA é a economia alemã.

    "Esses soldados [norte-americanos] são muito bem pagos, moram na Alemanha e gastam uma soma significativa de dinheiro lá", contribuindo para a economia das comunidades ao redor das bases dos EUA.

    Senhora caminha na cidade de Landstuhl, próxima à base aérea norte-americana de Ramstein, Alemanha, 9 de junho de 2020
    © AP Photo / Michael Probst
    Senhora caminha na cidade de Landstuhl, próxima à base aérea norte-americana de Ramstein, Alemanha, 9 de junho de 2020

    Por outro lado, o governo da Alemanha fornece de graça os imóveis nos quais estão instaladas as Forças Armadas dos EUA, que usam infraestrutura subsidiada pelos impostos do cidadão alemão.

    "A Alemanha já paga a maior parte dos custos relacionados às tropas dos EUA", disse Philip Giraldi, ex-agente da CIA, agência de inteligência dos EUA, à Sputnik. "Caso [os EUA] se retirem, terão que construir novos quartéis a um custo significativo em algum outro lugar."

    Relações 'complicadas' 

    O ministro das Relações Exteriores alemão, Heiko Maas, lamentou a notícia sobre a retirada das tropas dos EUA, classificando as relações entre Washington e Berlim de "complicadas".

    "A decisão foi aparentemente tomada sem [...] consultas prévias com a Alemanha", disse o diplomata norte-americano Chas Freeman à Sputnik, o que teria sido mal recebido em Berlim.

    Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, usa máscara protetora em reunião com homólogo, em Jerusalém, Israel, 10 de junho de 2020
    © AP Photo / Oded Balilty
    Ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Heiko Maas, usa máscara protetora em reunião com homólogo, em Jerusalém, Israel, 10 de junho de 2020

    Por outro lado, o partido de esquerda alemão Die Linke (A Esquerda) apoiou a decisão de Trump, lembrando que defende há muito tempo a retirada das tropas dos EUA do país.

    "A Alemanha será 'punida' por não funcionar 100% como os EUA querem. Mas o partido da Esquerda está pedindo mais 'punição', isto é, a retirada de todas as tropas dos EUA, incluindo suas armas atômicas", disse o deputado do partido Aleksander Neu à Sputnik.

    Na questão das armas nucleares, Neu conta com o apoio de "pessoas do alto escalão do movimento social-democrata, como Mutzenich Rolf, que querem o fim da presença das forças nucleares norte-americanas na Alemanha", disse Polianskiy.

    Quais as opções que a Alemanha tem?

    Apesar de ainda não estar claro se as tropas serão retiradas, a decisão de Trump pode favorecer iniciativas de defesa europeias.

    "Eu acredito que aqueles que defendem mais iniciativas europeias na área de defesa certamente se beneficiarão dessa decisão", disse Polianskiy.

    O analista lembra que a Alemanha não é o único país que sofre pressão dos EUA para aumentar seus gastos de defesa.

    "A Coreia do Sul permite que os EUA façam esse tipo de chantagem, pressionando-os a pagar mais pela presença militar, porque eles não têm alternativa. Mas a Alemanha tem alternativa", disse Polianskiy.

    "Existe a possibilidade de substituir as armas nucleares norte-americanas instaladas na Alemanha por armas francesas, ou ainda construir uma força nuclear conjunta franco-alemã", contou Polianskiy.

    Ministra da Defesa da França, Florence Parly (à direita) e a ministra da Defesa da Alemanha, Annegret Kramp-Karrenbauer, após assinatura de projeto de defesa conjunto, em Paris, França, 20 de fevereiro de 2020
    Christophe Ena
    Ministra da Defesa da França, Florence Parly (à direita) e a ministra da Defesa da Alemanha, Annegret Kramp-Karrenbauer, após assinatura de projeto de defesa conjunto, em Paris, França, 20 de fevereiro de 2020

    Para Freeman, "a decisão de Trump altera a equação e reduz a influência dos EUA na Alemanha. O resultado será uma postura de defesa alemã menos ligada àquela dos EUA".

    Com menor influência de Washington, Berlim poderá passar a "ter uma diplomacia mais ativa para a redução de tensões", acredita Freeman.

    Para ele, a Alemanha poderá "buscar modificar suas relações com a Rússia a fim de reduzir ainda mais a possibilidade de um conflito" na Europa.

    Existe ganho estratégico para a Rússia?

    Para Giraldi, a decisão de Trump pode ser uma "reação desmedida ao aumento da cooperação energética entre a Alemanha e a Rússia", materializada em projetos como o gasoduto Nord Stream 2 (Corrente do Norte 2).

    "Trump claramente vê algum tipo de ameaça dos fornecedores de energia russos [...] Alguém está colocando na cabeça dele que essa questão sobre energia é uma ameaça genuína, o que é mentalidade da Guerra Fria em sua pior forma", disse o ex-agente da CIA.

    O ex-embaixador dos EUA em Berlim Richard Grenell, que há alguns meses serve como diretor de inteligência nacional da Casa Branca, "é creditado como um dos principais lobistas em favor da retirada de tropas", disse Polianskiy.

    Aeronave norte-americana decola da base aérea de Remstein, Alemanha, 7 de junho de 2020
    © AP Photo / Boris Roessler
    Aeronave norte-americana decola da base aérea de Remstein, Alemanha, 7 de junho de 2020

    Crítico da decisão de Trump, o senador democrata Jack Reed, representante da comissão sobre assuntos militares do Senado dos EUA, disse que a decisão do presidente era "mais um presente" para o presidente da Rússia, Vladimir Putin.

    Para Polianskiy, enquanto não tivermos os detalhes sobre o tipo de tropas que serão retiradas, é difícil avaliar se a Rússia poderá se beneficiar da decisão norte-americana.

    "Dos mais de 30 mil militares dos EUA estacionados na Alemanha, entre 8 e 10 mil são as chamadas tropas de combate. Os demais são pessoas envolvidas em atividades de logística e inteligência militar", ponderou Polianskiy.

    Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, visita soldados norte-americanos na base de Grafenwoehr, na Alemanha, 7 de novembro de 2019
    © AP Photo / Jens Meyer
    Secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, visita soldados norte-americanos na base de Grafenwoehr, na Alemanha, 7 de novembro de 2019

    O analista joga um balde de água fria naqueles que acham que a decisão de Trump poderá influenciar decisivamente a posição geopolítica alemã.

    "Não podemos esquecer que mais de 20 mil militares dos EUA continuarão estacionados na Alemanha, onde serão mantidas bombas nucleares dos EUA. E, mais importante, a Alemanha continuará sendo um membro da OTAN e, portanto, um aliado" dos EUA, concluiu Polianskiy.

    Nesta segunda-feira (15), a Casa Branca confirmou a intenção da administração Trump de reduzir o número de tropas na Alemanha. Os planos detalhados sobre o tipo de tropas e o cronograma de retirada ainda não foram divulgados por Washington.

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    Tags:
    bases militares, relações bilaterais, Donald Trump, tropas, EUA, Alemanha
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