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    Coronavírus se espalha pelo mundo (455)
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    O dia 9 de março foi considerado uma "Segunda-Feira Negra" para as bolsas mundiais, que registraram quedas acentuadas devido ao colapso dos preços do petróleo, somado à propagação do coronavírus, o que levou o mercado financeiro global a mergulhar em seu pior momento desde a crise econômica de 2008.

    A Sputnik Brasil explica a raiz do problema, como esses fatores de risco atrapalham a economia a nível nacional e internacional e suas perspectivas de recuperação.

    O mundo deve preparar-se para uma nova crise financeira, que pode ser mais significativa do que a anterior, segundo vários especialistas, como Jesse Colombo, o economista que previu o colapso de 2008. Agora o especialista aponta para a existência das chamadas "bolhas" nos mercados imobiliários europeus e acionistas americanos, que podem explodir a qualquer momento. Colombo acredita que o surto de coronavírus poderia ser o "gatilho" para uma nova crise, e que esta pode ser ainda pior do que a que ele previu em 2008, porque, segundo seus dados, a dívida total em diferentes segmentos aumentou em quase cem trilhões de dólares.

    Coronavírus e guerra de preços do petróleo

    Desde o início da semana, os mercados bolsistas e petrolíferos mundiais têm experimentado uma volatilidade notável em meio à queda dos preços do petróleo e dos riscos em torno do coronavírus. Em 9 de março, os índices de ações caíram em média de 7 a 8%, e no dia seguinte as bolsas americanas fecharam com um aumento de 5%, enquanto os mercados europeus mostraram um declínio.

    O coronavírus continua sendo um grande risco, pois as medidas de quarentena têm um impacto negativo em muitas áreas da economia, incluindo o transporte e a produção. Uma recente tensão no mercado petrolífero, após o desentendimento na aliança da OPEP+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados), veio acrescentar-se a isto.

    Os preços mundiais do petróleo caíram quase um terço na segunda-feira, após a notícia de que na reunião da OPEP+ na sexta-feira (6) não conseguiu se chegar a um acordo sobre a alteração dos parâmetros do mesmo ou sobre sua prorrogação. Depois disso, as taxas do dólar e do euro no leilão global aumentaram.

    A forte queda no preço do petróleo foi atribuída à decisão da Arábia Saudita (o maior exportador de petróleo do mundo) de aumentar substancialmente sua produção e começar a oferecer nos mercados valores baixos do petróleo bruto.

    O professor do Ibmec-SP, economista Alexandre Cabral, em entrevista à Sputnik Brasil, culpou a guerra de preços lançada pela Arábia Saudita por essa instabilidade, que agravou ainda mais a economia mundial que já vinha sofrendo em decorrência do surto do novo coronavírus.

    Negociadores trabalham no andar da Bolsa de Nova York (NYSE), nos EUA, em 10 de março de 2020
    © REUTERS / Andrew Kelly
    Negociadores trabalham no andar da Bolsa de Nova York (NYSE), nos EUA, em 10 de março de 2020

    Na opinião do doutor em geopolítica Philippe Sébille-Lopez, todos os países terão pontos de vista diferentes em relação à crise do petróleo.

    "No que diz respeito à crise do petróleo, cada país terá sua própria visão das suas causas. Trump acusa a Arábia Saudita e a Rússia pela crise atual e podemos dizer que esta é uma das razões. Mas se voltarmos um pouco atrás no tempo, outra razão é precisamente o aumento da produção de óleo de xisto nos EUA. Tudo depende do ângulo a partir do qual se olha para as coisas", declarou ele à Sputnik França.

    "A Arábia Saudita está respondendo à recusa da Rússia, e a Rússia se recusa precisamente porque, desde há vários anos, cada vez que a produção de petróleo de xisto dos EUA aumenta, a OPEP mais a Rússia e uma dezena de outros países reduzem suas quotas de produção", complementou o especialista em energia.

    Impacto nos mercados financeiros globais

    Esta situação em torno do petróleo levou à acentuada queda nas principais bolsas por todo o mundo. A queda acentuada levou inclusive o mercado a um circuit breaker americano, mecanismo usado para "paralisar" as negociações quando a bolsa cai mais de 10%.

    As bolsas voltaram a cair depois que a OMS declarou o surto como sendo pandemia, e os EUA proibiram todos os voos europeus.

    As ações europeias abriram acentuadamente em queda nesta quinta-feira (12), após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter anunciado a suspensão por 30 dias de viagens a partir da Europa por causa da pandemia de coronavírus. Os principais índices operam com baixa de mais de 5%.

    As bolsas asiáticas também fecharam em queda, com o índice Hang Seng da Bolsa de Hong Kong registrando queda de 3,66% pouco antes do fechamento.

    Perda de confiança do consumidor e do investidor, desaceleração da demanda global, aumento da dívida e ansiedade generalizada do mercado são apenas alguns dos problemas que embaçam o horizonte econômico global.

    Como crise afetou o Brasil

    O mercado brasileiro, acompanhando as tendências do cenário internacional, vem sendo fortemente prejudicado à medida que o surto do novo vírus se propaga nas atividades econômicas.

    A declaração da OMS de classificar o surto de coronavírus como pandemia também afetou o mercado financeiro brasileiro e paralisou as negociações. Esse foi o segundo circuit breaker da semana, com a bolsa caindo 12%, mas fechando em queda de 7%.

    Além do coronavírus, o mercado segue preocupado com o preço em queda do petróleo. A Petrobras fechou o dia com recuo de 11,71% em suas ações, segundo os dados do principal índice da bolsa de valores brasileira, a B3.

    Se o surto desse temido vírus realmente continuar subindo de patamar, há temores de que seu efeito sobre a economia mundial seja desastroso. Nesse contexto, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil poderia apresentar uma taxa de crescimento de apenas 1% em 2020 — hoje, a projeção oficial do governo é de 2,10%.

    Tubo de ensaio rotulado positivo para teste de coronavírus na frente de notas de dólar americano
    © REUTERS / Dado Ruvic
    Tubo de ensaio rotulado positivo para teste de coronavírus na frente de notas de dólar americano

    "A grande notícia, agora, voltou a ser o coronavírus. A Organização Mundial da Saúde decretou aí uma pandemia e, então, os mercados ficaram com muito mais medo, por conta disso", declarou em entrevista à Sputnik Brasil o especialista Caio Fernandez, diretor da consultoria de investimentos Invest.

    Também para o economista Alexandre Cabral, a economia mundial já vinha sofrendo em decorrência do surto do novo coronavírus, que reduziu as atividades econômicas em várias partes do mundo, mas que agora a situação só se agravou com este novo problema. "Não é só a briga entre Arábia Saudita e Rússia. Outros países, em paralelo, também vão sentir essa pancadaria."

    "A Petrobras também tem outra preocupação importante, que é o câmbio. Tem muita coisa que ela importa em dólares. Com o dólar disparando, várias importações dela vão ficar bem caras. O custo operacional vai ficar bem caro", opinou Cabral à Sputnik Brasil.

    Devido ao nível da queda nos valores do barril de petróleo, as ações da Petrobras foram as que mais sentiram o caos, perdendo R$ 91,12 bilhões em valor de mercado na "Segunda-Feira Negra", representando a maior queda em 34 anos. Já a Vale viu seus papéis caírem 15,20% e perdeu R$ 34,77 bilhões em valor de mercado, segundo a revista IstoÉ.

    Os bancos seguiram a lista das empresas que mais sofreram com as quedas nas bolsas. O Bradesco perdeu R$ 18,3 bilhões, seguido por Itaú Unibanco com R$ 15,9 bilhões, Banco do Brasil (R$ 13,3 bilhões) e Santander (R$ 12,7 bilhões).

    Entre as 285 empresas listadas na B3 a perda total foi de R$ 431 bilhões, acumulando saldo negativo que ultrapassa R$ 1 trilhão somente neste ano.

    Previsões de recuperação

    No momento, segundo analistas, é difícil dizer o que poderia melhorar o ambiente nos mercados e interromper os prejuízos.

    A economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Gita Gopinath, afirmou que será necessária uma resposta internacional coordenada para conter os danos econômicos da epidemia de coronavírus, envolvendo medidas de políticas monetária e fiscal.

    Para o estrategista da INVX Global, Eduardo Velho, tanto o surto de coronavírus quanto o choque do petróleo serão resolvidos. No segundo caso, ele aposta na disposição da Rússia de negociar.

    "A perspectiva de curtíssimo prazo ainda é de uma piora adicional. Mas uma ação coordenada dos bancos centrais, em política monetária e cambial, limita isso", comentou Eduardo, citado pela BBC.

    "A COVID-19, uma emergência de saúde mundial, interrompeu a atividade econômica na China e pode colocar em perigo a recuperação mundial", advertiu anteriormente a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva.

    A duração e a profundidade da crise dependerão da extensão do vírus, do tempo necessário para encontrar uma vacina, do nível de ansiedade na população e do impacto das medidas tomadas para controlar a epidemia nas economias, segundo o relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio, Investimento e Desenvolvimento (UNCTAD).

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    Tags:
    Brasil, Rússia, Arábia Saudita, China, Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), preço do petróleo, pandemia, novo coronavírus, bolsa de valores
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