01:49 28 Janeiro 2020
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    Cercada de expectativa, a equipe econômica do ministro da Economia, Paulo Guedes, não conseguiu entregar os grandes índices econômicos que o Brasil esperava em 2019. E parte do problema repousou no colo do próprio governo, constantemente envolto em polêmicas dentro e fora da política.

    O "casamento" atribuído a Guedes e ao presidente Jair Bolsonaro enfrentou diversas idas e vindas, tendo sido marcado por desencontros entre o pragmatismo econômico e a retórica política. A Sputnik Brasil explica os motivos para a retomada da economia do Brasil até aqui e as projeções para 2020.

    Um obstáculo chamado Bolsonaro

    O economista e professor de Finanças do Insper, Alexandre Chaia, relembrou que a vitória eleitoral de Bolsonaro em outubro de 2018, derrotando o petista Fernando Haddad no segundo turno presidencial, deixou o mercado financeiro brasileiro bastante confortável. O motivo: o economista liberal Paulo Guedes lideraria a economia.

    Contudo, conforme explicou Chaia à Sputnik Brasil, ninguém imaginou que o maior obstáculo para a saída da crise econômica moraria no Palácio do Planalto, sede do Governo Federal. Para ele, o "fator Bolsonaro" é a principal explicação para que a perspectiva de crescimento de 2,5% do início do ano chegue em dezembro reduzida a 1%.

    "O investimento poderia ter vindo junto no primeiro semestre se houvesse certeza que o governo iria conseguir aprovar as suas reformas [...] As pessoas adiaram os seus investimentos por conta da fragilidade política e da confusão que o próprio governo Bolsonaro criava em desmentir e afirmar coisas diferentes. Todo esse conjunto fez com que de alguma forma ele atrapalhasse as aprovações das reformas", analisou Chaia.

    Para piorar as impressões sobre o Brasil perante agentes econômicos nacionais e internacionais, os embates criados por Bolsonaro em sua pauta política e ideológica o levaram a se desgastar junto a um poder fundamental para sua agenda ousada de reformas e privatizações: o Legislativo.

    "Todas as vezes que ele tentou colocar a visão dele para o Congresso, gerou um desgaste grande do governo no Congresso. Ele tentava impor a visão dele sobre o Congresso, o Congresso parava de discutir a Reforma da Previdência e se debatia sobre a pauta de costumes. Toda vez que tinha isso atrapalhava a dinâmica econômica. A partir do momento em que ele parou de tentar colocar a visão de mundo do governo Bolsonaro sobre o Congresso, aí a pauta econômica começou a ganhar mais prioridade e foi aprovada", avaliou o professor do Insper.

    Ministro da Economia, Paulo Guedes, dá abraço no presidente da República, Jair Bolsonaro, no Congresso Nacional, Brasília, 5 de novembro de 2019
    © REUTERS / Adriano Machado
    Ministro da Economia, Paulo Guedes, dá abraço no presidente da República, Jair Bolsonaro, no Congresso Nacional, Brasília, 5 de novembro de 2019

    Maia e Alcolumbre na liderança da agenda

    Sem base sólida tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado Federal, o governo Bolsonaro e a equipe de Paulo Guedes foram, ao longo do ano, estreitando suas relações com os presidentes das duas Casas legislativas: Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), respectivamente.

    Coube ao Congresso aprovar, em cerca de nove meses, a polêmica e controversa Reforma da Previdência. A meta de economia se aproximou daquilo que o ministro da Economia tinha como ideal – de R$ 1 trilhão pedido por Guedes, os parlamentares entregaram algo em torno de R$ 800 milhões em um prazo de 10 anos.

    Na opinião de Chaia, o Congresso agiu na velocidade que lhe é própria e, em meio às polêmicas criadas pelo presidente da República e seus aliados, acabou dando sinais aos agentes econômicos e investidores de que os ventos poderiam, a partir do segundo semestre, estarem mudando no Brasil.

    "O Congresso agiu na velocidade correta dele, nas discussões, nas idas e vindas, lá é um ambiente de debate e é preciso tempo para debater. Então esse tempo do Congresso, alinhado ao engajamento das lideranças do Congresso à reforma fez com que as pessoas acreditassem que a pauta econômica ia andar [...] um trimestre a mais de investimentos que acabou não tendo por conta da dificuldade que o governo Bolsonaro tem em aprovar pautas no Congresso. O Congresso fez a parte dele e a partir do segundo semestre realmente perceberam um engajamento do Congresso, por isso essa retomada de investimento", disse.

    Além disso, os próprios projetos enviados por Guedes – após alguns embates mais ríspidos com Maia, o ministro passou a fazer política em Brasília – acabaram mostrando, segundo o professor do Insper, que a retórica confusa e titubeante de Bolsonaro não iria atrapalhar os planos de enxugamento do Estado brasileiro e maior papel da iniciativa privada na economia.

    "O que aparentemente aconteceu foi que com a aprovação da Reforma da Previdência ela se tornou efetiva, e ele tem realmente mostrado uma visão de redução tamanho do Estado, diminuição do endividamento. Como só passou ali no segundo semestre, aí você começou a ter um movimento de retomada, o terceiro trimestre já mostra um crescimento do PIB, com uma retomada de investimentos forte que vem exatamente na sequência da aprovação da Reforma da Previdência e da aprovação da [proposta da] Liberdade Econômica que mostra o caminho do governo é de liberdade, de maior investimento privado e menos interferência do setor público [...] a partir do segundo semestre se torna mais claro, com menos falas do presidente em relação à economia, e deixando o Paulo Guedes mais solto para fazer as reformas necessárias para o país voltar a crescer", destacou o economista.

    Menos ideologia, mais pragmatismo

    Disposto a acenar para a sua ampla base de apoio evangélica, Bolsonaro antes mesmo de assumir o governo já prometia que, a exemplo dos EUA, iria transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Se ideologicamente o aceno parecia um acerto, economicamente mostrava-se um erro com grande potencial de danos.

    "Isso interferiu muito no primeiro semestre, quando as pessoas tinham medo do governo Bolsonaro tentar colocar como prioridade as visões de mundo [dele], as relações com Israel, a outra era o alinhamento com os EUA contra a China. Toda essa visão que no primeiro semestre as pessoas tinham muito medo disso impactar a parte econômica, até por isso toda essa incerteza sobre investimento, ela se diluiu no segundo semestre", ponderou Chaia.
    O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, durante uma visita a uma sinagoga em Israel.
    © AP Photo / Menahem Kahana
    O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, durante uma visita a uma sinagoga em Israel.

    A Liga Árabe – grupo que reúne diversos países árabes – e o Irã (principal parceiro comercial do Brasil no Oriente Médio) não esconderam o desgosto pela postura de Bolsonaro, que acabou por recuar e ter decidido abrir apenas um escritório comercial em Jerusalém, cidade até hoje alvo de disputa entre israelenses e palestinos.

    O mesmo recuo ocorreu ao longo do ano em relação à China. Criticados duramente pelo então presidenciável Bolsonaro, os chineses tiveram paciência e demonstraram aos poucos os motivos que os tornam o principal parceiro comercial brasileiro em todo o planeta. Como resultado, apesar do alinhamento com Washington, Brasília já fala em um tratado de livre comércio com Pequim.

    Segundo o professor do Insper, o tom menos ideológico e mais pragmático do governo brasileiro nos meses mais recentes também podem estar gerando os primeiros resultados. E parte da pressão estaria vindo até mesmo de setores como o agronegócio, este um grande parceiro quando os assuntos são exportações para a China e o Oriente Médio.

    "Sobre Jerusalém, foi o primeiro [momento] em que o mercado falou: 'olha, não adianta você querer agradar 1% da população brasileira que é a favor e atrapalhar todo o meu comércio com o mundo árabe quanto na relação com a China, mesma coisa'. Ele no final acabou voltando atrás na própria relação com a China", acrescentou Chaia.

    Celebrada de maneira efusiva por Bolsonaro e sua equipe, a assinatura do acordo histórico com a União Europeia (UE) também enfrenta desafios, e levou a um recuo calculado, de acordo com o especialista ouvido pela Sputnik Brasil.

    "No próprio meio-ambiente, uma pauta importante, ele bateu bastante no meio-ambiente, que é o problema do Brasil. Mas no final ele mandou o Exército para conter o desmatamento, ele de alguma forma fez um movimento diminuindo aquela retórica de discussão com a França e tentando de alguma forma mostrar que o meio-ambiente vai ser respeitado para você continuar tendo as exportações. Então você tem essa pressão do mercado interno sobrepondo a visão ideológica e de mundo do governo Bolsonaro, por isso que me deixa mais confortável para 2020 [já] que o governo teve uma narrativa inicial de costumes, e que depois ele desistiu por conta de todas as pressões de mercado, fazendo com que ele tivesse no segundo semestre uma visão muito mais de vou fazer o que é melhor o Brasil e não o que atende ao meu público eleitoral", pontuou.

    Dólar nas alturas

    Ao invés de cair, ele bateu recordes em 2019. O dólar enfrentou ciclos de forte alta ao longo do primeiro ano do governo Bolsonaro, a ponto do ministro Paulo Guedes declarar que os brasileiros deveriam se acostumar à cotação alta da moeda norte-americana.

    À Sputnik Brasil, Chaia comentou que as análises que previam que o dólar poderia ficar na faixa entre R$ 3,50 e R$ 3,70 no início do ano não estavam equivocadas. Contudo, a insegurança política gerada por Bolsonaro, somada às dificuldades de implementação de propostas ousadas do Ministério da Economia, como uma série de privatizações de grande impacto, acabaram não trazendo os investimentos esperados.

    "Se você tivesse uma entrada maciça de investidores estrangeiros no Brasil para infraestrutura, para construção civil, provavelmente existiria uma pressão por dólar que faria o dólar cair. O dólar teve uma disparada agora, principalmente no final do ano, por conta dessa frustração de investimento estrangeiro. O dólar estava em uma tendência de cair abaixo de R$ 4,00 até o leilão da cessão onerosa do petróleo", relembrou o professor do Insper.

    Cédulas de dólar norte-americano
    © Sputnik / Aleksei Sukhorukov
    Cédulas de dólar norte-americano
    "Ali se esperava uma entrada de investidores estrangeiros que iam trazer dólares, pressionando o mercado de dólar para um nível mais baixo de R$ 3,80. O que aconteceu foi que ninguém entrou, só a Petrobras e duas empresas chinesas, o que mostrava que talvez os investimentos estrangeiros não iriam acontecer como o esperado no segundo semestre, e o dólar a partir daí passou a ter disparadas de alta", complementou.

    2020 de otimismo, 'talquei'?

    O economista ouvido pela Sputnik Brasil projeta que o Brasil está no caminho certo para crescer com maior fôlego em 2020, com estimativas entre 2,40% e 2,50% do Produto Interno Bruto (PIB) de "crescimento sustentável", enfatizou ele.

    "Diferentemente do que se tem mencionado, esse crescimento não é baseado em crédito e crescimento do endividamento das famílias, mas sim crescimento através da infraestrutura. 2020 será o melhor ano que nós teremos desde a reeleição da Dilma [Rousseff em 2014]. A gente vai ter ainda não recuperou exatamente o que a gente tinha perdido ali na época do impeachment, mas já começou a dar uma perspectiva positiva que vai se prorrogar para os outros anos", apontou Chaia.

    Ele não deixou de lembrar que a agenda de reformas, como a Administrativa e a Tributária, devem seguir sendo prioridade tanto para o Executivo quanto para o Congresso.

    Mais reformas, mais confiança. Por consequência, mais investimentos em um país emergente e com boas notas de crédito no exterior como o Brasil. A receita para um 2020 de mais crescimento econômico e prosperidade está posta, conforme ressaltou o analista ouvido pela Sputnik Brasil. A cotação do dólar, se tudo isso ocorrer, deve cair naturalmente.

    "O tamanho da queda [da cotação] vai depender da velocidade do volume de dólares que venham a entrar", concluiu o economista.

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    Tags:
    reforma tributária, reforma da previdência, Davi Alcolumbre, Rodrigo Maia, Congresso Nacional, exportações, recessão, dólar, comércio, economia, ideologia, diplomacia, Benjamin Netanyahu, Donald Trump, Insper, Paulo Guedes, Jair Bolsonaro, Mercosul, União Europeia, Europa, Israel, China, Estados Unidos, Brasil
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