18:28 09 Dezembro 2019
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    Real brasileiro e dólar norte-americano

    Pressão e incertezas: como alta do dólar pode influenciar brasileiros e Plano Real?

    © AFP 2019 / VANDERLEI ALMEIDA
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    Nesta semana, o dólar atingiu a cotação nominal mais alta de sua história desde a criação do Plano Real, sendo cotado a R$ 4,206, uma alta de 0,29%.

    A Sputnik explica os fatores contribuintes para a alta da moeda norte-americana e suas consequências para o Plano Real e a população brasileira.

    Motivos que contribuíram para recorde do dólar frente ao real

    A escalada da moeda norte-americana ocorre em meio à guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, bem como ao relativo fracasso do leilão de áreas de cessão onerosa de petróleo devido à ausência das petroleiras estrangeiras.

    Outro fator que contribui para o avanço do dólar é o lento crescimento econômico brasileiro, além do desemprego que atinge o país e do baixo interesse do investidor externo na economia do país.

    Cédulas de dólar norte-americano
    © Sputnik / Aleksei Sukhorukov
    Cédulas de dólar norte-americano

    Há também o fator da sazonalidade, já que nesta época do ano há um aumento da procura pela moeda norte-americana internamente, por parte de empresas e fundos, que costumam enviar remessas ao exterior.

    Ou seja, a demora para que os EUA e a China fechem a primeira fase do acordo comercial, a instabilidade política e econômica na América do Sul e a remessa de lucros de empresas instaladas no Brasil para suas matrizes contribuíram para a maior cotação nominal da moeda norte-americana, que no ano acumula uma valorização de 8,56% frente ao real.

    Índice de inflação

    Em meio à queda do real, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, acredita que a desvalorização da moeda brasileira não esteja apresentando qualquer impacto sobre a inflação.

    "Não houve piora nas expectativas de inflação, que é o que nos importa [...]", afirmou Campos Neto, além disso, ele garantiu que a movimentação cambial é devida à substituição por parte das empresas de dívidas externas por dívidas internas.

    Campos Neto também destacou que a inflação no Brasil está baixa e estável, e que o fator relevante para o processo de virada econômica brasileira é a queda da taxa longa de juros.

    Mesmo com índices de inflação em baixa, consumidor continua retraído
    Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas
    Mesmo com índices de inflação em baixa, consumidor continua retraído
    "É importante ter a taxa curta ancorada, mas também taxa longa em níveis baixos. Uma taxa longa menor ajuda o financiamento de infraestrutura. Grande parte da economia roda na Selic, mas projetos importantes giram em taxas maiores", explicou ele durante a participação em audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE).

    De acordo com Campos Neto, o Brasil está crescendo com menos dinheiro público e maior possibilidade de financiamento pelo setor privado.

    Intervenção cambial e deboche de Bolsonaro

    Ao ser questionado sobre a alta do dólar e o impacto que isso poderia causar na inflação, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, manteve sua "mente debochada" e sugeriu aos repórteres que falassem com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

    "Dólar subiu? Conversa... Quer o telefone do Roberto Campos?", disse Bolsonaro na entrada do Palácio da Alvorada.

    Por sua vez, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto afirmou que não pretende realizar qualquer intervenção pelo fato de que o país não estaria na chamada "zona de intervenção", entretanto ressaltou que o BC poderá agir de outra maneira caso a alta do dólar tenha impacto na inflação.

    Consequências para os brasileiros e Plano Real

    As consequências da alta do dólar para os brasileiros poderão ser sentidas no bolso daqueles que pretendam viajar, já que o câmbio da moeda norte-americana segue em alta, tornando a compra da moeda mais cara, bem como passagens aéreas, que também são cotadas em dólar.

    Além do turismo, a alta do dólar também poderá elevar os preços dos produtos importados, que na maioria das vezes são negociados em dólar, ou seja, pode elevar a inflação no país.

    Dólar norte-americano
    © Sputnik / Aleksei Sukhorukov
    Dólar norte-americano

    Entretanto, essa inflação não atingirá apenas produtos importados como também os produtos nacionais, já que as empresas brasileiras podem elevar os preços no mercado interno para compensar o valor de venda para o mercado externo, mantendo o valor das negociações em dólar para compradores internacionais.

    O Plano Real seria desvalorizado. Entretanto, esse fator poderia contribuir para a melhoria da vida dos brasileiros, já que os turistas estrangeiros passariam a injetar um valor maior na economia do Brasil. Porém, caso haja o aumento da inflação, o poder aquisitivo seria reduzido, bem como o consumo da população brasileira.

    Perspectiva do dólar para 2020

    De acordo com o Relatório Focus do Banco Central, há uma projeção de que a moeda norte-americana tenha um valor de R$ 4,00 para 2020.

    Painel de cotações da Bovespa (arquivo)
    Painel de cotações da Bovespa (arquivo)

    Entretanto há divergências, e os analistas Shahab Jalinoos, Alvise Marino, Günter Grimm, Daniel Chodos e Nimrod Mevorach do Credit Suisse acreditam na "proliferação" das estruturas de opções com barreiras acima de R$ 4,20, que rompidas poderiam provocar a aceleração da alta do dólar, conforme o portal InfoMoney.

    "A natureza assimétrica de riscos direcionais sobre expectativas de intervenção, combinada com a extensão da decepção com o leilão de petróleo, nos deixa receosos sobre tentar minimizar a força do dólar a partir dos níveis atuais", explicaram os especialistas em relatório.

    Apesar da expectativa, o valor da moeda norte-americana dependerá tanto do cenário econômico e político brasileiro, quanto do cenário político dos países vizinhos. Isso porque a imagem dos outros países pode interferir e prejudicar a imagem latino-americana gerando desconfiança do mercado, além de afastar investidores.

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    Tags:
    Brasil, bolsa de valores, real, Jair Bolsonaro, Banco Central, inflação, economia, Dólar
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