16:13 12 Novembro 2019
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    Manifestante próximo à barricada protesta: “Nova constituição ou nada”

    O que está por trás dos protestos que estão deixando a América do Sul em 'chamas'?

    © AFP 2019 / Pedro Ugarte
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    Atualmente a América do Sul está enfrentando uma onda de protestos e crises políticas, originando confrontos, descontentamentos da população e provocando um grande número de mortes. A Sputnik explica o que está por trás dessa insatisfação e como o Brasil pretende evitar passar por situação semelhante.

    Protestos da população e 'declaração de guerra' no Chile

    O Chile é um dos países que está enfrentando uma onda de protestos na América do Sul, depois da Venezuela e Equador, que também enfrentaram casos distintos de insatisfação e crise política.

    No Chile, os protestos começaram no dia 14 de outubro, quando o governo decidiu aumentar o preço das passagens do metrô de Santiago. Mesmo depois de o presidente chileno Sebastián Piñera anunciar a suspensão do aumento, os violentos protestos continuam pelo país.

    Isso pode significar que a raiz do problema seja ainda mais profunda e o aumento do preço das passagens simplesmente puxaram o gatilho para um descontentamento generalizado.

    "Em 30 anos o Chile não viveu uma explosão de raiva popular como a que está vivendo agora", afirmou à Sputnik Mundo Esteban Maturana, dirigente da Confederação Nacional de Saúde Municipal (Confusam), um dos sindicatos que convocou a greve geral contra a repressão policial desencadeada nas ruas.

    "O problema não são os 30 pesos. São os 30 anos de corrupção e de abuso da classe política, da igreja e das Forças Armadas", ressaltou Maturana.

    Devido às ações de protestos, saques, incêndios e barricadas, o governo do país decidiu decretar o estado de emergência em grande parte da zona central do país, além de instaurar o toque de recolher para as noites de sábado e domingo.

    Nesta segunda-feira (21), o presidente chileno afirmou em uma coletiva de imprensa que o país está em guerra devido aos violentos protestos, que já provocaram a morte de 18 pessoas, incluindo uma criança de 4 anos de idade.

    Insatisfação na Bolívia e estado de emergência

    Na Bolívia, a população demonstrou insatisfação com os resultados das eleições, que foram anunciados nesta segunda-feira (21) e que resultaram na reeleição do presidente Evo Morales.

    Após o anúncio, diversos manifestantes foram às ruas para exigir a recontagem dos votos, alegando que as eleições teriam sido uma fraude. Durante os protestos, escritórios eleitorais das cidades de Oruro, Tarija e Sucre foram incendiados.

    Além da população, o opositor de Morales na corrida eleitoral, Carlos Mesa, também acusou as autoridades eleitorais do país de "fraude".

    Perante a situação, Morales declarou o estado de emergência no país, por entender que a democracia boliviana estaria sendo ameaçada.

    Além disso, nesta quarta-feira (23) o presidente boliviano convidou a UE e a OEA para verificar cada uma das urnas utilizadas no país, para que o resultado seja comprovado, e afirmou que as declarações não passam de uma tentativa de golpe de Estado organizado pela direita com apoio internacional.

    Eleição na Colômbia e fechamento das fronteiras

    As eleições na Colômbia devem ocorrer no próximo dia 27 de outubro e, como medida de segurança para evitar problemas e tensões, tais como os enfrentados pelos vizinhos, o país decidiu que fechará a fronteira com a Venezuela de 24 a 27 de outubro, além da fronteira com o Brasil, Equador e Peru, que será fechada a partir de sábado (26).

    Segundo o diretor de agência alfandegária Migração da Colômbia, Christian Kruger, a medida será tomada para garantir a normalidade no decorrer das eleições regionais, que ocorrerão no território nacional.

    Reformas econômicas e ajustes fiscais

    A América do Sul vive momentos de tensão, e isso estaria ligado com as reformas econômicas, os ajustes fiscais, os abusos dos governos e as expectativas de melhorias.

    A população sul-americana parece estar se cansando cada dia mais dos abusos de seus governantes, que estão enfrentando uma onda de crise política em seus territórios. Como é o caso do Equador, que eliminou os subsídios como uma forma de conter o déficit fiscal, o caso do Chile, que aumentou o preço das passagens de metrô, o caso da Bolívia, que estaria ligada com uma suposta fraude nas eleições, a Venezuela, que sofre com a desigualdade e miséria, a Argentina, que passou por crises econômicas e, claro, o Brasil, que sofre com a "interminável" corrupção.

    Além disso, há o fator das expectativas criadas pelos governantes que, na maioria das vezes, são apenas ferramentas utilizadas para conquistar os eleitores através de falsas promessas de melhoria de qualidade de vida, além de reformas constitucionais, educacionais, tributárias e de saúde. Entretanto, quase nenhuma dessas promessas de fato é cumprida, provocando assim a revolta da população do país.

    A desigualdade social não pode ser deixada de lado, já que há um abismo social cada vez mais profundo, onde a população trabalha e sofre para sustentar sua família, enquanto que os governantes recebem aumento salarial constantemente. No Brasil, por exemplo, 60% dos trabalhadores tiveram um rendimento médio mensal de apenas R$ 928 no ano passado, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE.

    Um exemplo mais recente no Brasil é a aprovação do orçamento para 2020 sem reajuste real para o salário mínimo pelo Congresso do país, enquanto que o reajuste salarial de deputados e membros do governo ocorre frequentemente, inclusive há aqueles que se dizem insatisfeitos com um salário de aproximadamente R$ 25 mil.

    Todos esses fatores, obviamente, provocarão um sentimento de abandono e de que suas expectativas continuam não correspondidas pelos governos dos respectivos países.

    Confrontos na América do Sul preocupam Bolsonaro

    Em meio aos protestos que assolam a América do Sul, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, deixa claro que o país pode ser o próximo a se "inflamar" devido ao descontentamento da população com seu governo, e demonstra sua preocupação com relação ao assunto tentando encontrar culpados e explicações de maneira antecipada.

    Tanto é que afirmou monitorar todos os protestos, chegando a culpar até mesmo o Foro de São Paulo pela crise no Chile, alegando que o Foro de SP, grupo criado por partidos de esquerda, estaria agindo para atacar os EUA.

    Entretanto, Bolsonaro parece mais preocupado com a situação política do que com a situação da população, que continua apenas com as expectativas criadas por mais um governante. Durante suas declarações sobre a situação sul-americana, o presidente brasileiro manteve seu foco político e apenas fez referências a partidos de esquerda, indicando sua preocupação pelo poder.

    Solução de Bolsonaro para 'blindar' o Brasil

    Depois de demonstrar sua "preocupação política", Bolsonaro afirmou ter a possível solução para evitar o caos no Brasil, as Forças Armadas.

    Segundo ele, as Forças Armadas estariam prontas para enfrentar possíveis manifestações, pois mantém constante contato com o Ministério da Defesa.

    Entretanto, segundo o especialista em segurança Paulo Storani, ex-instrutor do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), as Forças Armadas do país não têm "nenhuma" experiência em lidar com protestos.

    "As Forças Armadas estão preparadas tecnicamente? Sim. Se têm experiência? Não, sem dúvida nenhuma", afirmou o especialista.

    Ou seja, ao invés de planejar como enfrentar as manifestações, Bolsonaro deveria pensar em como melhorar o país e a qualidade de vida da população para eliminar a possibilidade da ocorrência dos protestos.

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    Tags:
    desigualdade, corrupção, manifestação, protestos, Brasil, Chile, América do Sul
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