00:15 11 Dezembro 2018
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    Presidente dos EUA, Donald Trump, fala ao telefone a bordo do avião presidencial (foto de arquivo)

    'Ofensiva' econômica dos EUA contra Irã pode jogar contra o próprio Trump?

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    A recente saída estadunidense do acordo iraniano e o regresso das sanções aparecem entre os temas mais repercutidos na agenda internacional. A Sputnik explica como Washington ficou de fato sozinha em sua decisão repentina e que futuro se espera do mercado petrolífero mundial em meio à possível redução da produção global.

    O acordo nuclear iraniano, formalmente chamado do Plano de Ação Conjunto Global, foi assinado em 2015 e se considerou como uma das principais "vitórias diplomáticas" do governo Obama. O país persa, que tinha sido vítima de diferentes medidas restritivas americanas e europeias desde 1979, acordou em fechar seu programa nuclear em troca do levantamento das sanções restritivas.

    Agora, em 2018, Donald Trump passa a cumprir mais uma promessa dada durante a corrida presidencial — voltar a sufocar Teerã com restrições, considerando o país como patrocinador do terrorismo. Entretanto, parece que o único aliado incondicional da Casa Branca nessa questão é Israel, o rival irreconciliável dos aiatolás iranianos…

    Em que consistem as sanções?

    Na prática, não se trata de medidas novas, mas do descongelamento das sanções suspensas em 2015. O governo norte-americano decidiu realizar o processo em duas etapas, para que Teerã tenha tempo de "melhorar seu comportamento".

    Assim, a primeira parte das sanções entrou em vigor à meia-noite (no horário de Washington) de 6 para 7 de agosto. De acordo com o respectivo pacote, os funcionários públicos iranianos ficam proibidos de comprar dólares, enquanto aos cidadãos estadunidenses é vedado adquirir moeda iraniana. Além disso, fica restringido o comércio com o Irã nas seguintes áreas de produtos: metais preciosos, carvão, alumínio, aço, grafite, tecnologia informática, automóveis e aviões civis.

    E se esta lista já gera preocupação pela sua envergadura e rigidez, considerando ainda o ultimato estadunidense em relação a terceiros países ("Quem está com o Irã, está contra os EUA"), a parte mais dolorosa da "ofensiva" econômica norte-americana contra o país persa começa em três meses, isto é, em 5 de novembro, e afeta as áreas mais sensíveis da produção iraniana — navegação comercial e construção naval, bancos e finanças e setor petrolífero.

    Evidentemente, o principal objetivo dessas medidas é isolar o Irã dos mercados de commodities e financeiros. Alguns analistas ainda creem que outra finalidade não falada do establishment dos EUA é derrubar o regime clerical iraniano liderado pelo presidente Hassan Rouhani. Porém, mesmo agora, passados vários dias após a imposição de mera primeira parte do plano, já surgem numerosas dúvidas quanto à viabilidade das expetativas norte-americanas.

    Resposta da comunidade internacional

    As dúvidas quanto ao futuro do projeto anti-iraniano de Trump são motivadas, em primeiro lugar, pela reação que se seguiu à ruptura norte-americana com o acordo, mesmo por parte dos países aliados de sempre. O descontentamento com tal rebeldia da administração estadunidense foi expresso por todos os lados signatários do Plano de Ação Conjunto Global, que reiteraram sua adesão às cláusulas do acordo, pela Turquia, aliado estadunidense dentro da OTAN, por alguns países do BRICS e, para maior surpresa de todos, pela própria Europa.

    Mas as autoridades europeias não se limitaram apenas a declarações de protesto. Passado menos de um dia após a introdução das sanções, fizeram questão de criar seu próprio mecanismo de resistência às sanções norte-americanas contra o Irã no território da União Europeia. Relembremos que, segundo o projeto de Washington, as restrições também vão afetar todos os países que continuem cooperando com Teerã.

    Embora o projeto seja questionado por numerosos críticos por sua pouca viabilidade e pelo fato de muitas empresas europeias já terem saído de antemão do território iraniano, vale ressaltar a própria manifestação de tal postura. Para qualquer um que se interessa por política internacional, fica cada vez mais evidente até que ponto é grande o crescente abismo de discrepâncias entre a Europa e os EUA. E a situação não melhora nada com a imposição de tarifas norte-americanas, suas tentativas de decidir com quem é que os europeus devem manter comércio e em que países devem investir.

    Ao mesmo tempo, a disponibilidade para continuar com as compras do petróleo iraniano foi manifestada pela Índia, Rússia e China, membros do bloco de países emergentes do BRICS. Conforme a opinião de muitos economistas, aqui o fator principal é a futura estratégia da China, cujo abastecimento petroleiro é garantido pelo Irã em mais de 10%. Caso Pequim siga a linha anunciada e ignore as restrições norte-americanas, isto solapará em grande parte a sua eficácia, sendo ainda que o governo chinês está cada vez mais inclinado a fazer comércio em yuans e a reduzir a dependência do dólar para zero.

    Consequências previsíveis

    Viver sob sanções durante décadas não é algo de novo para Teerã, sublinham especialistas. Mais que isso, o governo iraniano sempre mostrou grande criatividade e boa adaptação às condições do "cerco" econômico imposto de fora. Por isso, reconhecem muitos, o efeito de ambos os pacotes de Trump provavelmente não será assim tão chocante como se espera.

    Entre as primeiras medidas de precaução, o Irã já anunciou a sua adaptação para uma taxa de câmbio flutuante da moeda nacional, em vez da fixa. Além disso, falou sobre a possível criação de sua própria criptomoeda para marcar presença nos mercados financeiros apesar de todas as sanções, como já tentou sem grandes êxitos o governo venezuelano.

    Entretanto, se deve reconhecer que em um certo sentido a situação dentro do país já piorou. Ainda nas vésperas da introdução do primeiro pacote restritivo, o valor do rial iraniano baixou, os preços subiram, ainda agravados pelo desemprego permanente bem alto. Tudo isso, indicam os especialistas, pode mudar as opiniões do povo em relação ao governo de Rouhani, ainda na sequência dos protestos deste inverno.

    O governo iraniano até anunciou uma ameaça bem séria — de fechar o estreito de Ormuz, principal artéria de navegação para os países do golfo Pérsico. No entanto, isso parece o último passo a ser dado por Teerã, pois significaria uma guerra com os EUA com uma probabilidade de quase 100%.

    Outro prognóstico consiste em que Trump, provavelmente, se aproveita da situação para depois resolvê-la via "cenário norte-coreano", ou seja, aparecer na qualidade de negociador e pacificador após uma troca de ameaças mordazes. O presidente norte-americano até aludiu a isso na sua conta do Twitter. Porém, seu homólogo iraniano logo descartou a perspectiva de uma reunião bilateral, destacando que Trump já decidiu tudo de antemão sem mostrar qualquer disponibilidade para um consenso.

    E a pergunta mais urgente permanece a mesma — será que o mercado petrolífero sofrerá outro choque grave se o segundo pacote de sanções acabar sendo introduzido?

    Provavelmente, os preços vão crescer, sim, como já acontece, porém a ritmos bem mais lentos. Isso, sem dúvida, será vantajoso para os produtores do petróleo de xisto estadunidenses. Porém, os cidadãos comuns sentirão isso na subida dos preços da gasolina e, consequentemente, da maioria dos artigos no supermercado. Então, quando o eleitor estadunidense sentir na sua própria pele todos os resultados da política do seu presidente, será que o vão apoiar?

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    Tags:
    Plano Abrangente de Ação Conjunta, acordo nuclear, petróleo, sanções, P5+1, Donald Trump, Hassan Rouhani, Barack Obama, Turquia, Irã, Europa, China, EUA
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