18:28 20 Outubro 2018
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    Veículos especiais durante os testes de novos armamentos e equipamento militar nas condições do Ártico

    Será que EUA já perderam 'briga' pelo Ártico para a Rússia?

    © Sputnik / Ministério da Defesa da Rússa
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    Ao longo da última década, a região do Ártico tem se tornado uma das regiões que geram tensão entre os EUA e a Rússia, as antigas duas potências que asseguravam a paridade e equilíbrio das forças no mundo bipolar. A Sputnik Brasil explica como Washington perdeu a corrida ártica e que medidas pretende tomar no futuro próximo para "virar o jogo".

    Em 27 de junho, o chefe do Pentágono, James Mattis, assegurou que seu país deve "trazer seu jogo no Ártico para um novo nível". A declaração foi bastante repercutida tanto na mídia internacional quanto na russa — tendo sido entendida com certa preocupação em relação a um eventual confronto estratégico dos norte-americanos com a Rússia nos respectivos territórios.

    'Agonia' americana

    De fato, após o colapso da URSS e o fim da Guerra Fria, o Ártico acabou sendo uma das regiões que escaparam ao olhar do Pentágono e acabou ficando maioritariamente dominada pelos russos, que conseguiram desenvolver lá toda uma série de projetos.

    Deste modo, por exemplo, hoje em dia os EUA não possuem nenhum quebra-gelo de alto mar, enquanto um novo navio deste tipo poderá ser lançado à água daqui a cinco anos no mínimo. Ao mesmo tempo, a Rússia é de fato o único país que possui uma frota de quebra-gelos nucleares, unidades indispensáveis para desbravamento do Extremo Norte.

    Além disso, a Marinha da Rússia está constantemente desenvolvendo projetos novos — tais, como o navio Lider (vai ser construído entre 2023 e 2025) e os três quebra-gelos de última geração Arktika, Ural e Sibir (vão ser postos em serviço entre 2019 e 2021). E ainda não devemos esquecer tais iniciativas como o envio de "Cisnes Brancos", aviões russos Tu-160, para a área, com a finalidade de garantir a melhor defesa possível.

    Tudo isso faz com que o Pentágono fique extremamente preocupado com o avanço da Rússia na região. Assim, os especialistas no assunto avaliam que em média o atraso americano neste campo é de ao menos 10%. Os maiores problemas dos militares estadunidenses nesse sentido é a ausência de navios adequados, o pouco treinamento militar adaptado ao clima ártico e a falta de respectivos equipamentos para os soldados.

    Outros atores no palco

    Evidentemente, não é por acaso que o Ártico está gerando tanta repercussão na política internacional: tem valor estratégico por possuir enormes reservas de recursos naturais e ser uma alternativa viável e mais barata às rotas comerciais já existentes. Nesse respeito, a Rússia já está se empenhando ativamente na criação da Rota Marítima do Norte, que promete grandes avanços, enquanto Washington, com seu nervosismo, já passou a propor convertê-la em patrimônio mundial e não só dos russos.

    Mas claro que Moscou e Washington não são os únicos atores que tem pretensões nas áreas do Extremo Norte. Entre outros, há o Canadá, a Dinamarca, a Finlândia, a Islândia, a Noruega e a Suécia, sendo estes os países-membros do chamado Conselho Ártico.

    A questão é que na última década a Rússia tem dado vários passos que acabaram ressuscitando as disputas territoriais na região. Isto, certamente, não agradou a nenhum destes Estados e os levou a reclamar pelo seu pedaço do bolo também.

    Nomeadamente, em 2001 o país entregou à respectiva entidade da ONU uma solicitação a respeito da sua plataforma continental no oceano Ártico. A motivação para isso é a seguinte: caso seja reconhecida pelas organizações internacionais, tal plataforma concede a um país o direito de possuir uma zona econômica exclusiva de até 200 milhas marítimas, incluindo as possibilidades de exploração de recursos, etc. Esse fator, porém, não é nada fácil de ser provado, nomeadamente por razões meramente geológicas, por isso as discrepâncias não tardaram.

    Vale ressaltar que na época, em 2001, a Rússia não conseguiu promover o reconhecimento da sua solicitação nas Nações Unidas. Já em 2015, após um grande ciclo de pesquisas e investigação científica, o país voltou a apresentar um documento mais aprofundado, contudo com a mesma ideia.

    De acordo com os especialistas, o resultado sairá não antes do próximo ano, pois ele se entrelaça ainda com outras solicitações do mesmo tipo, como a dinamarquesa ou a canadense. Não é de estranhar, pois as profundezas dos mares do Norte abrigam pelo menos uns 83 bilhões de toneladas de combustíveis, sem falar das reservas ainda não achadas, que devem ser muitas. Assim, caso a Rússia tenha sua solicitação aprovada, já vai ficar com ao menos 5 bilhões de toneladas, o que é crítico para a economia do país.

    Há um verdadeiro risco de conflito armado?

    Se nos focarmos no aspeto meramente militar e não no econômico em relação ao Ártico, vários analistas supõem que até existe um risco de conflito armado na área, principalmente entre os russos e os norte-americanos. Serão justas tais preocupações?

    Por enquanto, parece que é um exagero. Os EUA, dado o seu atraso que terão dificuldade em superar, dificilmente se atreverão a travar algum conflito sério no Extremo Norte. Já a Rússia, segundo ela ressaltou várias vezes, defende um caráter essencialmente defensivo da sua política militar naquelas áreas, tendo como objetivo proteger os territórios explorados por ela ao longo dos séculos.

    Enquanto isso, é cada vez estreita a cooperação da Rússia com a China, inclusive nas regiões árticas. Para alguns especialistas, a mesma trajetória poderá ser aplicada entre os antigos rivais da área, ou seja, os Estados árticos, pois o crescente risco ambiental e os desafios naturais devem ser algo que una essas potências.

    Contudo, é difícil dizer se os países serão capazes de sacrificar seus apetites políticos e econômicos para o bem de todos. Até hoje, parece que nessa batalha cada um briga por si mesmo.

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    quebra-gelo, supremacia, Tu-160, Guerra Fria, ONU, Ártico, EUA, Rússia
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