09:18 24 Setembro 2017
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    Uma cena de explosão nuclear no filme Século XX

    Como armas nucleares mudam o conceito de guerra e bagunçam o jogo geopolítico

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    Em meados do século XX, uma coisa mudou totalmente o conceito humano da guerra. Foi a bomba atômica que, uma vez criada pelos construtores norte-americanos, alastrou seu tenebroso perigo por todo o mundo. A Sputnik explica por que hoje em dia as armas nucleares representam uma pedra angular da política internacional.

    A maioria dos países-párias, ou seja, daqueles que têm sido submetidos ao regime rígido de sanções nas últimas décadas, tiveram algo a ver com as armas nucleares. O "clube de elite" que inicialmente ganhou o inédito privilégio de possuir seu próprio arsenal de ogivas está cada vez mais irritado com o fato de outros países tentarem usurpar esta vantagem. Para entender do que é que consiste a atual "corrida" nuclear em vários níveis, basta recordar a história.

    Surgimento do armamento mais mortífero na história

    Os primeiros descobrimentos ligados às substâncias atômicas, que em consequência possibilitaram a criação e teste bem-sucedido da primeira bomba nuclear, remontam aos fins do século XIX. Porém, a vida das armas nucleares em pleno funcionamento começou apenas em 1945, vários anos antes do início da Guerra Fria.

    Neste sentido, os pioneiros foram os americanos, e eles também foram os únicos na história a usarem o potencial nuclear não só para efetuar ensaios, mas para efetuar um verdadeiro ataque bélico contra a população civil. Deste modo, em agosto de 1945, os americanos lançaram duas bombas (com um tom de "humor negro", uma delas se chamou "Bebé") contra as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. No total, morreram entre 150 e 220 mil pessoas.

    O ato foi justificado pelo comando estadunidense como uma medida para acelerar a capitulação japonesa na Segunda Guerra Mundial, porém, a racionalidade de tais medidas ainda hoje gera repercussões inflamadas.

    Evidentemente, no contexto de uma confrontação áspera entre as duas superpotências que saíram vencedoras do maior conflito militar na história humana, a URSS não podia se dar ao luxo de descartar projetos similares para contrabalançar o "trunfo" que Washington, de súbito, ganhou. Como resultado, os construtores soviéticos concretizaram a iniciativa, tornando o país na segunda potência nuclear já em 1949.

    Porém, estes dois acabaram por não ser os únicos donos de uma força tão destruidora e capaz de conter o inimigo. Durante os anos seguintes, o Reino Unido, a França e a China também realizaram testes bem-sucedidos dos seus análogos da inovadora arma exterminadora. Estes cinco países, no final, formaram o "clube nuclear" oficial que continua existindo até hoje.

    Quando o 'jogo' se torna perigoso demais

    Se os três últimos países obtiveram seu potencial nuclear, de fato, para não ficarem "atrasados" em relação aos outros e nunca chegaram a desenvolvê-lo em larga escala, os EUA e a URSS, a partir da década de 50, se lançaram em uma acirrada corrida armamentista. Claro que as armas nucleares desempenharam um papel indispensável nesta aventura tenaz de "igualar e ultrapassar".

    Vale ressaltar que, nessa corrida, as autoridades soviéticas cunharam o conceito de "paridade nuclear", enquanto os seus colegas americanos tentaram fazer um enfoque na supremacia das suas forças nuclearas. E houve supremacia, sim, pois os norte-americanos foram os primeiros a se empenharem nesta aventura, porém, já nos meados da década de 1970, a paridade, ou seja, a igualdade dos arsenais, foi alcançada.

    No entanto, além das "vertigens de sucesso" que a posse de tal força mortífera garantia, os países logo se deram conta que esta tinha mudado todo o conceito de jogo geopolítico e ação militar. Um exemplo marcante disso foi a Crise do Caribe, ou a Crise de Mísseis de Cuba, quando as duas superpotências nucleares, realmente, estiveram a um passo da catástrofe global, com as ogivas de cada um deles posicionadas contra o outro.

    Felizmente, o então líder soviético Khruschev e o presidente estadunidense Kennedy conseguiram chegar a um consenso e impedir o pesadelo mais temível de todo o mundo. Porém, com este incidente chegou o entendimento de que as armas nucleares levaram a uma ordem mundial completamente nova, que carecia de legislação e regulação adequadas.

    Neste novo contexto, as ferramentas habituais de pressão e provocação já não serviam, pois apenas um ataque significava um ataque recíproco, e, consequentemente, a eliminação (parcial ou completa) de ambos os lados.

    Foi por este motivo que a segunda metade dos anos 60 e toda a década seguinte foram marcadas pela chamada "détente", palavra francesa que incluía, particularmente, a dissuasão nuclear, ou seja, pelo menos a suspensão do alastramento dos respectivos armamentos e, num cenário otimista, sua redução.

    Embora a motivação de tal movimento em geopolítica pareça bem razoável, até hoje há bastantes críticos da iniciativa. Na opinião deles, o desarmamento nuclear pode neutralizar o valioso efeito de "contenção" que ajuda a evitar um conflito bélico global.

    Aqueles que 'chegam sem serem convidados'

    Assim, Washington e Moscou conseguiram assinar toda uma série de acordos que contribuiu para a eliminação de milhares de ogivas e pôs um freio no crescente monstro da eminente guerra nuclear. Entre estes documentos se pode enumerar o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, conhecido como Tratado INF (cuja concretização, a propósito, continua provocando o descontentamento de ambas as partes), o SALT-I e o SALT-II sobre limites de armas estratégicas, ou seja, as armas que garantem o transporte de cargas nucleares.

    No entanto, o maior e o mais importante acordo que abrangeu, não só os dois gigantes da época, mas também os outros Estados possuidores de arsenais atômicos, foi celebrado ainda em 1968 — o Tratado de não proliferação de armas nucleares. Foi precisamente este documento que assegurou, e continua assegurando até hoje, o direito dos cinco países do clube a possuírem armas nucleares. A partir deste momento, todo o país que se atrevesse a desenvolver este tipo de armamentos enfrentou toda a fúria da comunidade internacional, em primeiro lugar da ONU.

    Entre esses países figura, por exemplo, a Índia, que nos fins do século passado foi reconhecida como uma potência nuclear não oficial. Mas para que um país que nunca se mostrou verdadeiramente militarizado precisaria de tal tipo de armamentos? A resposta é simples: a criação da bomba atômica suscitou uma espécie de efeito de dominó e, consequentemente, os Estados da mesma região das potências atômicas se sentiam ameaçados por esta evidente distorção do equilíbrio de forças. Nova Deli, por sua vez, temia o domínio crescente da China nuclear na Ásia e também visava obter um "porrete" contra o seu ex-território muçulmano e rebelde, o Paquistão. Os testes foram conduzidos clandestinamente já em 1974.

    Evidentemente, os paquistaneses não tinham mais nada a fazer senão criar a mesma arma para se defenderem da "possível agressão", lembrando a cisão forçada da sua parte oriental, o Bangladesh. Porém, as pesquisas e o processo de construção lhe levaram muito mais tempo, e o país passou a ser nuclear apenas em 1998. Hoje em dia, embora Islamabad afirme que adere à doutrina de "não atacar primeiro", muitos especialistas estão preocupados com o crescimento do seu arsenal atômico que já não parece existir apenas para "dissuadir" os inimigos.

    Um dos países que, literalmente, ficou pária e objeto de inúmeras sanções por parte da comunidade internacional é o Irã, mesmo que este sempre tenha reiterado o caráter pacífico do seu programa nuclear. Na presidência de Barack Obama, houve inéditos avanços no processo de negociações com o país, que acordou em reduzir seus arsenais e transferir as produções; contudo, com a retórica atual da administração Trump o futuro do "arranjo iraniano" fica mais do que nebuloso.

    Entretanto, Israel, por exemplo, apesar de ser suspeito de possuir armas nucleares pelos serviços secretos de numerosos países, nunca se confrontou com tal fúria por parte das estruturas internacionais. Aliás, o país nem aderiu ao histórico Tratado de não proliferação de armas nucleares. Na avaliação de analistas, Tel Aviv pode não somente dispor de um grande potencial nuclear clandestino, mas até possuir a chamada "tríade nuclear", isto é, as forças estratégicas em terra, no mar e no ar que possibilitam o transporte e, particularmente, o próprio lançamento de ogivas.

    E, por fim, claro — a maior ameaça à paz no conceito norte-americano de hoje, a Coreia do Norte. Esta já há mais de uma década revelou que estava desenvolvendo uma bomba atômica, seus lançamentos de mísseis desencadeiam histeria por todo o mundo, as edições internacionais não param de falar sobre uma iminente Terceira Guerra Mundial. Mas, pensando com a cabeça fria, a maioria dos especialistas concorda que as armas atômicas, para Pyongyang, são apenas uma ferramenta de contenção e a liderança do país é inteligente demais para não atacar primeiro, tanto mais que, pelas avaliações, o país ainda não possui um verdadeiro míssil intercontinental (mas está muito perto de fazê-lo).

    Há tanta sedução para falar, mais uma vez, dos duplos padrões que penetram a geopolítica hoje em dia. Neste âmbito, acontece a mesma coisa: aquilo que os outros desfrutam, é proibido aos outros. Esta ambiguidade das regras do jogo faz com que o mundo se torne cada vez mais vulnerável frente a uma ameaça de guerra global. Talvez, o "clube de elite" deva ceder sua supremacia e tentar construir uma nova ordem que corresponda melhor à realidade de hoje? Uma coisa é certa: há falta de regulação, e esta falta, como se sabe, é algo que gera o caos.

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    Tags:
    corrida armamentista, armas nucleares, Rússia, Irã, Paquistão, Coreia do Norte, EUA
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