19:06 18 Novembro 2018
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    Temer durante jantar com Embaixadores em uma churrascaria de Brasília neste domingo (19).

    Operação Carne Fraca: o espetáculo da polícia, da política e do comércio exterior

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    A batalha da 'carne fraca' (31)
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    O dia 17 de março certamente ficará na memória como uma página negra para a indústria agropecuária brasileira. Nesse dia, a Polícia Federal anunciou ter desarticulado uma organização criminosa, liderada por fiscais do Serviço de Inspeção Federal (SIF) e cerca de 40 empresas do setor.

    A ação espetacular, conduzida pelos órgãos de segurança, foi batizada de Operação Carne Fraca. Os alvos da investigação eram os pesos pesados JBS e BRF Brasil, dois gigantes nacionais que, em seu significado para o mercado de carne global podem ser muito bem equiparados, guardadas as analogias, com empresas do cacife da Odebrecht e da Camargo Corrêa. Alguns frigoríficos menores, no Paraná e em São Paulo, entretanto, também estariam envolvidos em suposto esquema de venda ilegal e carnes.

    A maior operação já realizada pela Polícia Federal em toda sua história

    A Polícia Federal mobilizou 1100 policiais, que cumpriram 309 mandados judiciais em residências e locais de trabalho de investigados e em empresas ligadas ao suposto grupo criminoso em 7 estados: São Paulo, DF, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Goiás.

    A ordem partiu de Curitiba, da 14ª Vara da Justiça Federal.

    Segundo a PF, a investigação já dura dois anos e foi iniciada após denúncias de que fiscais do SIF estariam recebendo propinas para emissão de certificados sanitários. O esquema contaria com o pagamento de propina para partidos políticos, como o PMDB, partido do presidente Michel Temer e o PP.

    Dos 34 funcionários públicos federais investigados, pelo menos 20 já foram presos na operação. Dois executivos da BRF e um da JBS também estão sob custódia. O gerente de Relações Institucionais e Governamentais da BRF Brasil, Roney Nogueira dos Santos e o diretor da BRF André Luis Baldissera; além do funcionário da Seara, empresa da JBS, Flávio Evers Cassou. 

    O espetáculo

    O caso repercutiu na imprensa com a velocidade de um incêndio, suscitando ira popular com a divulgação das possíveis irregularidades nos produtos, anunciadas pelos investigadores. Peças do inquérito revelaram que carnes eram vendidas com data de validade vencida, etiquetas com datas revalidadas, e que substâncias cancerígenas eram adicionadas a alguns produtos para alegadamente ampliar sua conservação.

    Segundo o delegado da Polícia Federal, Maurício Grilo, que realizou uma coletiva de imprensa no dia 17 de março, "eles usavam ácidos e outras substâncias da carne para maquiar essa imagem ruim, que ficaria se por acaso ela fosse exposta dessa forma. Então, se usa substâncias, inclusive cancerígenas. Um desses produtos eram multiplicados cinco, seis vezes para que não dê cheiro e que o aspecto e cor fique bom também."

    Apesar de terem certo fundamento, a ação da PF acabou gerando uma grande quantidade de boatos, como no caso de uma suposta presença de papelão em produtos processados de carne. Além disso, faltou um certo cuidado com a expertise técnica, pois diversos especialistas negaram o fato das substâncias utilizadas serem cancerígenas.

    O principal impacto, porém, veio de fora. Diversos países, consumidores tradicionais de carne brasileira, começaram anunciar a suspensão da compra de carne nacional, gerando um enorme prejuízo financeiro e de imagem para todo o setor, cujo valor produtivo na economia chega a quase 500 bilhões de reais por ano.

    O deixa disso

    Até um certo momento, os produtores de carne e o Governo Federal pareciam atordoados. No entanto, assim que os primeiros países, como Japão, México e Chile, suspenderam a compra de carne brasileira — com diversos outros grandes importadores dando sinais de que fariam o mesmo — o pânico se transfigurou em ação. Como de costume, entrou em campo a turma do deixa disso. 

    O principal argumento para refutar a gravidade da situação foi o de que aconteceu uma "espetacularização" de um problema pontual, que seria facilmente corrigido, mas que agora compromete a imagem da qualidade da carne brasileira no exterior e no mercado interno.

    O discurso foi adotado por diversos representantes do setor e até pelo presidente Michel Temer, que convocou ainda no domingo, dia 19, os embaixadores dos países importadores para assegurar que as denúncias da PF seriam investigadas, mas que o problema não era do setor. Para reforçar a mensagem positiva, o presidente foi jantar com os representantes diplomáticos estrangeiros em uma churrascaria, o que gerou uma série de memes, pois não ficou claro se a carne consumida no local seria importada ou brasileira.

    ​De todo modo, a ação da polícia passou a ser objeto de críticas no governo, no setor produtivo de carne, no judiciário e até na imprensa, que lamentou as perdas financeiras. 

    Para Antônio Alvarenga, presidente da Sociedade Nacional da Agricultura (SNA), faltou bom senso à Polícia Federal, que cumpriu o papel dela, fez dois anos de investigações, descobriu irregularidades que precisam ser sanadas e os responsáveis rigorosamente punidos, mas que pecou pela forma como foi divulgada a operação.

    Também no Judiciário, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) fizeram eco às críticas. Para o ministro Gilmar Mendes, houve uma disputa pela mídia.

    "Um delegado decide fazer a maior operação já realizada no Brasil e anuncia que todos nós estaríamos comendo carne podre, e que o Brasil estava exportando para o mundo carne viciada. Por que ele fez isso? Porque no quadro de debilidade da política não há mais anteparos, perderam os freios. E não querem que se aprove lei de abuso de autoridade. Então, um mero delegado anuncia operação dessa dimensão porque ele vê o crime cometido na Procuradoria da República", disse Mendes.

    A partir dali, o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, também entrou em campo, para assegurar o pleno funcionamento do serviço sanitário nacional. Respondendo aos questionamentos da Sputnik Brasil, o ministro aproveitou a entrevista concedida à imprensa para agradecer o posicionamento da Rússia diante da Operação Carne Fraca. Enquanto a União Europeia e países asiáticos colocaram um embargo no produto brasileiro, autoridades russas decidiram não interromper as importações. 

    "Nós esperávamos um posicionamento dos países nessa linha que a Rússia tomou. Sempre que exportamos algum produto, os países compradores também fazem a checagem e nos auditam. Portanto, é isso que estamos falando quando afirmamos que a investigação não é sobre a qualidade do produto, mas sobre o comportamento de pessoas. Então o comportamento que a Rússia tem é o comportamento que esperamos de outros países também", disse.

    O esforço do governo, no entanto, não foi suficiente naquele primeiro momento, pois grande parte dos importadores foi fechando as portas e o Brasil, em questão de dias, perdeu 55% do mercado internacional no setor.

    A imagem do Brasil 

    "A imagem do Brasil ficou arranhada, está abalada. É um sentimento que tem na população brasileira e obviamente tem fora daqui. Os prejuízos que nós vamos ter, eles serão muito grandes. A média de embarque diário de carnes tem sido numa média útil de US$ 63 milhões por dia, era assim, na terça-feira (21), nós tivemos US$ 74 mil embarcados para o exterior. Vocês vejam o tamanho da pancada que nós recebemos", declarou Blairo Maggo quase uma semana depois do escândalo deflagrado pela Operação Carne Fraca.

    Até aquele momento, 10 países — África do Sul, Argélia, China, Hong Kong, Egito, Jamaica, Japão, México, Suíça e Trinidad Tobago — suspenderam as compras, enquanto a União Europeia suspendeu a importação de quatro unidades de produção. O governo estima que o Brasil deverá ter um prejuízo de até US$ 1,5 bilhão devido ao escândalo e que a participação do país no mercado mundial deve diminuir 10%. 

    Segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, o Brasil exportou US$ 13,4 bilhões em carnes para 137 países no ano passado. Na opinião de vários especialistas em comércio exterior ouvidos pela Sputnik Brasil, o grande desafio agora é qual será a estratégia que o governo deve adotar para recuperar a credibilidade da carne brasileira no mercado externo.

    Em entrevista exclusiva para a Sputnik Brasil, o empresário Antônio Jorge Camardelli, presidente da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne) destacou o peso do setor na economia.

    "Nossa primeira solicitação foi de uma palavra de confiança e de reforço às indústrias que têm todo um patrimônio, empregam mais de 4 milhões de pessoas em empregos diretos. Para se ter uma ideia, só na indústria de carne bovina a cadeia de valor produtivo é de R$ 480 bilhões, quase meio trilhão de reais. É exatamente este o aspecto que a gente colocou para o presidente da República, sendo depois colocado que vai ser uma tarefa difícil mas que nós precisamos tratar isso com urgência."

    Enquanto isso, os produtores continuam amargando prejuízos. O Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic) informou nesta segunda-feira (27) que o valor médio diário por dia útil das exportações de carnes pelo Brasil caiu de US$ 62,2 milhões, até a semana da Operação Carne Fraca, para US$ 50,5 milhões, na semana seguinte. A queda foi de 19%.

    Segundo o Mdic, na semana anterior à Carne Fraca, o Brasil exportou US$ 294,8 milhões em carnes. Já na semana passada, após a operação da PF, foram exportados US$ 252,7 milhões, US$ 42 milhões a menos.

    O Ministro da Agricultura, entretanto, realizou um balanço das análises realizadas nas 174 amostras de carne recolhidas nos 21 frigoríficos investigações na Operação Carne Fraca da Polícia Federal. Segundo Blairo Maggi, foram produzidos 12 laudos e que até agora as análises feitas descartam riscos à saúde humana.

    "Não há até esse momento, em tudo o que nós recolhemos. Dos 12 laudos, das 174 amostras recolhidas qualquer tipo de anormalidade que possa fazer mal à saúde humana no consumo desses produtos."

    O futuro

    O Brasil, aos poucos vai recuperando a confiança do mercado internacional. Muitos países revogaram os embargos de importação de carne brasileira, como é o caso de Hong Kong e da China, cuja participação na balança é substantiva. Além disso, o governo estabeleceu nesta quarta-feira novas normas de fiscalização sanitária, no intúito de acelerar a reconquista dos mercados perdidos.

    Segundo as mais recentes declarações da ABIEC, o montante de exportações até o final do ano não será extremamente afetado. Porém, a abertura de novos mercados foi prejudicada.

    De todo modo, a Operação Carne Fraca, apesar de ter tido um grande impacto no setor agropecuário e na sociedade, não conseguiu repetir, pelo menos por enquanto, o efeito sísmico da Operação Lava Jato, com a qual guarda certas semelhanças, no mínimo pelo local geográfico de sua origem.

    As investigações da Polícia Federal, no entanto, continuam.

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    Tags:
    agropecuária, carne, Operação Carne Fraca, Serviço de Inspeção Federal (SIF), BRF Brasil, JBS, Abiec, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Polícia Federal, Antônio Jorge Camardelli, Antônio Alvarenga, Maurício Grillo, Blairo Maggi, Michel Temer, Brasil
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