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    Após uma Páscoa confinada em 2020, os portugueses voltam a viver as celebrações católicas da Semana Santa, ainda com restrições por causa da pandemia, mas com mais esperança do que na anterior. Padres ouvidos pela Sputnik Brasil falam sobre a importância e o alívio de voltar a celebrar presencialmente.

    As celebrações religiosas estão liberadas desde o dia 15 de março, dentro do plano de desconfinamento apresentado pelo governo, mas as procissões pascais estão proibidas, bem como os deslocamentos entre os municípios, para evitar viagens em família como ocorreram no Natal, o que fez com que os números de casos e mortes por COVID-19 disparassem em janeiro.

    Em uma das principais datas católicas, em que os cristãos celebram a ressurreição de Jesus, os portugueses também querem comemorar a vitória de uma nova vida contra a morte. Nas últimas 24 horas, foram registrados apenas três óbitos por COVID-19 no país, que tem cerca de 80% da população católica.

    Por isso, alguns rituais litúrgicos também foram suspensos por segurança. A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) emitiu um comunicado com algumas orientações para as celebrações da Semana Santa.

    "Nesta fase evitar-se-ão procissões e outras expressões da piedade popular, como as 'visitas pascais' e a 'saída simbólica' de cruzes, de modo a evitar riscos para a saúde pública", lê-se na nota enviada pela CEP à Sputnik Brasil.

    Para o Domingo de Ramos, celebrado no último fim de semana, quando os católicos comemoraram a entrada de Jesus em Jerusalém, a CEP recomendou evitar os ajuntamentos dos fiéis e determinou que de nenhum modo fosse permitida a entrega ou a troca de ramos, como sempre aconteceu nesta celebração.

    Na Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, no bairro homônimo de Lisboa, a missa das 19h00 estava vazia no Domingo de Ramos (28). Menos de 15 pessoas acompanharam a celebração, poucas delas com ramos nas mãos. Ao fim, o pároco Bartolomeu Mota recomendou que fiéis evitassem se concentrar nas missas da manhã, onde o volume é maior. 

    Missa de Domingo de Ramos na paróquia de Nossa Senhora da Penha de França, em Lisboa
    © Sputnik / Lauro Neto
    Missa de Domingo de Ramos na paróquia de Nossa Senhora da Penha de França, em Lisboa

    Isso porque, na missa das 11h00, ficaram de fora cerca de 30 ou 40 pessoas, para respeitar as regras de distanciamento e evitar aglomerações, como conta à Sputnik Brasil o padre espanhol Gonzalo Giron, que integra a paróquia há dois anos.

    "Tentamos fazer uma sondagem de quem poderia ir a outra missa que não fosse a das 11h00, mas é difícil mudar o hábito das pessoas", explica  Gonzalo Giron.

    Santa Ceia sem lava-pés e celebração sem beija-cruz

    Ele faz parte da primeira geração de padres ordenados durante a pandemia de COVID-19, em Lisboa, em junho de 2020. Na cerimônia de sua ordenação, em que estava usando máscara, como frisa, estiveram presentes apenas duas de suas irmãs, pois seus pais e outros familiares não conseguiram ir da Espanha para Portugal, já que as fronteiras entre os dois países estavam fechadas.

    Depois da última Páscoa, confinada e improvisada com celebrações on-line, padre Gonzalo respira aliviado por poder celebrar essa Semana Santa presencialmente, ainda que com restrições.

    "Tem sido um alívio para nós. Esse distanciamento e a separação das pessoas, nesse tempo em que estivemos fechados, foram difíceis. O que dá sentido à nossa função são as pessoas. Não ter contato com elas é difícil", relata.

    O contato, agora, é ainda à distância e sempre de máscara. Durante a eucaristia, os padres são orientados pela CEP a dar a hóstia consagrada apenas nas mãos dos fiéis e não diretamente na boca. Mesmo assim, já é bem melhor do que a última Semana Santa, em lockdown, com as igrejas vazias e as celebrações transmitidas apenas pela Internet.

    "Eu, pessoalmente, não domino as redes sociais nem sei fazer vídeo. Foi um tempo de adaptação, de pensar, criar, inventar coisas para os paroquianos poderem participar de casa: rezar o terço on-line, uma paroquiana dar um testemunho, outra ler o Evangelho e fazer a catequese etc.", exemplifica.
    O espanhol Gonzalo Giron faz parte da primeira geração de padres ordenados durante a pandemia, em Lisboa
    © Sputnik / Lauro Neto
    O espanhol Gonzalo Giron faz parte da primeira geração de padres ordenados durante a pandemia, em Lisboa

    A CEP também suspendeu dois outros momentos-chave dos rituais católicos. Nesta Quinta-feira Santa (1º), determinou que, na missa vespertina da Ceia do Senhor, omita-se o lava-pés. Durante a celebração, os padres costumavam lavar os pés de 12 fiéis da comunidade, repetindo o gesto de humildade e serviço que os católicos acreditam que Jesus fez com seus discípulos na Última Ceia, antes de morrer.

    Já na Sexta-feira Santa (2), a CEP determinou que o ato de adoração da cruz mediante o beijo seja limitado somente ao presidente da celebração, quando, habitualmente, era estendido a todos os fiéis. O rito simboliza a morte de Jesus, em um dia de recolhimento e silêncio. 

    A CEP recomendou ainda a introdução, na oração universal, de uma intenção "pelos doentes, pelos defuntos e pelos doridos que sofreram alguma perda", retomando a indicação do Missal Romano de que "em caso de grave necessidade pública, pode o Ordinário do lugar autorizar ou até decretar que se junte uma intenção especial".

    Questionado pela Sputnik Brasil sobre quais dessas alterações deve causar mais impacto nos fiéis, padre Gonzalo acredita que seja o lava-pés, mas nada incontornável.

    "A adoração da cruz, mesmo que seja só o padre a beijá-la e as pessoas não possam tocá-la, vão estar a olhar para ela, em um momento de adoração e recolhimento. O gesto é importante, mas o essencial é escutar a palavra, que por si, tem força. Se é feita uma liturgia bem celebrada e bela, já faz reviver esse momento [do lava-pés]", compara.

    Jesuíta português diz que fiéis regressaram com entusiasmo

    Na Igreja de Nossa Senhora da Encarnação, no Chiado, uma das zonas turísticas de Lisboa, o sentimento do padre português Francisco Mota é parecido. Jesuíta, assim como o Papa Francisco, ele também faz uma avaliação positiva por poder celebrar a Semana Santa presencialmente, mesmo com as restrições em alguns rituais.

    "São coisas muito tradicionais da vida da Igreja e da Páscoa, é muito forte. Vão estar ausentes, mas, comparado ao ano passado, apesar de todas as dificuldades, vai ser bom estar em comunidade novamente", diz padre Francisco Mota à Sputnik Brasil.

    De acordo com ele, nas quatro missas do Domingo de Ramos, a Igreja de Nossa Senhora da Encarnação recebeu um bom número de pessoas, "mais cheia do que devia ter estado", nas palavras dele, mas, ainda assim, com metade de sua capacidade e mantendo o distanciamento entre os fiéis.

    "Foi bom ver as pessoas regressarem com entusiasmo. Não vi pessoas com medo ou retraídas. Havia a distância de segurança, mas não um rosto de preocupação. Vi as pessoas contentes e confiantes por poderem voltar à vida de celebração", avalia. 
    O padre português Francisco Mota pertence à Companhia de Jesus, mesma ordem do Papa Francisco
    © Foto / Divulgação
    O padre português Francisco Mota pertence à Companhia de Jesus, mesma ordem do Papa Francisco

    O sacerdote também procura transmitir uma mensagem de fé em dias melhores após um ano de pandemia de COVID-19, com esperança na vacinação. Ele lembra que, apesar de na Sexta-Feira da Paixão os católicos vivenciarem e sofrerem a morte de Jesus, o ápice da Semana Santa é o Domingo de Páscoa, com a ressurreição. 

    "A coisa mais importante que diria é que esse último ano nos recordou que toda confusão da Sexta-Feira Santa pode fazer parte do nosso dia a dia. Mas devemos entender que a nossa vida não é só a Sexta-Feira, mas nos leva ao Domingo de Páscoa. A promessa de Deus é de que a vida vencerá. Não podemos ficar dominados pelo cansaço e pela dor", prega.

    Padre brasileiro é responsável por 3 paróquias

    Já o padre goiano Lúcio Lopes, que está há 13 anos em Portugal e é responsável por três paróquias em Cadaval, a 80 quilômetros de Lisboa, diferencia a realidade paroquiana portuguesa em relação à brasileira. Ele conversou com Sputnik Brasil pouco antes de chegar a um asilo para conduzir a Via Sacra (ritual em que se revivem os últimos passos de Jesus, desde sua condenação até a crucificação), mas com os idosos sentados à distância.

    "No Brasil, pela dimensão da população, cada pequena paróquia tem muita gente. É serviço para dois ou três padres. Aqui, cada padre tem várias paróquias, pela escassez de vocações [sacerdotais]", compara.

    Entre 2000 e 2015, o número de sacerdotes diocesanos em Portugal diminuiu de 3.159 para 2.524, porque 635 deixaram a Igreja. Isso fez com que se recorresse a padres estrangeiros. O brasileiro fez seus estudos no seminário português nessa época. No Domingo de Ramos, celebrou missa nas igrejas Nossa Senhora da Purificação, Nossa Senhora Imaculada Conceição e Divino Espírito Santo, as três paróquias sob sua responsabilidade. 

    "Foi bastante positivo, porque as pessoas estavam sedentas, à espera. Houve mais gente do que o habitual, do que no primeiro desconfinamento. Como as paróquias não são muito grandes, acaba por sobrar lugar. Não há muito perigo. Seguimos todos os passos da DGS [Direção Geral de Saúde]. Mas muitos ainda têm medo e deixam de vir por isso", conta. 

    Certamente, haverá mais gente do que na última Semana Santa, quando padre Lúcio celebrou a Vigília Pascal, no Sábado de Aleluia, na capela da casa paroquial, em companhia apenas de um padre, que divide a residência com ele. As demais celebrações foram transmitidas pela Internet, mas o sacerdote comemora a volta presencial. 

    "Era um bocadinho estranho porque a igreja estava vazia. Dava a impressão de que estávamos a pregar para o nada. Causava insegurança e desconforto ficar sozinho, com a câmera. Agora, é melhor, pois voltamos a ver as pessoas nos olhos, se estão fortes ou desatentas. A igreja é união, reunião, eclésia", define.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    COVID-19, Papa Francisco, católicos, igreja, Portugal, Semana Santa
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