03:53 16 Junho 2021
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    A suspensão de voos entre Portugal e Brasil, que entrou em vigor nesta sexta-feira (29), já causa transtornos àqueles que precisam se deslocar entre os dois países. Sputnik Brasil entrevistou brasileiros com voos cancelados, atrasando a volta ao trabalho, às aulas e encontros familiares.

    A decisão foi tomada pelo governo português nesta quarta-feira (27), em decorrência do aumento do número de mortes e de casos de COVID-19, que tem superado recordes sucessivamente em Portugal, mas também em função da nova variante brasileira do SARS-CoV-2, apesar de o Itamaraty negar. Por conta dessa estirpe, o Reino Unido já havia suspendido voos oriundos do Brasil e de Portugal, alegando os fortes laços entre os dois países.  

    Enquanto concedia entrevista à Sputnik Brasil, Klebson Silva, em seus últimos dias de férias com a família em São Paulo, já comemorava o fato de seu voo de volta a Portugal ter sido mantido para esta sexta, até enviar o print da passagem para este correspondente em Lisboa. No itinerário Campinas-Lisboa constava, contudo, não mais a data de 29 de janeiro, mas 3 de fevereiro, dia em que ele retorna ao trabalho. 

    Ao ser alertado pelo jornalista, Silva entrou em contato com a companhia aérea e conseguiu antecipar o voo para o meio-dia, mas saindo do Aeroporto de Congonhas, com conexões em Salvador e Madri. No total, quase 24 horas de saga, quando o voo direto duraria menos da metade do tempo. Ainda assim, ele agradece por conseguir voltar a Portugal, mas critica a suspensão dos voos em decorrência da pandemia de COVID-19. 

    "Foi o voo mais rápido que consegui. Para pessoas como eu, essa suspensão acaba por prejudicar o trabalho. Se eu não tivesse esse voo, minha empresa compreenderia o meu lado, não ia ser desligado, mas teria os dias de trabalho descontados. Não são todos que têm a mesma sorte, com uma empresa que consegue dar esse 'benefício'. Acaba prejudicando muitas pessoas, até gerando mais desemprego", avalia Klebson Silva.

    A carioca Helena Maria da Costa Silva está com a vida em compasso de espera. Ela cursa um mestrado em Ciências da Educação no Porto e tinha uma passagem marcada para lá no dia 9 de fevereiro, mês em que começam as aulas do segundo semestre. Até que veio a notícia sobre a proibição dos voos do Brasil para Portugal. Agora, aguarda para ver se a medida vai vigorar apenas até o dia 14 do próximo mês, como foi anunciado inicialmente, ou se será prorrogada, assim como o lockdown o foi em terras lusitanas.

    "É muito chato, né. Mas compreensível. Vou ligar para a TAP para remarcar a passagem assim que abrir. Não tem muito o que fazer", diz Helena à Sputnik Brasil.
    A brasileira Helena Maria da Costa Silva em compasso de espera para voltar ao Porto, onde faz mestrado
    © Foto / Divulgalção
    A brasileira Helena Maria da Costa Silva em compasso de espera para voltar ao Porto, onde faz mestrado

    Ela conta que alugou um quarto no apartamento de estudantes brasileiras no Porto, pelo qual paga € 260 (R$ 1.713) mensais. Dinheiro que vai continuar a desembolsar mesmo se não conseguir embarcar até o fim de fevereiro, pois tem que ajudar com as despesas para garantir a hospedagem. 

    "Eu me comprometi com elas a ir pagando o meu quarto, porque elas não têm como arcar com o aluguel sozinhas. Senão, vão precisar encontrar outra pessoa para ocupar o quarto. Fiz duas unidades curriculares à distância nesse semestre que passou e, agora, vou para o Porto fazer os outros semestres. No próximo, estou inscrita em quatro", explica.

    Com voo cancelado, procurador de Niterói vai perder compromissos de trabalho

    Quem mora em Portugal e tenta fazer o caminho inverso também vai passar a encontrar mais dificuldades pela frente. Nesta quinta-feira (28), o Conselho de Ministros aprovou decreto que prorroga o estado de emergência até o dia 14 de fevereiro e impõe a limitação às deslocações para fora do território continental, por parte de cidadãos portugueses, efetuadas por qualquer via, seja rodoviária, ferroviária, aérea, fluvial ou marítima. A medida entra em vigor no domingo (31).

    "Os portugueses estão proibidos de viajar para o estrangeiro", disse a ministra da Presidência, Mariana Vieira da Silva.

    Na prática, não só os portugueses. Gilson Dias, procurador municipal de Niterói, estava de férias com a esposa no Porto, com passagem de volta para o Rio de Janeiro marcada para este sábado (30), mas seu voo foi cancelado. A companhia aérea remarcou uma nova data para 15 de fevereiro. No entanto, nessas duas semanas, ele e sua mulher perderão compromissos de trabalho. Em uma rede social, ele desabafou: "Estou sitiado em Portugal em razão do fechamento das fronteiras."

    "Fui prejudicado com essa mudança repentina. Muito ruim, pois prejudicou os meus compromissos e de minha esposa com o trabalho. Ela é médica, também estava de férias e ficou prejudicada, pois não conseguirá estar nos trabalhos onde ela atua. Agora, teremos que justificar com força maior, que exclui a responsabilidade", conta Gilson Dias à Sputnik Brasil.

    A preocupação maior dele, entretanto, é a de que a medida de suspensão de voos seja renovada a partir do dia 14 de fevereiro e que a companhia aérea cancele novamente o voo que foi remarcado para o Brasil no dia 15. Advogado, Dias compreende, contudo, que o governo tinha que tomar medidas mais drásticas para conter a pandemia. 

    "Apesar de ter ficado chateado, entendo que a medida era necessária para a defesa do interesse público. Sempre que entra em choque um interesse público com privado, o público deve prevalecer", pondera.

    Mineira faria surpresa para família, mas não vai poder comemorar aniversário no Brasil  

    A mineira Michelle Pandora estava com viagem marcada para Belo Horizonte. Iria no dia 12 de fevereiro e voltaria no dia 28 para Lisboa, onde mora. A ideia era comemorar o seu aniversário, no dia 27, e fazer uma surpresa para seus familiares brasileiros. No entanto, foi ela que acabou sendo surpreendida com a suspensão dos voos. Apresentadora da TV Caras, ela esteve pela última vez no Brasil em novembro, mas a trabalho.   

    "Comprei passagem e, ontem [quarta], chegou a mensagem falando sobre a suspensão. Perdi meu voo. Já entrei em contato com a companhia aérea para eles me deixarem de crédito. Infelizmente, não vou conseguir ir, e tirou a comemoração do meu aniversário. Precisei contar aos meus familiares. Eles ficaram tristes, mas entendem a situação por conta da pandemia", lamenta Michelle. 
    A apresentadora Michelle Pandora ia fazer surpresa para a família, mas acabou surpreendida com a suspensão dos voos
    © Foto / Divulgação
    A apresentadora Michelle Pandora ia fazer surpresa para a família, mas acabou surpreendida com a suspensão dos voos

    Questionada por Sputnik Brasil se não pensou em remarcar a passagem a partir do dia 14, quando, em tese, acaba a suspensão, a apresentadora foi realista sobre o risco de não conseguir retornar a Portugal. 

    "É um pouco arriscado tentar ir novamente e também não conseguir voltar. A gente não sabe como vai estar. Em abril, já tenho viagem marcada para lá novamente. Mas é tudo imprevisível ainda. Não sabemos como as coisas vão estar. Mas tenho fé que vão melhorar", torce.

    A gaúcha Giuliana Almada estava com voo marcado para este sábado (30), de Lisboa para Porto Alegre, onde pretendia passar duas semanas, de férias, com a sua família. Ela havia comprado as passagens pelo site da Decolar.com. Agora, não consegue descobrir para quando vai conseguir fazer a remarcação. 

    "Por enquanto, a única informação que tenho é de que a passagem está em processo de 'reprogramação de voo', e de que preciso aguardar a companhia aérea (LATAM) passar alternativas disponíveis. Já no site da LATAM não há qualquer informação. Meu voo de ida simplesmente sumiu. Ou seja, estou em um limbo", relata Giuliana.
    A gaúcha Giuliana Almada: sem informações sobre o voo de Portugal para o Brasil no sábado (30)
    © Foto / Divulgação
    A gaúcha Giuliana Almada: sem informações sobre o voo de Portugal para o Brasil no sábado (30)

    Ela trabalha como freelancer e, por isso, tem mais flexibilidade em remanejar seu tempo. No entanto, reconhece que o imprevisto afetou a sua programação e vai tentar adequar sua agenda às circunstâncias.

    "Eu tinha adiantado bastante trabalho para ficar um pouco mais livre durante a estadia lá. Então, o que vou fazer é pegar mais trabalho para essas próximas semanas. Quando eu souber a data em que vou [viajar], por fim, terei que reorganizar o planejamento", prevê. 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    lockdown, novo coronavírus, voos, COVID-19, Brasil, Portugal
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