01:59 09 Março 2021
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    A proibição de voos para o Reino Unido com origem em Portugal, Brasil e países da América do Sul irritou o governo português e tem prejudicado brasileiros. As autoridades britânicas adotaram a medida na última sexta-feira (15) em função da nova variante brasileira do SARS-CoV-2. 

    Muitos brasileiros, que moram no Reino Unido e tinham ido passar as festas de fim de ano no Brasil, têm enfrentado dificuldades para regressar. Para completar, o ministro dos Transportes britânico, Grant Shapps, anunciou que a suspensão de voos se estendia a Portugal "devido aos seus laços fortes com o Brasil, funcionando como mais uma forma de reduzir o risco de importação de infecções", conforme ele escreveu em sua conta no Twitter. 

    Tomei a decisão urgente de BANIR CHEGADAS de ARGENTINA, BRASIL, BOLÍVIA, CABO VERDE, CHILE, COLÔMBIA, EQUADOR, GUIANA FRANCESA, GUIANA, PANAMÁ, PARAGUAI, PERU, SURINAME, URUGUAI E VENEZUELA – a partir das 04h00 de AMANHÃ, 15 de janeiro, devido à detecção de nova variante [do coronavírus] no Brasil. Viagens de PORTUGAL para Reino Unido também vão ser suspensas devido à forte ligação de viagem com Brasil, agindo como outra forma de reduzir o risco de importação de infecções. No entanto, há uma exceção para transportadoras viajando (somente) de Portugal para permitir transporte de mercadorias essenciais.

    ​A medida pegou o governo português de surpresa. Augusto Santos Silva, ministro dos Negócios Estrangeiros, considerou a proibição sem lógica e completamente absurda. Em entrevista à agência LUSA, ele informou que já pediu esclarecimentos aos britânicos, por meio da embaixada, e entrou em contato com o seu homólogo, Dominic Raab, para tentar agendar uma conversa.

    "Na nossa opinião não tem lógica. Em primeiro lugar, é uma medida súbita e inesperada, e isso é um primeiro elemento de surpresa negativa. Em segundo lugar, é uma medida que atinge fortemente pessoas que não foram devidamente avisadas para ela. Foi anunciada às 17h00 de um dia para entrar em vigor às 04h00 do dia seguinte. Suspender voos a partir de Portugal tendo como argumento as ligações entre Portugal e o Brasil é, com todo o respeito, completamente absurdo", disse Santos Silva.

    O ministro português acrescentou que Portugal não proibiu voos oriundos do Reino Unido quando foi descoberta uma nova variante britânica do SARS-CoV-2, exigindo apenas testes negativos de COVID-19 dos passageiros no fim de 2020, quando o país ainda pertencia à União Europeia. Portanto, ele espera que haja reciprocidade na medida, mesmo com o Brexit.

    Carioca que mora em Londres só consegue voo para voltar em março

    Por outro lado, o Brasil havia proibido os voos provenientes do Reino Unido quando da descoberta da estirpe britânica do novo coronavírus. Desde então, brasileiros residentes em Londres e outras cidades enfrentam dificuldades para retornar. A advogada Gabrielle Galdino-Gläser chegou ao Rio de Janeiro no dia 10 de dezembro, ficou isolada por 14 dias e fez o teste de COVID-19 para poder passar o Natal com a família. 

    Originalmente, seu voo de volta estava marcado para o dia 7 de janeiro, mas, como o Brasil estava fechado para aviões vindos do Reino Unido, a British Arways o remarcou para a última quinta-feira (14), justamente quando o ministro dos Transportes britânico anunciou a proibição. Com isso, o voo foi cancelado. A companhia aérea, então, agendou a nova data apenas para o dia 1º de março.

    "Nosso voo foi reservado com milhas, de business class, então nossas alternativas ficaram bem limitadas. Por enquanto, estamos marcados para esse voo no dia 1º de março, mas estou checando todo dia se abrem outros, porque estamos pagando aluguel em Londres à toa. Minhas plantas vão morrer", conta Gabrielle à Sputnik Brasil.
    Gabrielle e seu marido, Luis, estão pagando aluguel no Rio, pois não conseguem regressar a Londres
    © Foto / Divulgação
    Gabrielle e seu marido, Luis, estão pagando aluguel no Rio, pois não conseguem regressar a Londres

    Como a carioca não está hospedada na casa dos seus familiares, pois não quer colocá-los em risco, também está alugando um apartamento no Rio com o marido, Luis Galdino-Gläeser, que trabalha em uma startup, para que ambos tenham a privacidade necessária para o teletrabalho.

    "Meu marido e eu precisamos trabalhar no fuso horário do Reino Unido, a partir de 05h30, então necessitamos de um ambiente propício para calls. Pagamos aluguel aqui também, o lugar mais caro do Brasil para se estar preso. É bastante cansativo com essa diferença de fuso", acrescenta a advogada.

    Gabrielle explica que, como é residente do Reino Unido, não teria problemas para entrar, mas precisaria comprar outra passagem, cujo voo não fosse direto para Londres. 

    "Eu poderia comprar outro voo, mas não queria gastar mais dinheiro. Basicamente, as opções seriam escolher perder minha passagem e viajar pela Iberia ou comprar outra e me arriscar mais, passando por mais aeroportos, ou ficar aqui e gastar com aluguel dobrado", enumera.

    A brasileira Kimmy El-Dash optou por uma aventura em voos com muitas escalas e surpresas. Seu voo original, também pela British Airways, seria direto São Paulo-Londres, no dia 12 de janeiro. No entanto, foi cancelado uma semana antes. Então, a companhia aérea lhe ofereceu três opções: antecipar para o dia 9 ou adiar para os dias 17 ou 29. Ela arriscou a primeira. 

    "Não tinha muita opção. Eles já haviam me informado que o voo São Paulo-Madri-Londres, que estavam oferecendo, operado pela Iberia, só teria nova possibilidade em março. A situação estava claramente piorando, ia ficar mais e mais difícil de voltar, então aceitei o voo antes, e cheio de conexão. Mas, quando aterrissei no Rio, tinham cancelado o voo para Madri, pois o aeroporto tinha fechado por causa de uma nevasca", inicia Kimmy.

    Uma viagem que dura, em média, 11 horas e meia em um voo direto, demorou mais de 24 horas. Ela, que trabalha com sustentabilidade no Reino Unido, conta que saiu às 05h30 do dia 9 de Campinas, onde sua família mora, e só pousou em Londres, às 11h00 (08h00 de Brasília), do dia seguinte. Como não era possível mais viajar via Madri, em função do fechamento do aeroporto, a nova opção foi uma escala em Paris, com voos operados pela Air France. Mas não foi muito fácil descobrir isso.

    "Não tinha ninguém da Iberia para dar auxílio no aeroporto. Quando liguei no 0800 deles, me disseram que não trabalham no fim de semana. Então me deram um número de Portugal, para o qual eu precisava usar telefone público e tinha que ser com cartão, mas não vende cartão no aeroporto. Achei o guichê da Iberia e fiquei lá sentada até aparecer alguém. Mas foi super estressante, pois não tinha ninguém para explicar nada. Mas a British foi muito boa e deu bom auxílio em todas as conversas", ressalva. 

    Virologista diz que variante brasileira preocupa pelo aumento na transmissão

    Em entrevista à Sputnik Brasil, a virologista italiana Marta Giovanetti, pesquisadora visitante da Fiocruz, explica que já foram identificadas milhares de variantes do SARS-CoV-2  em circulação, mas que a preocupação dos cientistas concentra-se em um pequeno número delas, especialmente nas variantes britânica, sul-africana e na brasileira P.1. 

    "A presença dessas mutações E484K, N501Y e K417T nessa nova variante está despertando interesse e preocupação a nível mundial, pois poderiam ter um significado biológico importante: aumento na transmissão, possível escape na resposta imune, entre outros. São achados importantes que precisam ser investigados mais para compreendermos os possíveis impactos delas no combate ao SARS-CoV-2", justifica Marta.
    A virologista italiana Marta Giovanetti, pesquisadora visitante da Fiocruz
    © Foto / Divulgação
    A virologista italiana Marta Giovanetti, pesquisadora visitante da Fiocruz

    A italiana, que participou do estudo internacional que analisou os 12 primeiros genomas completos do novo coronavírus, afirma que serão necessários testes in vitro para os cientistas avaliarem esses impactos. Segundo ela, acumular mutações no genoma ao longo do tempo é uma característica intrínseca de todos os patógenos virais. Marta realça que isso não quer dizer, em nenhum momento, que afetem a eficácia da vacina contra COVID-19.

    "Nós estamos confiantes de que a presença dessas mutações em sítios específicos não comprometam a eficácia da vacina. Os vírus mudam por natureza! E esse processo garante que eles possam sobreviver nos hospedeiros", destaca.

    O próprio ministro dos Transportes britânico reconhece que a proibição dos voos se deve ao fato de a variante brasileira P.1 ser mais transmissível e não por conta de haver algum problema com a vacina. Questionada pela Sputnik Brasil se a medida adotada seria eficaz para impedir que a variante P.1 entre no Reino Unido ou se isso é inevitável, Marta diz que o SARS-CoV-2, assim como o zika em 2016, mostra que a mobilidade humana permite a dispersão de patógenos onde não haviam ainda sido detectados. 

    "Nesse sentido, então, é sim necessário mantermos medidas de restrição para contermos a transmissão dessas novas variantes no mundo todo. Tentamos mostrar que é necessária a adoção de medidas preventivas para impedirmos a transmissão e reduzirmos os possíveis eventos de importação e exportação dessa variante", conclui.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Portugal, Brasil, Reino Unido, vacina, novo coronavírus, COVID-19
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