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    Oito startups brasileiras participaram do II Dia da Inovação Empresarial Brasil-Portugal na segunda-feira (30). Elas integram o grupo de 33 que farão parte do Web Summit esta semana, em Lisboa. Três delas chamaram a atenção de investidores portugueses e ganharam menções honrosas no evento virtual.

    Organizado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), a Embaixada do Brasil em Lisboa e a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira (CCILB), a segunda edição do Dia da Inovação Empresarial Brasil-Portugal reuniu também representantes de fundos de investimentos como Bynd, CoreAngels Atlantic, Nova Base e Portugal Ventures, que compuseram uma banca de avaliação. 

    Em apenas três minutos de pitch para cada uma, as oito startups brasileiras tinham que explicar seu negócio, por que queriam expandi-lo para o mercado português e justificar o motivo de serem merecedoras de investimentos dos fundos. Elas já haviam sido selecionadas previamente pelos investidores entre as 33 que estarão presentes no Web Summit, a maior conferência europeia de tecnologias, que acontece a partir desta quarta-feira, também em um formato virtual em função da pandemia de COVID-19. A organização do evento anunciou recentemente que o Brasil sediará uma edição pela primeira vez em 2022.

    As três startups brasileiras agraciadas com menções honrosas pelos investidores portugueses foram a iSPORTiSTiCS (melhor fit, pelo reconhecimento de modelo de negócio mais bem adaptado à realidade portuguesa), a Telavita (melhor pitch) e a Key2enable (menção honrosa inédita de maior impacto social). Pode ser o primeiro passo de entrada no mercado português e europeu.

    Focada em esportes, a iSPORTiSTiCS usa algoritmos de inteligência artificial e visão computacional para automação de processos e ferramentas de narrativas visuais para permitir que os conteúdos de vídeo sejam mais bem compreendidos, produzidos e distribuídos. Vini Gholmie, fundador e CEO da empresa, explica que o objetivo é transformar conteúdos simples em enriquecidos e interativos para amplificar a cobertura da mídia, melhorar o engajamento da audiência, encantar fãs de esportes e ampliar a eficiência técnica, a fim de facilitar o consumo e monetização de conteúdos esportivos.

    Vini Gholmie, fundador e CEO da startup brasileira iSPORTiSTiCS
    © Foto / Divulgação
    Vini Gholmie, fundador e CEO da startup brasileira iSPORTiSTiCS

    Ele cita exemplos como o uso da inteligência artificial para editar os melhores momentos de uma partida automaticamente, desenhar linhas de impedimento e apontar as melhores possibilidades de passes no futebol, com o algoritmo atuando como um cameraman. A startup já teve três projetos-pilotos em Portugal, com clientes como os clubes Benfica e Sporting, além da emissora portuguesa SporTV.

    "É uma honra podermos representar as sportstech no Web Summit, um dos principais eventos globais de tecnologia. O programa da Apex-Brasil proporcionou esse encontro a nós e também aos investidores que avaliaram a nossa startup. É o tipo de trabalho que realmente contribui para o ecossistema. O reconhecimento da iSPORTiSTiCS evidencia o grande desempenho e dedicação que nosso time tem desenvolvido nesses quase três anos, e nos traz ainda mais força para seguirmos nossa jornada de crescimento no mercado europeu. Acreditamos que demos um passo fundamental para nossos negócios em Portugal a partir de hoje. Trabalhamos para 'levar tecnologia world-class dentro do esporte, para todos em todo lugar'. Esse prêmio engrandece nosso propósito", disse Gholmie à Sputnik Brasil após o evento.

    Empresa que oferece orientação psicológica on-line cresce 20% ao mês com a pandemia

    Já a TelaVita oferece orientação psicológica por chamadas de vídeo. A empresa foi criada em 2017, junto com o reconhecimento legal do procedimento, cresceu em novembro de 2018 com a autorização jurídica para terapia on-line e se consolidou este ano com a necessidade de atendimentos virtuais durante a pandemia de COVID-19. Hoje, a plataforma apresenta como diferencial oferecer consultas com psicólogos e psiquiatras, em um momento em que a saúde mental está em xeque. No Brasil, a startup atende cerca de 250 mil pacientes, mas deve atingir quatro milhões de pessoas em dezembro, com três novos contratos, segundo o CEO Andy Bookas.

    Lucas Arthur, Milene Rosenthal e Andy Bookas, fundadores da TelaVita
    © Foto / Divulgação
    Lucas Arthur, Milene Rosenthal e Andy Bookas, fundadores da TelaVita

    Ele diz que a empresa está crescendo 20% por mês durante a pandemia. Sua sócia, a psicóloga Milene Rosenthal, foi uma das pioneiras em saúde mental on-line no país, obteve a primeira licença para trabalhar via Internet no Brasil, ainda em 2005, e já acumula mais de 10 mil atendimentos por videochamadas. Bookas ressalta que a terapia on-line reduz os elevados custos de tratamentos de doenças como depressão, além de diminuir os riscos de saúde. O CEO comemorou a menção honrosa e tem expectativa de que possa antecipar a expansão internacional da empresa, prevista para começar inicialmente em 2022 em Portugal.

    "Ficamos muito felizes com o reconhecimento. Acredito que eventos como este ajudam muito a abrir portas e oportunidades para startups na fase de tração e crescimento e são essenciais para fortalecer ainda mais a colaboração transatlântica entre os ecossistemas de empreendedorismo, junto com os setores público e corporativo. Portugal representa a porta de entrada ideal ao mercado europeu, com a mesma língua e um ecossistema de startups cada vez mais forte", avalia Bookas.

    Uma das startups mais elogiadas, a mineira Key2enable desenvolve tecnologias assistivas para pessoas com deficiências (PCD), como o Key-X, um teclado que usa cores e símbolos para permitir que pessoas com qualquer tipo de deficiência motora tenham acesso total a computadores, tablets e smartphones. Segundo o co-fundador e CCO José Rubinger, com o Key-X, crianças podem aprender, escrever, pesquisar na Internet, enviar e-mails e mensagens, além de jogar videogames em casa e na escola.

    Para exemplificar, ele contou a história de Julia, de 9 anos, que nasceu com paralisia cerebral e que, até quatro anos atrás, não frequentava muito a escola no Brasil, pois seus professores não conseguiam medir o quanto ela estava aprendendo. De acordo com Rubinger, essa realidade mudou quando ela começou a usar o teclado inteligente multifuncional Key-X e passou a escrever, estudar e jogar computador, como mostra um vídeo no YouTube.

    "Agora, ela assiste às aulas com seus colegas, é uma jogadora afiada do Angry Birds e se tornou uma das melhores alunas de matemática em sua faixa etária na escola, tudo porque ela é capaz e está ansiosa para estudar e explorar a Internet em seu próprio tempo", vibra Rubinger com o progresso da menina.

    Economista portuguesa se encanta com tecnologia educacional para pessoas com deficiência

    Ele também vibrou com a menção honrosa de startup com maior impacto social, criada pelos investidores no II Dia da Inovação Empresarial Brasil-Portugal para contemplar sua empresa. E não foi o único. A economista portuguesa Helena Maio, assessora do Conselho de Administração da Portugal Ventures, não poupou elogios à Key2enable e sugeriu a criação da nova categoria para agraciar a startup mineira.

    "O produto é incrível, fantástico, maravilhoso, fabuloso, pois pode ser adaptado às especificidades do ensino de cada país", elogiou Helena, que frequentou o programa de estratégia disruptiva da HBX/Harvard Business School em 2016.

    Para Rubinger, que já expandiu a Key2enable para países como Estados Unidos e Emirados Árabes, Portugal é um mercado estratégico, não apenas por causa da mesma língua, mas principalmente por ser um país que já trabalha com educação inclusiva. Em Entrevista à Sputnik Brasil, o empreendedor afirma que sua startup consegue gerar impacto social e ser lucrativa, o que é muito difícil para grande parte das empresas. Ele diz que seu produto é um caminho para ajudar a resolver um dos grandes desafios da humanidade: a educação da pessoa com deficiência para que ela possa ser economicamente sustentável.

    "Temos uma solução completa de saúde, porque são dispositivos de tecnologia assistiva que auxiliam pessoas com deficiência a fazerem melhor as tarefas. Usamos isso para inseri-los na educação: começamos na comunicação, com um sim e um não, a cor de uma figura, os sons, até a alfabetização, partindo para compreensão, leitura, entendimento de texto, matemática e tudo mais. Receber essa condecoração, criada pelos investidores naquele momento, foi de extrema importância porque mostra que não estão apenas interessados no êxito e dinheiro, mas em algo que cause impacto social para mostrar que aquele dinheiro que foi investido não fique apenas no plano financeiro. Portugal sempre esteve nas nossas metas e já é uma entrada boa porque se interessaram pelo que estamos fazendo", avalia Rubinger.
    Julia joga computador com o teclado inteligente multifuncional da Key2enable
    © Foto / Divulgação
    Julia joga computador com o teclado inteligente multifuncional da Key2enable

    Outras startups brasileiras já atraíram recursos de fundos de investimentos portugueses. Após a primeira edição do Dia da Inovação Empresarial Brasil-Portugal, o COREangels investiu na Total Cross, empresa brasileira que produz um produto para desenvolvimento de softwares para embedded systems (sistemas embarcados), que exploram a Internet das coisas. Lucas Galvanini diz à Sputnik Brasil que o processo foi relativamente rápido: entre o primeiro contato até a assinatura do contrato não foram seis meses.

    "Em janeiro, recebemos investimentos do COREangels, um grupo de investidores-anjos especializados em empresas brasileiras que querem se expandir para a Europa. Abrimos a empresa aqui em Portugal, e nos ajudaram com toda a parte burocrática. Em fevereiro, nos instalamos na incubadora da Universidade de Aveiro, que já estava nos ajudando com a papelada desde dezembro. Isso nos ajudou muito: de 100% de trabalho, reduziram para 20%. Acabamos conseguindo fazer negócios com a União Europeia estando em Portugal. Uma coisa é ser uma empresa brasileira, a outra é já ter uma unidade na Europa", compara Lucas Galvanini.

    Responsável pela missão ao Web Summit, Luciana Gatto Fonseca, que é analista da área da coordenação de internacionalização da Apex-Brasil. foi a mediadora do II Dia da Inovação Empresarial Brasil-Portugal. Ela explica que o evento foi um desdobramento do Startout, programa de apoio à inserção de startups brasileiras nos mais promissores ecossistemas de inovação do mundo, cuja primeira edição em Lisboa foi em 2018. Depois do evento, a SizeBay, outra startup brasileira foi a primeira a receber investimentos do COREangels.

    "Tivemos um resultado sensacional até aqui. Esperamos que alguma das empresas que levamos este ano tenha algum resultado desse tipo. O pitch chama mais atenção porque representa os interesses dos investidores. Eles olharam a lista das 33 e escolheram previamente oito. Ficaremos muito satisfeitos se, de novo, uma dessas empresas receber investimentos", torce Luciana.

    Presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira, Clovis Martines ressalta que o evento tem o objetivo de colocar em contato pessoal e direto algumas startups brasileiras, pré-selecionadas pela APEX no Brasil pelo seu potencial de internacionalização, com uma banca de investidores do setor, com conhecimento das particularidades do mercado português assim como do de outros países europeus.

    "Desse modo, startups brasileiras que melhor se enquadrem no perfil dos investidores poderão se beneficiar do apoio empresarial e financeiro de fundos portugueses para lançar ou alavancar suas operações neste mercado", explica Martines à Sputnik Brasil.

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    Tags:
    Lisboa, empresas, startup, Portugal, Brasil
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