21:20 16 Outubro 2019
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    Eduardo Chianca Rocha, brasileiro preso em Moscou por importar chá ayahuasca na Rússia

    O brasileiro cujo destino foi discutido entre Temer e Putin

    © Foto / Alfândega de Domodedovo
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    O cidadão brasileiro Eduardo Chianca Rocha foi preso na Rússia em 31 de agosto por portar chá de ayahuasca, mas só agora o seu destino foi discutido ao mais alto nível internacional.

    Já um mês depois da prisão de Eduardo Chianca Rocha, famoso pesquisador e terapeuta holístico brasileiro, seu destino foi tocado pelo presidente brasileiro Michel Temer durante a conversa que este teve com o seu homólogo russo durante o jantar de abertura da cúpula do BRICS em Goa, na Índia, no último sábado (15), informou o jornal brasileiro Folha de São Paulo em 17 de outubro. Segundo a edição, Temer pediu a Putin que a Rússia reconsidere a situação de Eduardo Chianca Rocha. De acordo com a Folha, o presidente russo respondeu que a situação será discutida a nível dos Ministros do Exterior de ambos os países.

    O fato de haver possibilidade de uma realização futura de consultas diplomáticas foi confirmado pelo advogado russo de Chianca Rocha, Eduard Usikov, em conversa com a Sputnik Brasil (o comentário do advogado será divulgado abaixo no artigo).

    Circunstâncias de detenção e dados da alfândega

    Contatado pela Sputnik, o serviço de imprensa do aeroporto Domodedovo em Moscou, onde Chianca Rocha foi detido, divulgou o seguinte comunicado:

    “Os funcionários do posto alfandegário do aeroporto Domodedovo, seguindo orientação dada pelos funcionários do departamento de combate ao contrabando de drogas da Alfândega de Domodedovo, impediram a entrada de um grande lote de substância estupefaciente.

    Na via verde foi parado um cidadão brasileiro de 66 anos [a alfândega não divulgou o nome, chamado Chianca Rocha de ‘xamã do Brasil’] que viajou como passageiro do voo Lisboa-Moscou. Na sua bagagem foram encontradas quatro garrafas com um líquido de cor marrom escura. Os testes mostraram que o conteúdo era a substância estupefaciente dimetiltriptamina. O peso da droga era de quase 1,5 quilo.

    Em sua explicação, o homem indicou que portava ‘chá para meditação’ como prenda para os amigos.

    Neste momento o cidadão está em prisão preventiva, foi aberto um processo de acordo com o artigo 229.1, parte 4, do Código Penal da Federação da Rússia ‘Contrabando de substâncias estupefacientes’ [com estas acusações Chianca Rocha pode enfrentar uma pena de 15 a 20 anos de prisão ou mesmo a prisão perpétua]."

    A alfândega também divulgou uma pequena descrição da substância dimetiltriptamina (presente no chá ayahuasca) proibida na Rússia:

    “A dimetiltriptamina é uma substância estupefaciente, psicodélica, que provoca alucinações fortes. Em grandes quantidades está presente na bebida ayahuasca, usada em cerimônias religiosas pelos povos nativos da América do Sul.”

    Garrafas de chá ayahuasca encontradas na bagagem de Eduardo Chianca Rocha
    © Foto / Alfândega de Domodedovo
    Garrafas de chá ayahuasca encontradas na bagagem de Eduardo Chianca Rocha
    Anna Timofeeva, porta-voz da alfândega de Domodedovo, disse à Sputnik que Chianca Rocha também portava brochuras sobre cerimônias com uso de ayahuasca e com indicação de seus preços o que, continua Timofeeva, indica que ele queria ganhar dinheiro com o chá.

    “Seja quem for este cidadão, mesmo uma pessoa midiática, ele não deixou de violar a lei [da Rússia], e mesmo de forma muito grave, isto é um caso penal, é uma droga que ele depois planejava dar a pessoas comuns, que possivelmente não saberiam que isto é uma droga e que pensariam se tratar de uma bebida curativa”, explicou Timofeeva, sublinhando que esta é a opinião pessoal dela e não a posição oficial da alfândega.

    Ayahuasca e dimetiltriptamina é a mesma coisa? A opinião da família

    “O que está acontecendo é que a diferença entre a ayahuasca e a DMT, a droga, é exatamente a mesma que entre uma planta chamada coca, a folha de coca usada pelos latino-americanos, pelos peruanos, pelos bolivianos, a folha de coca presente na natureza, e a droga chamada cocaína. É muito diferente. Então, o chá de ayahuasca a contém em quantidades muito menores e portanto, reconhecidamente, não vou dizer isso sem pesquisa científica, a quantidade de DMT presente naturalmente na planta da qual se faz o chá de ayahuasca é uma proporção inofensiva à saúde humana. Claro, inserida do modo ritualista religioso. (….) Diversas igrejas no Brasil fazem uso disso com todos os seus frequentadores. Isso é o chá ayahuasca. Eu não consigo achar que proceda a afirmação de que Eduardo ao portar chá de ayahuasca, estava portando droga DMT. Isso não é verdade”, explicou à Sputnik a esposa de Eduardo Chianca Rocha, Patrícia Alves Junqueira.

    “O problema todo é a confusão entre essa substância, a dimetiltriptamina, sintetizada como droga, e o chá, que só contém uma pequena quantidade dessa substância, mas em forma natural, em proporções não nocivas à saúde humana”, concluiu.

    Patrícia também pôs em dúvida as palavras da porta-voz da alfândega de Domodedovo de que Chianca Rocha pretendia distribuir o chá ayahuasca em Moscou:

    “E não existe qualquer tipo de certeza, é que Eduardo está apenas começando em Moscou uma turnê internacional que pegaria outros três ou quatro países: Ucrânia, Suíça, Espanha e Holanda. Não se pode afirmar que ele usaria este chá em rituais na Rússia, em Moscou. Eu não posso afirmar isso. Então eu acho que ninguém mais pode afirmar isso.”

    Ajuda do Brasil e interferência de Temer

    A esposa do brasileiro acusado de tráfico, Patrícia Alves Junqueira, avaliou de maneira muito elevada os esforços do governo brasileiro para a liberação de seu marido:

    “A embaixada do Brasil tem sido muito constante e prestado um apoio muito grande à gente [contatada pela Sputnik, a embaixada brasileira na Rússia enviou apenas a seguinte declaração: ‘A Embaixada do Brasil em Moscou tem acompanhado atentamente o caso e prestado todo o apoio consular cabível ao cidadão brasileiro’]. A gente sabe dos limites diplomáticos para resolver as coisas e é claro que o que a gente gostaria é não ter passado mais de 40 dias com Eduardo nesta situação. Mas a gente entende que a situação é um pouco complicada. Então, este pedido, a forma de realização deste pedido do presidente Temer ao presidente Putin é maravilhoso. Foi tudo o que a gente esperava para a solução desta situação.”

    "Quando um Chefe de Estado fala com outro Chefe de Estado sobre um cidadão seu, somente esta ação já demonstra o quanto este cidadão é uma pessoa idônea e digna de ser defendida. Nenhum Chefe de Estado faria isso sem ter a plena convicção de quem é a pessoa a qual ele está agindo em defesa!", opinou Patrícia comentado a interferência de Michel Temer.

    Presidente Michel Temer com o seu homólogo russo, Vladimir Putin em 16 de outubro, Goa, hotel Taj Exotica
    © Sputnik / Serviço de imprensa do presidente da Rússia
    Presidente Michel Temer com o seu homólogo russo, Vladimir Putin em 16 de outubro, Goa, hotel Taj Exotica
    Para Patrícia, o pedido de Temer pode dar um impulso muito forte à resolução do caso e ela espera que até se trate de apenas alguns dias:

    "Existe uma tensão burocrática e os trâmites legais da legislação na Rússia, que eu não conheço. Mas eu tenho certeza de que isso ocorrerá nos próximos dias. A gente voltou a acreditar depois dessa maravilhosa manifestação do governo brasileiro, do presidente Michel Temer ao presidente Putin. E a gente acredita que nos próximos dias tudo estará resolvido e Eduardo estará libertado", disse ela.

    O que acha o advogado de Chianca Rocha?

    Eduard Usikov, o advogado russo do brasileiro preso por tráfico na Rússia, convidado a pedido da esposa e filho de Chianca Rocha, disse à Sputnik que seu cliente está neste momento sob custódia e ele também acha que a interferência de Temer pode dar um impulso positivo.

    “Eu penso, pelo menos espero, que a decisão política irá de alguma forma influenciar a nossa situação nesse negócio, porque todos nós compreendemos perfeitamente que ele não tencionava cometer quaisquer atos criminosos em território da Federação da Rússia, ele se encontrava numa espécie de ignorância relativamente à legalidade da introdução dessa substância em território da Rússia, considerando que no Brasil essa é uma bebida completamente legal.”

    Contudo, por enquanto a defesa não conseguiu vislumbrar quaisquer avanços depois do pedido de Temer.

    “Isso não irá acontecer tão depressa, talvez na próxima semana”, declarou Usikov, falando de possíveis contatos diplomáticos relativamente a este caso e que foram referidos por Putin.

    Usikov manifestou a esperança que durante o período de inquérito (que foi prolongado até 31 de novembro) que Eduardo possa ser transferido para detenção domiciliária na sequência do pedido de Temer. Anteriormente o tribunal tinha recusado o apelo da defesa para alteração da medida cautelar.

    Além disso, o advogado declarou que a 20 de outubro ele irá se encontrar com Eduardo, acompanhado pelo cônsul do Brasil na Rússia, Luiz Henrique Moreira Costa, para informar Chianca Rocha do pedido do líder brasileiro ao seu homólogo russo.

    Relativamente ao estado de saúde do seu constituinte, Usikov relatou o seguinte:

    “É normal, mas suas doenças crônicas se agravam devido à idade, devido em muito à barreira linguística, ele não consegue obter tratamento médico adequado.”

    O advogado também manifestou sua dúvida relativamente à conclusão da investigação que o peso total da substância estupefaciente, contida no chá transportado por Eduardo, era de 1,5 kg, segundo opina a investigação.

    “Isso é simplesmente impossível”, informou ele, dizendo esperar que os resultados da peritagem sejam revistos.

    “Espero que as perspectivas sejam optimistas, mas a situação é que aquilo que está autorizado no Brasil não está automaticamente autorizado no território de outros Estados… Espero que possamos criar condições que lhe permitam regressar ao seu país o mais breve possível.”

    Tags:
    drogas, prisão, Michel Temer, Vladimir Putin, Rússia, Brasil
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