07:46 16 Setembro 2019
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    Silhuetas em Cascais (Portugal)

    Homofobia por ser motivação de triplo homicídio de brasileiras em Portugal

    © flickr.com/ Pedro Ribeiro Simões
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    Os corpos de três jovens brasileiras foram localizados na última sexta-feira. Duas tinham um relacionamento amoroso e a terceira era namorada do principal suspeito.

    O crime parece parte de um roteiro de filme de terror. Três vítimas, brasileiras, jovens que tentavam a vida em um continente diferente. Duas formavam um casal apaixonado e a terceira era namorada do principal suspeito do crime e estava grávida de três meses. Os corpos foram escondidos em barris nos fundos de um hotel para cães e gatos onde o suspeito trabalhava, em Cascais, perto de Lisboa.

    A história que já é trágica pode ser ainda pior quando a polícia descobrir a motivação do crime brutal. Homofobia, por duas das vítimas serem um casal e o suspeito ser considerado uma pessoa extremamente conservadora, é uma das possibilidades investigadas pela polícia portuguesa. O crime também pode ter sido motivado pela gravidez de Michele. Uma terceira hipótese é a possibilidade de o suspeito ter assassinado as três jovens para esconder da família que tinha no Brasil que mantinha um caso em Portugal.

    Essa história trágica tem quatro personagens principais, todos brasileiros que migraram para Portugal. Michele Santana Ferreira, de 28 anos, namorava o auxiliar de serviços gerais Dinai Alves Gomes e vivia em Cascais com sua irmã L.F., 16 anos, e a namorada dela, Thayane Milla Mendes, de 21. Todos são de pequenas cidades no interior do Estado de Minas Gerais, no Sudeste do Brasil.  

    Michele morava em Portugal há mais de sete anos e trabalhava como empregada doméstica. O namorado, Dinai, também morava e trabalhava no país europeu. No ano passado, a irmã mais nova de Michele, L.F., juntou-se a elas. Dias depois chegou Thayane. Em fevereiro deste ano, pararam de dar notícias à família. 

    Dinai retornou ao Brasil e disse aos parentes das três jovens que elas tinham se mudado para a Inglaterra e não podiam atender ao telefone. O tempo foi passando e as notícias não chegavam. A família resolveu alertar as autoridades sobre o desaparecimento e criou uma campanha na internet para tentar localizar as três jovens.

    Hipóteses

    A polícia portuguesa, que investiga o crime com o auxílio da Polícia Federal do Brasil, acredita que só quando o suspeito for detido poderá esclarecer as causas do crime. No entanto, algumas hipóteses já foram levantadas a partir do depoimento de testemunhas e parentes das vítimas.

    As autoridades descobriram que Dinai era uma pessoa extremamente conservadora e, por isso, a possibilidade de um crime motivado por homofobia contra as duas meninas que namoravam não está descartada. Vinícius Ferreira, irmão de duas das vítimas, relatou ao jornal português Público que o suspeito chegou a ligar para a família informando que gostaria de se casar com Michele. No entanto, ele também cita relatos de amigas da vítima em Portugal que afirmam que a relação entre eles não era boa, que ele "a tratava como um cachorro".

    As famílias, no entanto, não acreditam na motivação por preconceito. Solange Santana, mãe de Michele, disse à rede de televisão portuguesa SIC que a gravidez da filha pode ter sido o motivo. Ela contou que amigas de Michele disseram que Dinai já havia ameaçado a namorada de morte caso engravidasse.

    A polícia portuguesa, no entanto, levanta outra possibilidade. A chegada a Portugal da ex-mulher de Dinai pode ter motivado o suspeito a cometer o crime para esconder o relacionamento. 

    Do outro lado do Atlântico, a Polícia Federal brasileira limita as informações sobre o caso. Enquanto as famílias alegam que comunicaram o desaparecimento em 11 de fevereiro, a PF diz em nota que o comunicado foi feito em março.

    "Em razão disso, tiveram os nomes incluídos na lista de difusão amarela pela Interpol", diz a nota enviada à Sputnik. 

    As autoridades brasileiras dizem que os corpos localizados na sexta-feira têm "indícios" que levam a crer que sejam as brasileiras desaparecidas. "Foi instaurado um inquérito para investigar as circunstâncias dos desaparecimentos", diz a PF. 

    Translado dos corpos

    "Ficamos comovidos com a ajuda de todos que nos apoiaram até aqui. Cada palavra de conforto, um abraço, as orações, vocês não fazem ideia de como foi e tem sido importante para todos nós. Pessoas que nunca vimos, de outros países, se colocaram em nosso lugar e sentiram a nossa dor", diz uma mensagem de agradecimento publicada pelas famílias e amigos das vítimas na página criada no Facebook para denunciar o desaparecimento.  

    Agora as famílias precisam de ajuda para levar os corpos das jovens para sepultamento no Brasil. Eles alegam que não têm recursos para bancar o transporte e, por isso, pedem ajuda numa campanha de arrecadação de fundos na internet.

    "Desejamos um funeral decente para as três meninas ou até mesmo a cremação, mas infelizmente não temos condições financeiras, pois os gastos são altos", afirmam.

    Procurado pela Sputnik, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil disse que acompanha, por meio do Consulado-Geral do Brasil em Lisboa, o caso das brasileiras desaparecidas.

    "Em respeito à privacidade dos cidadãos brasileiros no exterior e de seus familiares, e em cumprimento à determinação da legislação local de que as investigações tramitem em segredo de Justiça, o Itamaraty não está autorizado a divulgar mais informações sobre o caso em apreço", diz a nota. O caso, no entanto, não está sob segredo de Justiça em Portugal e o Itamaraty não respondeu sobre a possibilidade de auxiliar as famílias no translado dos corpos.

    Desaparecimentos

    A lista de pessoas desaparecidas da Interpol, na qual figuravam os nomes das três brasileiras, tem ainda outros 78 cidadãos brasileiros. Há outro caso em Portugal. Rayane Kelly Fernandes, de 31 anos, está desaparecida desde setembro do ano passado. Shirley Marilda Fernandes, mãe de Rayane, conta que ela foi vista pela última vez por amigos ao sair do café onde trabalha. 

    Tags:
    homicídio, homofobia, investigação, Portugal, Brasil
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