00:47 20 Fevereiro 2018
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    Gerhard Mewes, o treinador do clube de futebol da prisão

    36 anos de futebol com terroristas e assassinos

    © Foto: Gerhard Mewes
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    Uma entrevista de Ilona Pfeffer com o treinador prisional Gerhard Mewes.

    “Fair Play com Assassinos” – assim é chamado o livro de Gerhard Mewes, publicado no início deste ano. Nele o autor fala sobre sua experiência como treinador do clube de futebol Fuhlsbuttel, também conhecido como Santa Fu. A peculiaridade deste clube é que seus jogadores são reclusos da prisão de Hamburgo.

    Ilona Pfeffer: Você é treinador do clube de futebol da prisão já vai para 36 anos. O que você sentiu quando veio pela primeira vez a um treinamento na prisão?

    Gerhard Mewes: Recordo que no passado eu vim à prisão com sentimentos bastante contraditórios. E quero ressaltar que o funcionário da prisão, então responsável pelos esportes, entendeu isso e me deu um apoio muito notável.

    Juiz federal Sérgio Moro
    Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil
    IP: Como os reclusos encararam a ideia de criar uma equipa de futebol de prisão?

    GM: Eles mesmos avançaram essa iniciativa, porque queriam organizar treinos e formação de futebol na prisão. Mas então eles não conseguiram concordar uns com os outros, e assim eles se dirigiram à União de Futebol de Hamburgo. Então eu trabalhava como jovem treinador e me perguntaram se eu queria assumir esta tarefa. Eu, sem dúvida, sem reflexão, concordei.

    IP: Mas nesta prisão cumprem seus prazos não simples desordeiros, mas autores de crimes graves: assassinos, estupradores, terroristas. Para você como treinador, não foi difícil afirmar a sua autoridade?

    GM: Nos primeiros anos eu não pensava nisso sequer. Eu era jovem, profissional, corajoso e ativo. Eu era capaz de achar um tema comum com estas pessoas, que eram absolutamente estranhas para mim. Nós rapidamente criamos relações de confiança, ou seja, cada jogador sabia que eu não era um dos guardas e do assistente social é não precisava a tratá-los. Nos se ocuparam somente do futebol.

    IP: O futebol, realmente, é um esporte muito duro. E na prisão as relações são muito mais rígidas. Como pode defender a sua posição nestas condições?

    GM: Na verdade, as relações não são assim tão difíceis. Eu era jovem e ambicioso, trabalhava no clube de futebol, então eu era capaz de mostrar e impor as minhas ideias aos prisioneiros, que só queriam jogar futebol e receber um bom treinamento. No jogo eles queriam esquecer a prisão. Fisicamente, era impossível, mas lhes lembrava o tempo fora da prisão.

    Gerhard Mewes, o treinador do clube de futebol da prisão
    © Foto: Gerhard Mewes
    Gerhard Mewes, o treinador do clube de futebol da prisão

    IP: Posteriormente, você vai sem dúvida se familiarizar com o destino dessas pessoas, saber sobre seus crimes horríveis. Que você pensa sobre isso?

    GM: No início do meu trabalho eu não queria saber sobre seus crimes. Eu queria manter a distância interiormente. Mas isso não foi possível. Quanto mais eles confiavam em mim, tanto mais eu estava interessado no que eles mesmos me diziam. Somente com o tempo eu comecei a pensar sobre as razões disto ou daquilo, por que é que uma pessoa agradável no contato poderia ter cometido um crime. Criei ânimo para fazer perguntas. Mas nos primeiros dois ou três anos isto era impossível.

    IP: Qual foi a sua reação às suas histórias pessoais?

    GM: Agora eu não me lembro do que senti então. Comecei a perceber isso dois, três anos atrás, quando comecei a anotar as minhas experiências. Concentrei-me no trabalho, e me comportei de modo correspondente. Só agora eu percebi o que significava para as pessoas terem um homem que lhes ouvia e não condenava, que simplesmente os tomava por aquilo que são.

    IP: Quais foram os casos mais difíceis?

    GM: Foram os casos conhecidos no público. Por exemplo, Munir Motassadek, um dos terroristas de 11 de setembro de 2001. Para alguns muçulmanos, era uma figura especial. Eles elogiaram-no quase como uma estrela. Eu tive a oportunidade de ver isso. Para mim, isto também foi extraordinário. Havia também criminosos como um jovem afegão que assassinou sua irmã com 23 golpes de faca.

    IP: Para vocês é proibido participar dos campeonatos com times fora da prisão, mas na prisão você pode organizar jogos. Como é isso possível? Você tem fãs, patrocinadores? Toma medidas de segurança especiais?

    GM: Não temos patrocinadores como nas equipes profissionais. Mas a Associação de Futebol de Hamburgo, forneceu durante muitos anos o equipamento: bolas, roupas esportivas. Alguns dos meus amigos pessoais também deram coisas. Portanto, em princípio, têm tudo como nos outros times. Só não temos os fãs e ninguém de fora assiste aos jogos. E os árbitros têm de tomar decisões em condições incomuns.

    IP: Se você tivesse de defender os treinamentos de futebol como uma boa atividade para a prisão, o que você diria?

    GM: Não depende do crime cometido, do dano que uma pessoa causou, suas necessidades são todas iguais. É o desejo de movimento, o desejo de permanecer na comunidade onde será possível ser reconhecido. O futebol dá isso tudo, no futebol é possível desenvolver tudo isso. Você pode adquirir uma nova visão do mundo e novas perspectivas. Mas qualquer homem precisa de apoio. É difícil imaginar que em toda a Alemanha haja uma prisão em que a introdução destes elementos, a fim de ajudar os jovens a desenvolverem suas próprias perspectivas, seja impossível.

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    Tags:
    assassinato, terrorismo, futebol, prisioneiros, Alemanha
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