12:52 05 Agosto 2021
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    Em 22 de junho, nesse fatídico dia de memória para a Rússia, quando faz 80 anos que a Alemanha nazista atacou a União Soviética, a Sputnik Brasil falou com Rodrigo Ianhez, historiador do período soviético, sobre os planos de Hitler e a vitória soviética.

    A Grande Guerra pela Pátria – uma guerra no território soviético dentro da Segunda Guerra Mundial – é um evento muito importante para a Rússia contemporânea, que guarda memórias sobre anos de sofrimento, principalmente pelos quase 30 milhões de cidadãos da União Soviética falecidos durante a guerra, o que é um fator "incontornável", acredita Rodrigo Ianhez.

    Assim, essa vitória amarga dos russos foi grandiosa, que "ninguém poderá discutir, e os russos têm toda a razão, e os outros cidadãos da ex-repúblicas soviéticas têm toda a razão, em se orgulhar em deter e derrotar o nazismo", de acordo com suas palavras.

    Panorama factual

    O historiador relembra que no dia 22 de junho de 1941, às 03h15 da manhã, a Alemanha nazista atacou a União Soviética, sem declaração da guerra. Esse ataque se tornou a maior invasão militar da história envolvendo cerca de quatro milhões de soldados do lado do Eixo e três milhões de soldados do lado da União Soviética e que abriu o maior teatro de guerra – a Frente Oriental.

    Regimento de tanques da Academia Militar J.V. Stalin de Mecanização e Motorização do Exército Vermelho, junho de 1941
    © Sputnik / Anatoly Garanin
    Regimento de tanques da Academia Militar J.V. Stalin de Mecanização e Motorização do Exército Vermelho, junho de 1941

    As forças alemães foram divididas entre três grandes grupos, esclarece o especialista: Grupo de Exércitos Norte, se dirigindo a Leningrado – atual São Petersburgo – através das Repúblicas Bálticas, o Grupo de Exércitos Centro, com objetivo de capturar Belarus e alcançar a capital soviética de Moscou, e finalmente o Grupo de Exércitos Sul, que deveria tomar a região agrícola da Ucrânia, conhecida como "celeiro" da União Soviética, e depois a região estratégica da Crimeia, com tomada da área do mar Negro e seguidamente do Cáucaso, com seus poços de petróleo, o qual os alemães "julgavam como objetivo de guerra vital".

    "Mas de fato o que ocorreu naquela madrugada em 22 de junho foi algo bastante simples e decisivo. A Alemanha perdeu guerra naquela noite", sendo a maior consequência no longo prazo, pela visão do historiador.

    A invasão da Rússia afetou todo o curso da Segunda Guerra, e a partir desse momento a Alemanha estava condenada, do ponto de vista de Ianhez. Nisso também acreditavam vários generais alemães, que tentaram convencer Hitler a não efetuar a operação Barbarossa naquelas condições.

    Planos de Hitler

    A data do ataque não foi escolhida por acaso. Na Rússia, em outubro começa a nevar e o frio bastante rigoroso dura mesmo até abril. Mas "começar uma invasão num país da extensão da União Soviética, com clima que o país tem, no fim de junho é temeroso", segundo o especialista.

    Os planos do Fuhrer eram bem otimistas e também pretenciosos: o especialista conta que Hitler planejava estabelecer, em 3-4 meses, a famosa linha AA – entre as cidades de Arkhangelsk, no norte da Rússia, no mar Branco, e Astrakhan, ao sul, no mar Cáspio.

    No entanto, o plano de "colocar o país de joelho" nunca aconteceu, e não por causa do frio russo. O especialista considera que seria uma colocação injusta atribuir a derrota dos nazistas ao dito "general Inverno", que "inclusive diminui os méritos da União Soviética, tanto da liderança, que aprendeu muito ao longo da guerra e melhorou bastante sua capacidade de coordenação ao contrário dos nazistas, e o povo, claro, que levou fardo dessa guerra nas suas costas".

    O fator-chave que levou a URSS a conseguir vencer a Alemanha nazista foi esta ter menosprezado o adversário, segundo sua opinião.

    "Os soldados alemães já desde o primeiro momento encontraram uma resistência feroz por parte de todos os cidadãos soviéticos – claro, houve e o colaboracionismo, muito maior do que eles observaram na Europa Ocidental".

    Aspecto ideológico

    O aspecto ideológico é central na narrativa alemã para invasão na guerra, "uma narrativa absurda", acredita o historiador. A Alemanha nazista tinha uma intenção de eliminar a metade da população eslava e de escravizar a outra metade.

    Para isso foi elaborado o chamado Plano Geral para o Leste, que previa a criação de imensos latifúndios que deveriam ser controlados pelos alemães e cuja mão de obra seriam os eslavos que sobrevivessem à campanha de extermínio. A ideologia da Alemanha nazista e o próprio Fuhrer determinavam a inferioridade dos eslavos perante os alemães.

    Esses territórios deveriam se tornar um bastião de defesa desta Europa civilizada contra as forças orientais, a fronteira da Europa "civilizada" com a Ásia "bárbara". E a novidade do nazismo, segundo o especialista, é que "Hitler inaugura uma tentativa de estabelecer um regime colonial em plena Europa" através de novo tipo de guerra – a guerra de extermínio.

    O especialista aponta que Hitler se inspirava – um fator pouco comentado, embora ele tenha feito várias alusões a isso – no modelo americano da marcha para Oeste. Ele comparava populações eslavas aos nativos americanos, como populações que deveriam ser submetidas, falava que o rio Volga seria "o Mississipi de Alemanha".

    Moradores constroem trincheiras nas ruas
    © Sputnik / Vasiliy Savranskiy
    Moradores constroem trincheiras nas ruas

    No entanto, se relembramos as batalhas centrais dessa guerra, tal qualificação demonstra seu fracasso. A mais conhecida Batalha de Stalingrado e a rendição das tropas da Alemanha foi "um baque poderosíssimo no moral" dos alemães.

    "Mas a batalha que sem dúvida faz com que a iniciativa estratégica saia da mão de alemães e vá para mão de soviéticos é a Batalha de Kursk. É a maior batalha de tanques da história [...] A partir de então, não havia nenhuma perspectiva de os alemães sustentarem essa guerra."

    Brasil na Segunda Guerra Mundial

    Vale destacar que o Brasil também combateu o nazi-fascismo ao lado da URSS, na Segunda Guerra Mundial, mas os brasileiros não tem a tradição de comemorar as datas-chave da guerra.

    "Os nossos pracinhas, eles tiveram um treinamento bastante precário, foram enviados em condições bastante ruins para o fronte, tiveram que amadurecer lá sob o fogo na Itália e retornaram da guerra para serem relegados para o segundo ou terceiro plano pelo governo brasileiro, tratados com indiferença".

    Mesmo que os brasileiros não ocupem um local central no assunto, o historiador considera que o papel do Brasil na derrota do Eixo não deve ser esquecido. O país deve se orgulhar de seus pracinhas que "sofreram muito, antes, durante e depois da guerra".

    Além da existência de uma falsificação grave em torno da Segunda Guerra Mundial, como o negacionismo do Holocausto, o historiador aponta ao embate ideológico e às tentativas de reprimir por décadas o papel soviético na guerra com ajuda da indústria cultural sobretudo norte-americana.

    No entanto, os números apontam ao papel central da URSS: 80% das baixas tidas pelo Eixo foram sofridas contra a União Soviética e três quartos de forças de guerra estavam concentradas na União Soviética, relembra o historiador.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    União Soviética, Grande Guerra Pela Pátria, Segunda Guerra Mundial, Alemanha, nazismo
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