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20 Janeiro 2014, 10:26

Um canguru que pode mudar a História

livro, história

Esta é uma história sobre a História. Em 1606, o holandês Willem Janszoon, a bordo do navio Duyfken, descobriu a Austrália. Em 1770, o capitão James Cook reclamou a posse do continente para a Coroa britânica. Há vários séculos que estes dois fatos são mais ou menos incontestáveis.

No entanto, foi recentemente descoberto um documento que pode alterar a História. Trata-se de um pequeno livro manuscrito contendo texto e pautas de música litúrgica, escrito em latim e português. O mais interessante é que o manuscrito, datado dos anos 1580-1620 e que pertencia a uma freira portuguesa chamada Catarina de Carvalho, mostra um canguru numa das letras iniciais. No mesmo manuscrito podem-se ver ainda outros dois desenhos, também dentro de letras, representando homens em tronco nu, com trajes e adornos de penas na cabeça, semelhantes a aborígenes australianos.

O manuscrito, avaliado em 11 mil euros, foi adquirido pela galeria Les Enluminures, em Nova York, de um ferro-velho em Portugal.

Ora, se a Austrália só foi descoberta em 1606, como teria o autor do livro tido conhecimento da existência de cangurus e aborígenes?

Já há muitos anos os historiadores levantam a possibilidade de os portugueses terem desembarcado na Austrália muito antes dos holandeses, com base em várias evidências.

Uma delas foi a descoberta de dois canhões portugueses afundados nas águas da baía de Broome, na costa noroeste da Austrália. Segundos os cientistas, estas peças de artilharia são de fabricação portuguesa, podendo ser datadas entre os anos de 1475 e 1525.

Alguns historiadores utilizam os mapas de Dieppe, compilados pela primeira vez em 1547, em Dieppe, França, com base em protótipos portugueses, e que representavam o mundo conhecido até então. Alguns destes mapas indicam uma massa de terra intitulada "Jave La Grande", entre as atuais Indonésia e Antártida.

Foto: fac-símile do atlas de Nicholas Vallard mostrando a costa leste da “Jave La Grande”, considerado o primeiro mapa de Austrália.

Um historiador australiano, Peter Trickett, publicou um livro chamado “Beyond Capricorn” (Além de Capricórnio), em que afirma que foram os navegadores portugueses os primeiros a mapear a costa australiana, muito antes dos holandeses. Em 1522, uma armada liderada por Cristóvão de Mendonça, teria chegado à costa australiana, quase 250 anos antes do capitão James Cook.

O historiador baseia-se precisamente no atlas de Nicholas Vallard, de Dieppe. Os mapas, desenhados à mão, mostram a costa leste da “Jave La Grande” e mais de 100 locais com nomes em português. A um dos mapas foi posteriormente (em 1856) dado o título de "O primeiro mapa de Austrália do Atlas de Nicholas Vallard, 1547".

É comumente aceito que os cartógrafos franceses usavam mapas e desenhos adquiridos ilegalmente de Portugal ou provenientes de embarcações portuguesas que eram capturadas.

Segundo o historiador e filólogo australiano Carl von Brandenstein, os portugueses teriam naufragado no noroeste da Austrália Ocidental, perto da ilha de Depuch, entre 1511 e 1520, tendo sido os primeiros europeus a alcançar o continente, de onde não puderam sair. Estes portugueses acabariam por se integrar com a população local, deixando marcas culturais nas tribos aborígenes.

De fato, não é improvável que os primeiros portugueses possam ter ficado na Austrália depois de terem chegado lá. Na história dos Descobrimentos há muitos casos semelhantes. Por exemplo, Pêro da Covilhã, o mestre espião português do século XV enviado pelo rei D. João II em 1487 para encontrar as fontes das especiarias, depois de andar 15 anos pela costa ocidental da Índia e a costa leste de África, não regressou a Portugal e acabou por ficar definitivamente na Abissínia, onde viveu muitos anos de forma despreocupada e acumulou grande riqueza.

Segundo o historiador português Paulo Sousa Pinto, em declarações à agência Lusa, "a presença portuguesa, no século XVI, no território australiano é possível e muito provável, mas foi sem ser em nome da Coroa portuguesa, através de gente ligada ao comércio de Malaca (…) O oceano, naquela zona, era um imenso mar português, englobando Malaca, o arquipélago indonésio, a China, Timor e a Malásia, mas aquela terra, a Austrália, não tinha nenhum interesse comercial para o tipo de atividade que se praticava na época. Claro que chegaram portugueses àquela terra, eram comerciantes e gente que andava por ali e fazia o seu negócio, mas não deixaram registo".

Ou seja, os portugueses não reclamaram o continente para a Coroa de Portugal e mantiveram a descoberta em silêncio, por desinteresse ou outros motivos.

De referir que, naquela altura, a Coroa portuguesa guardava rigoroso segredo em relação às suas rotas marítimas.

Os motivos deste sigilo podem ter tido a ver com o Tratado de Tordesilhas, que determinava que os territórios a descobrir na zona da Austrália seriam propriedade da Coroa espanhola. Para além disso, os possíveis registos e notas destas viagens podem ter desaparecido na destruição do Terremoto de Lisboa, em 1755.

Foto: reproduo

Voltemos ao nosso manuscrito. A representação do canguru não pode, naturalmente, por si só, ser prova da eventual chegada dos portugueses à Austrália. Sabe-se que nessa altura, as obras de arte eram por vezes decoradas com criaturas mitológicas.

Na época das descobertas, as terras desconhecidas estavam rodeadas de mitos e lendas, sendo-lhes frequentemente atribuídos habitantes, flora e fauna exóticos. Por isso, o animal representado tanto pode ser um canguru como um outro animal, real ou imaginário.

Mesmo assim, o manuscrito vem-nos recordar que a História não é uma ciência imutável e que as verdades de hoje podem não ser as de amanhã.

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