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5 Dezembro 2013, 20:59

Ilustres judeus portugueses que vingaram na Rússia

Ilustres judeus portugueses que vingaram na Rússia

A 5 de dezembro de 1494, o rei português D. Manuel I, a fim de conseguir a mão de uma das filhas dos reis católicos espanhóis, decidiu expulsar os judeus de Portugal que não aceitaram converter-se ao Catolicismo, tendo esse povo procurado refúgio no Império Otomano, Norte e Centro da Europa, bem como no Império Russo.

Ainda hoje se pode encontrar entre judeus russos apelidos como Portugal, Portugalov, Devier (de Vieira) e Dacosta (da Costa).

Entre os que viveram na Rússia e fizeram brilhantes carreiras, podemos citar António Vieira, primeiro chefe da polícia de São Petersburgo; António Ribeiro Sanches, médico de vários czares russos, e João da Costa, bobo da corte de vários senhores da Rússia.

É precisamente deste último que vamos falar.

Entre os cerca de cem pessoas que tinham o título de bobo na corte russa, um descendente de marranos portugueses, João da Costa, figurava entre os mais sábios e próximos do czar Pedro I. Tratava-se de um homem extremamente culto para a época: sabia, além, do português, espanhol, italiano, francês, alemão e holandês. Embora tenha vivido 26 ou 27 anos na Rússia e se ter casado com uma mulher russa, nunca aprendeu a falar a língua do seu país de acolhimento, visto que ela começava a ser pouco empregue na alta sociedade de São Petersburgo. O francês e o alemão eram as línguas dominantes entre a nobreza russa, tendo a primeira ocupado esse lugar até meados do séc. XIX.

António Ribeiro Sanches, outro ilustre português que viu na Rússia e se encontrou com o bobo, a quem comprou parte da sua biblioteca pessoal, foi o autor da única biografia de João da Costa que chegou até nós, sendo uma homenagem às qualidades daquele que “não foi douto por não saber latim”. Uma das numerosas anedotas em que o bobo português é a personagem central vem confirmar a opinião do seu conterrâneo:

“Costa, homem bastante culto, gostava muito de livros. A sua esposa, que não se dava lá muito bem como o marido, disse num dos momentos de meiguice:

- Meu amigo, como gostaria de me transformar num livro para ser objeto da sua paixão!

- Nesse caso, gostaria de ter-te como calendário, pois pode substituir-se todos os anos – respondeu o bobo”.

Reza a biografia que João Christian Semah da Costa Cortiços nasceu em Sali (Sale), em Marrocos, na África, numa família de judeus portugueses. Aos 16 anos, já convertido ao cristianismo, parte para a cidade de Hamburgo, onde se dedica ao “ofício de corretor”, mas com muito pouco êxito.

É nessa cidade que, segundo Ribeiro Sanches, o cristão-novo conhece Pedro I, em 1712 ou 1713. Segundo outra versão, teria sido um agente russo em Hamburgo que teria levado João da Costa para a Rússia.

Porém, cabe aqui fazer um parêntesis, pois há divergências entre essas duas versões, por um lado, e uma das anedotas que sobre ele se contam, por outro. Segundo uma delas, João da Costa teria ido de Portugal para a Rússia por mar: “Quando Costa embarcava para chegar à Rússia por mar, um dos conhecidos que se despedia dele, perguntou-lhe:

– Não tens medo de embarcar no navio quando sabes que o teu pai, avô e bisavô morreram no mar?!

– Como morreram os teus antepassados? – perguntou por sua vez Costa.

– Morreram em seus leitos, – respondeu o interlocutor.

– Então, porque é que tu, meu amigo, não tens medo de deitar-te todas as noites no teu leito? – replicou Costa.”

Chegado a São Petersburgo, João da Costa conquistou as graças do imperador russo com as suas piadas e ditos jocosos. Em 1717, Pedro I fez dele o primeiro bobo da sua corte, concedeu-lhe o título de conde da ilha de Hogland, minúsculo banco de areia no mar Báltico, e coroou-o rei dos Samoedos, pequeno povo fino-úgrico que vive nas regiões árticas da Rússia. E embora estes títulos pouco tivessem de sério, permitiam a João da Costa comer na corte e receber 600 rublos anualmente, soma bastante considerável para a época.

João da Costa morreu aos 75 anos em São Petersburgo, mas as anedotas em que ele é a personagem central ficaram para a posteridade e ajudam-nos não só a entrar em contacto com o ambiente na corte e na alta sociedade da Rússia do séc. XVIII, mas permitem-nos ver a grande habilidade, inteligência e esperteza deste cristão-novo português, a sua fama no país que lhe deu abrigo. Ele tinha resposta para tudo e receita para todos os males, até para fazer parar greves!

O bobo não teve sorte com a esposa:

“A mulher de Costa era muito baixa e, quando perguntaram ao bobo porque é que ele, sendo pessoa ajuizada, casara com uma quase anã, ele respondeu:

– Depois de reconhecer que me devia casar, escolhi o mal menor”.

E, além de ser baixa, essa mulher tinha um feitio obtuso e era bastante má. Porém, Costa viveu com ela mais de vinte e cinco anos. Um amigo seu, quando chegou a data desse adversário, pediu-lhe para festejar as bodas de prata.

“Esperem, irmãos, mais cinco anos, – respondeu Costa. – Então, iremos festejar a guerra dos trinta anos”.

João da Costa estigmatizou a corrupção na corte, nos tribunais, embora não estivesse livre desse mal: “Com um processo em tribunal, Costa ia frequentemente encontrar-se com um juiz que lhe disse:

– Não vejo que este caso acabe bem para ti.

– Senhor, aqui tendes uns bons óculos, – respondeu o bobo, tirando do bolso e entregando ao juiz duas boas moedas.

Outro juiz, que soube disso e queria receber o mesmo, perguntou certa vez a Costa:

– Não me quer fornecer também uns óculos? Como o juiz era bastante bicudo e o processo de Costa não dependia dele, o português disse-lhe:

– Senhor, antes peça que alguém lhe ofereça um bom nariz”.

Reza a lenda – neste caso, uma das anedotas – que o humor não abandonou João da Costa à hora da morte: “Avaro, Costa tinha contraído numerosas dívidas e, na hora da morte, disse ao confessor:

– Peço a Deus que me prolongue a vida pelo menos até que eu pague as dívidas.

O confessor, convencido que o moribundo falava sinceramente, respondeu:

– Um bom desejo. Acredito que Deus ouvirá a tua voz e satisfará a tua prece.

– Se Deus tiver tanta piedade de mim, – murmurou Costa a uns dos amigos que se encontrava perto do leito, – jamais morrerei”.

 

Os fatos citados são de responsabilidade do autor.

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