Caros leitores, com grande alegria anunciamos que a Voz da Rússia está mudando de nome e se mudando para um novo site. Nós agora seremos conhecidos como a agência de notícias e rádio Sputnik. Vocês podem encontrar todas as últimas notícias da nossa agência em http://br.sputniknews.com. Por favor, atualizem seus favoritos e fiquem conosco!
24 Outubro 2013, 20:55

Os Black Bloc e o anarquismo sem causa

Quando eles entraram em cena, durante as manifestações de rua no meio do ano, não estava muito claro ao que vinham. As reivindicações eram várias e as multidões acordavam o Brasil. Mesmo o rastro de destruição e violência não poderia ser exclusivamente creditado a eles. Passados cinco meses, agora com a agitação das ruas mais focalizadas em debates específicos, os chamados Black Bloc ainda não disseram ao que vieram.

Misturados, antes como hoje, àqueles que defendem abertamente suas causas, gostaram do jogo, e se colocam quase como heróis, como se sem eles não houvesse chances de mudanças sociais, políticas e econômicas. A entrevista à Voz da Rússia dada por um dos responsáveis pela página do Facebook do movimento no Rio de Janeiro, devidamente sob anonimato, permeia essa autoimagem distorcida.

Se realmente são anarquistas – ou ao menos parte deles podem se autodenominar seguidores dessa corrente ideológica formulada por Willian Godwin na virada entre os séculos XVIII e XIX – já de partida cometem um pecado, como quando o entrevistado faz a defesa da “democracia direta”. Ora, o anarquismo não aceita o protagonismo em nenhuma instância, porque o mesmo pressupõe liderança e centralismo de decisões, o oposto de democracia direta.

Em entrevista à revista Fórum (20 de agosto), a Black Bloc (sob pseudônimo) Zuleide Silva foi mais explícita ao dizer que o grupo tentava (nas manifestações) defender os ativistas das forças repressoras e que “fazemos o que os manifestantes não têm coragem de fazer. Botamos nossa cara a tapa por todo mundo”.

Presunção. Ninguém passou procuração ao Black Bloc para que fosse defendido. E os manifestantes, cara Zuleide, têm bastante coragem de ir às ruas expondo claramente o que desejam. E a cara é deles mesmos: são fotografados, filmados e muito provavelmente registrados pelos órgãos de inteligência.

Quanto à repressão da polícia, mencionada pela jovem, ela foi flagrante no começo, depois recuou – verdade seja dita – por obra da proporção que o movimento tomou, causando pânico nos governos. Os excessos individuais desde então também são reprováveis tanto quanto os excessos cometidos pela violência dessa chamada linha de frente.

Quando nos últimos dias os defensores dos animais invadiram o Instituto Royal, em São Roque, para resgatar os cães que estariam sendo submetidos a maus tratos, o Black Bloc não foi chamado. Nem no dia seguinte à invasão, quando a manifestação à porta da empresa de pesquisa farmacêutica cresceu, também não havia sido requisitado. Os mascarados apareceram, simplesmente, e não se contentaram com palavras de ordem. A pancadaria se instalou.

Há, sim, uma reação aos ataques, mas na mão inversa do “reagimos, não atacamos”, mencionado na entrevista pelo jovem responsável pela mídia social do grupo carioca.

As provocações e a violência partem deles em geral e não é culpa da “mídia sensacionalista” que os estaria taxando de “vândalos tanto aqui dentro como fora do País”. Ainda se se quiser dar um desconto para a quebradeira que provocam ao mundo “corporativo”, que reação é essa de danificar, entre muitos outros, pontos de ônibus e pichar prédios públicos?

Especialista em segurança pública fala das manifestações de rua e da ação dos Black Blocs

A mesma senhorinha ou trabalhador, do povo ao qual o Black Bloc se diz defensor, estarão no dia seguinte naquele mesmo ponto de ônibus destruído. E serão penalizados duplamente, porque a restauração dos equipamentos públicos sairá novamente dos impostos pagos por eles. Por sinal, foram gastos até aqui cerca de R$ 6,22 milhões em São Paulo e Rio Janeiro, segundo as contas dos órgãos públicos.

O prazer do protagonismo está centrado na violência em si, ou no que eles classificam como os únicos meios de lutar pelas causas justas. Fosse somente pelos motivos, não haveria a necessidade de máscaras.

Lei da época da ditadura militar aplicado contra manifestantes

Acreditar que “até hoje não se viu nenhuma mudança por parte de ações pacíficas”, como também está descrito no texto, só se for ignorância ou má-fé. O próprio congelamento dos preços das passagens de ônibus urbano e até de pedágios, determinado a contragosto por prefeitos e governadores, resultado do Movimento Passe Livre que lançou o Brasil às ruas, foi resultado da pressão das multidões pacíficas.

No Brasil e no mundo há centenas de exemplos de movimentos reivindicatórios honestos que venceram pela serenidade, embora firmes e fortes, em todos os tempos. Do ativismo de Ghandi e seus seguidores que libertaram a Índia da colonização inglesa ao impeachment de Fernando Collor no Brasil, tirando-o da presidência, são apenas dois casos.

Não aceitar isso ou duvidar de que o pacifismo seja a única forma legítima de protestos, como questionou Leo Vinicius, autor do livro Urgência das Ruas – Black Bloc, Reclaim the Streets e os Dias de Ação Global (Conrad), à revista Fórum, é o mesmo que acreditar que o crime organizado em São Paulo, na esfera do PCC, venha a adotar o diálogo e depor as armas.

Vinicius vai ainda mais longe, como que a avalizar o rastro de destruição, ao afirmar que não entende como violenta uma janela quebrada pelo Black Bloc, porque considera que a “violência é um conceito subjetivo”. Nada disso, violência é algo concreto e vivificado, e não tem nada de interpretação pessoal. Somente doentes psiquiátricos dariam alguma interpretação mais atenuante.

Pode-se considerar válida a violência, e mais ainda a violência sob anonimato, contra regimes políticos ditatoriais, quando mesmo qualquer forma de protestos pacíficos é reprimida. Como quando muitos brasileiros optaram pela luta armada nos anos de 1960 e 1970.

Até mesmo quando o anarco-sindicalismo nas primeiras décadas do século XX pegou em armas, na Espanha e até no Brasil, havia a luta em comum com outros grupos contra um inimigo comum: o Estado opressor.

O anarquismo, sob o qual muitos Black Bloc se escondem, está longe de ser sinônimo de violência ou mesmo caos. Individualista ou coletivista, dependendo da corrente, nunca teve a chance de mostrar ao que veio. Mas sempre teve uma causa: eliminação total de todas as formas de governo e de Estado, sem qualquer tipo de ordem hierárquica, resumindo-o simplisticamente.

Talvez sabedor da dificuldade de se implantar tamanha utopia, Mikhail Bakunin, o russo que ajudou a sistematizar esse pensamento filosófico no século XIX, não ergueu um dedo e nem incitou os seus seguidores contra as ofensas que Karl Marx proferiu contra o anarquismo a partir da Primeira Internacional.

O alemão ganhou a simpatia dos trabalhadores e o comunismo nasceu. Deu no que deu. Bom, mas isso é outra história.

 

A opinião do autor pode não coincidir com a opinião da redação

  •  
    E recomendar em