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    Pela primeira vez após quase dez anos, uma autoridade palestina se encontrou com uma israelense em Ramallah. A Sputnik Brasil conversou com especialista para saber se essa reunião pode apontar para o começo de uma relação mais amistosa entre judeus e palestinos.

    No domingo (29), pela primeira vez em sete anos, o presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), Mahmoud Abbas, e o ministro da Defesa de Israel, Benny Gantz, se reuniram em Ramallah, na Cisjordânia.

    Em nota oficial, os israelenses informaram que os dois debateram assuntos ligados à segurança, à diplomacia e aos assuntos civis.

    A reunião foi dividida em duas partes, sendo a primeira composta pelas duas autoridades e oficiais de segurança de ambos os lados e na segunda foi um encontro apenas entre Abbas e Gantz, segundo o Times of Israel.

    "Gantz disse [a Abbas] que Israel está pronto para uma série de medidas que fortaleceriam a economia da AP. Os dois também discutiram como moldar a segurança, a realidade civil e econômica na Judeia, Samaria e Gaza", disse um comunicado do governo israelense referindo-se à Cisjordânia por seus nomes bíblicos.

    A reunião entre as duas autoridades acontece no momento em que o primeiro-ministro israelense, Naftali Bennett, retorna de Washington após se reunir com o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, no dia 27, conforme noticiado.

    O presidente dos EUA, Joe Biden, e o primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, conversam durante uma reunião no Salão Oval da Casa Branca em Washington, EUA, em 27 de agosto de 2021
    © REUTERS / JONATHAN ERNST
    O presidente dos EUA, Joe Biden, e o primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, conversam durante uma reunião no Salão Oval da Casa Branca em Washington, EUA, em 27 de agosto de 2021

    Na reunião, Biden levantou a questão palestina com o novo líder israelense durante as discussões, segundo a mídia.

    A Sputnik Brasil entrevistou Nathaniel Braia, editor de Política Internacional do jornal Hora do Povo, para entender melhor o que esperar dessa reaproximação palestino-israelense na nova gestão de Naftali Bennett em Israel após 12 anos de Benjamin Netanyahu no poder.

    O presidente palestino Mahmoud Abbas faz na cidade de Ramallah, na Cisjordânia, 25 de maio de 2021
    © AP Photo / Alex Brandon
    O presidente palestino Mahmoud Abbas faz na cidade de Ramallah, na Cisjordânia, 25 de maio de 2021

    Encontro entre Gantz e Abbas

    Segundo Braia, o encontro entre as duas autoridades tem como prelúdio a crise enfrentada durante a gestão do ex-primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, principalmente nos últimos anos. De acordo com o editor, em uma "tentativa de dar fim a esse processo desastroso que estava acontecendo houve uma unidade de forças políticas, tendo como articulador Yair Lapid".

    Braia explica que a nova gestão em Israel foi constituída com uma diversidade ainda não vista, e como exemplo, cita a entrada de um ministro árabe no governo israelense, representado por Issawi Frej, na pasta da Cooperação Regional.

    A presença árabe no governo e a saída de Netanyahu demonstram, então, uma tentativa de mudar a política estabelecida até então, de acordo com o editor.

    "Existe uma onda crescente a favor da paz. A queda do Netanyahu e a entrada de um árabe, pela primeira vez, como ministro no governo sinaliza isso, e nesse pano de fundo aconteceu o encontro entre Abbas e Gantz", disse o editor.

    Ministro da Defesa de Israel Benny Gantz gesticula enquanto fala durante uma conferência em Jerusalém, 7 de março de 2021
    © AP Photo / Sebastian Scheiner
    Ministro da Defesa de Israel Benny Gantz gesticula enquanto fala durante uma conferência em Jerusalém, 7 de março de 2021

    O especialista ainda destaca que Frej, de forma mais enfática, ajudou nesse processo de construção de uma nova comunicação israelo-palestina, quando o ministro disse que "nós temos que avançar para construir confiança entre Israel e Palestina, temos que avançar nos itens que nos unem e não nos que nos divergem".

    Na visão de Braia, o encontro foi um avanço significativo na questão, já que a última vez que uma autoridade palestina se sentou com uma autoridade israelense foi em 2014.

    "Foi um avanço as declarações do Issawi Frej, foi um avanço o encontro do Gantz com Abbas. Importante também enfatizar que Gantz foi por uma via mais ideológica, não foi simplesmente uma negociação econômica ou de segurança como pretende o Bennett, o Gantz disse: 'Foi um encontro para construção de confiança'. Então esse é um processo que está se iniciando. Ainda estamos no processo da não paz, mas está iniciando."

    Entretanto, mesmo com esse movimento, Braia aponta que dentro do governo há diferentes posições, e algumas delas não encaminham para uma aproximação entre os dois lados.

    "Há uma posição mais centrista, representada pelo Gantz e o Lapid, uma posição pró-entendimento com os palestinos defendida pelo Issawi Frej e pelo partido Meretz e tem a posição de Avigdor Lieberman e Naftali Bennett que não querem avançar com o acordo."

    O primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, (à direita), o ministro das Relações Exteriores de Israel Yair Lapid, (ao centro), e o ministro da Defesa de Israel, Benny Gantz, (à esquerda), comparecem ao presidente eleito de Israel no Knesset em Jerusalém, 7 de julho de 2021
    © AP Photo / Mídia Associada
    O primeiro-ministro de Israel, Naftali Bennett, (à direita), o ministro das Relações Exteriores de Israel Yair Lapid, (ao centro), e o ministro da Defesa de Israel, Benny Gantz, (à esquerda), comparecem ao presidente eleito de Israel no Knesset em Jerusalém, 7 de julho de 2021

    Braia ressalta o fato de que ao mesmo tempo que Abbas e Gantz se encontraram, também foi lançado os prognósticos do plano de desenvolvimento de moradias na área E1, "que significará, se levado adiante, a divisão da Cisjordânia".

    "Como dizem os palestinos, a região parece um 'queijo suíço' de tanto assentamento judaico que já existe. Neste momento, esses assentamentos estão espalhados, mas se o plano para área realmente acontecer, vai haver a separação de cidades como Jericó, Belém de Jerusalém, de forma definitiva por assentamentos construídos em terras assaltadas dos palestinos", afirmou o especialista.

    Adicionalmente, o editor destaca a posição do Hamas, "que foi a de desqualificar o encontro, uma vez que para os palestinos não existe saída da crise que possa acertada com a sociedade israelense".

    Um residente palestino reage durante brigas com a polícia israelense em meio à tensão contínua antes de uma audiência em uma disputa de propriedade de terras entre israelenses e palestinos no bairro Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, em 4 de maio de 2021.
    © REUTERS / AMMAR AWAD
    Um residente palestino reage durante brigas com a polícia israelense em meio à tensão contínua antes de uma audiência em uma disputa de propriedade de terras entre israelenses e palestinos no bairro Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, em 4 de maio de 2021.

    Eleições em Jerusalém Oriental

    Indagado se a posição centrista, dentro do governo, como a de Gantz e Lapid, poderia colaborar para que Israel permitisse a realização de eleições em Jerusalém Oriental, o professor diz que não.

    "Se isso acontecer seria legitimar a reivindicação palestina pela Jerusalém Oriental como sua capital. Então, isso não tende a acontecer, pelo contrário, acho que ainda haverá resistência a esse processo."

    Apoiadores do Hamas agitam bandeiras durante um comício contra a decisão do presidente palestino, Mahmoud Abbas, de adiar as eleições palestinas,  Jebaliya, Faixa de Gaza,  30 de abril de 2021
    © AP Photo / Adel Hana
    Apoiadores do Hamas agitam bandeiras durante um comício contra a decisão do presidente palestino, Mahmoud Abbas, de adiar as eleições palestinas, Jebaliya, Faixa de Gaza, 30 de abril de 2021

    Comunidade judaica brasileira

    Braia diz que a comunidade judaica no Brasil vive "um momento de intensa efervescência em termos de debates e discussão e ao mesmo tempo de perplexidade" em relação à questão israelo-palestina, mas enfatiza que esse é também "um período de transformação".

    O editor conta que pelo seu pequeno tamanho, formada por cerca de 120 mil pessoas, "a voz crítica dentro da comunidade a respeito dos movimentos israelenses ficou abafada, e o que prevaleceu era um alinhamento incondicional ao Estado judeu, inclusive quem fazia críticas era chamado de antissemita".

    Sobre a posição dos judeus no Brasil diante do atual cenário político, Braia diz que aconteceu "a percepção que a comunidade não pode ficar a parte da política brasileira no momento mais crítico da história do país que estamos vivendo".

    "Muitos judeus se sentiram desconfortáveis em relação a esse contexto, a ponto de se desinserirem da comunidade e começarem a tratar dos assuntos políticos, sociais, separadamente."

    Jair Bolsonaro visita o Muro das Lamentações em Israel
    © AP Photo / Menahem Kahana
    Jair Bolsonaro visita o Muro das Lamentações em Israel

    O especialista diz que com a chegada do presidente, Jair Bolsonaro, ao poder, houve uma reação efusiva por parte dos judeus de direita, entretanto, "a realidade foi se impondo e outro quadro foi se desenvolvendo, e os judeus progressistas começaram a se articular dentro da própria comunidade".

    "O bolsonarismo hoje, definido por nós como 'bolsonazismo', começou a querer falar em nome dos judeus, e os judeus progressistas começaram a perceber que não tinha mais como se inserir na sociedade brasileira sem se posicionar […]. Figuras dentro desse grupo iniciaram um alerta de que o bolsonarismo era prejudicial à comunidade judaica, a colocando em perigo."

    Braia complementa que "um dos pilares da sustentação da direita é a estigmatização do judeu e o uso do judeu como instrumento de afirmação de ganho de popularidade. O populismo da direita, especialmente o da ultradireita, se nutri do antijudaísmo".

    "Essa ultradireita é o núcleo de sustentação do Bolsonaro, não importa o quanto ele diga que é amigo de Israel, que é amigo dos judeus, ele tem que prestar serviço para esse núcleo que tem essa visão sobre os judeus."

    O editor também relata que os direitistas dentro da comunidade judaica "estão incomodados, e ficam xingando essas lideranças que alertam para essa conexão perigosa entre o bolsonarismo, o fascismo e o nazismo".

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Israel, Palestina, Mahmoud Abbas, Benny Gantz
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