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    A Sputnik Brasil conversou com o orientalista Yuri Mavashev sobre a ascensão e queda do AKP, do papel do presidente turco Recep Tayyip Erdogan no partido e as perspectivas para as próximas eleições presidenciais no país.

    Próximo de completar 20 anos, o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco), liderado pelo presidente turco Recep Tayyip Erdogan, encontra-se com aprovação abaixo de 34%, o pior nível desde que foi criado, mostra pesquisa citada pelo jornal El País.

    Com incêndios e inundações históricas, além de uma crise econômica que dura anos, a comemoração de aniversário do partido, que estava marcada para 14 de agosto, foi bastante discreta.

    A Sputnik Brasil conversou com o orientalista Yuri Mavashev, diretor do Centro de Estudos da Nova Turquia, sobre a ascensão e queda, pelo menos momentânea, do AKP, do papel de Erdogan no partido e as perspectivas para as próximas eleições presidenciais no país.

    O partido sou eu

    O AKP é o mais bem-sucedido partido turco, desde a sua fundação, em 2001, o Partido da Justiça e Desenvolvimento não perdeu uma disputa eleitoral em nível nacional. Inicialmente, o AKP foi uma agremiação conservadora com viés islâmico e representou, explica Yuri Mavashev, a maioria dos turcos por algum tempo: "Antes a elite intelectual da Turquia desempenhava um grande papel, significativo e notável, nesse partido".

    Apoiadora agita bandeira turca da janela de seu apartamento durante comício de campanha do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco) antes das eleições locais em Ancara, Turquia, em 28 de março de 2019
    © AFP 2021 / ADEM ALTAN
    Apoiadora agita bandeira turca da janela de seu apartamento durante comício de campanha do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco) antes das eleições locais em Ancara, Turquia, em 28 de março de 2019
    "Em 2017 foi realmente realizado um plebiscito sobre a mudança da forma de governação do país de uma república parlamentar para uma república presidencial. Eu suponho que o que foi mais desastroso nessas emendas é que ocorreu uma fusão dos aparelhos estatal e partidário, ou seja, o presidente Erdogan se tornou o chefe do partido. Antes os presidentes turcos, na forma parlamentarista de governo, consideravam que era impossível para eles liderar um partido porque achavam, razoavelmente, que eles representavam todos os turcos, ou seja, não podiam representar apenas um partido, isso é um ponto muito importante", sublinha Mavashev.

    Essa centralização de poder ocorreu um ano após a tentativa de golpe sofrida por Erdogan, em 2016, na qual o presidente turco venceu, acusando o líder da oposição Fethullah Gulen, exilado nos EUA, de encabeçar a ação. Antes disso, Gulen e Erdogan haviam sido aliados, mas após o rompimento muitas pessoas dos AKP ligadas a Gulen foram presos.

    "Em 2016, alegadamente foi realizada uma tentativa de golpe de Estado, de um alegado golpe, na verdade, tudo isso foi dirigido pelo Erdogan, com certeza. [...]. Vamos rápido passar todo o poder para Erdogan. Foi isso que aconteceu já em 2017 [...]. Para Erdogan isso foi uma oportunidade maravilhosa, para não permitir que nenhum concorrente possa de alguma maneira ser uma ameaça", comenta o orientalista.
    Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, estampado em camisetas de ativistas contra o golpe de Estado no país
    © AFP 2021 / ADEM ALTAN
    Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, estampado em camisetas de ativistas contra o golpe de Estado no país

    Eleições de 2023

    As próximas eleições presidenciais na Turquia vão ocorrer em 2023 e Yuri Mavashev destaca que a imagem do AKP está enfraquecida.

    "A principal base para o descontentamento é naturalmente que esse é um partido de um só homem. Esse partido atende aos interesses e foi criado para o presidente Recep Tayyip Erdogan. O partido já não está promovendo nenhuma ideia, infelizmente [...]. Como dizíamos na Rússia: 'Lenin é o partido e o partido é Lenin' [...]. O partido se tornou muito nacionalista por causa da aliança com nacionalistas e o partido se tornou muito inculto. Eu o chamaria de partido dos nacionalistas incultos. Por isso, Erdogan hoje lidera o partido dos nacionalistas incultos."

    Além disso, este ano o país está sofrendo com inundações e incêndios. Segundo as autoridades turcas, o número de pessoas que morreram devido às enchentes no mar Negro aumentou para 82, informou a agência AFP no sábado (21). O país sofreu no início do mês uma onda de incêndios que devastou o sul e o oeste do país, causando pelo menos oito mortes. A administração Erdogan foi bastante criticada pelos partidos de oposição pela resposta tardia nos incêndios.

    Fumaça do incêndio florestal em Manavgat, a 75 kilômetros de Antalya, Turquia, 28 de julho de 2021
    © REUTERS / Kaan Soyturk
    Fumaça do incêndio florestal em Manavgat, a 75 kilômetros de Antalya, Turquia, 28 de julho de 2021
    "[A] política em relação aos incêndios coloca questões muito sérias e muita crítica, ou seja, isso é um problema muito sério, realmente muito sério. Claro que a oposição e todos vão querer que ele responda por isso. Porque de fato o que tudo isso indica? Enquanto, mesmo pela versão ainda semioficial, eles acusam disso os Filhos do Fogo, alegadamente uma organização curda que teria queimado algo, mas então surge uma questão: onde estavam os serviços especiais turcos? Essa é mais uma questão para Erdogan. Se tudo isso aconteceu por razões naturais, então o que aconteceu com os bombeiros e por que não foi organizado o trabalho do gabinete no nível adequado?", questiona Mavashev.

    Ainda assim, o orientalista não descarta que o AKP vença as eleições com um acordo com o Partido de Ação Nacionalista (MHO, na sigla em turco).

    "Agora [o AKP] é um partido minoritário, e é o partido do presidente Erdogan, em primeiro lugar [...]. Posso dizer que esse partido não consegue reunir votos suficientes para ir ao Parlamento sem o apoio do Partido [de Ação] Nacionalista, com quem eles atuam em uma aliança unificada, que se chama Aliança Popular. Eles se opõem a outra aliança, a Aliança Nacional, esta já é de oposição [...]. Mas se houver uma aliança, também não é um fato que eles ganhem, na verdade, porque a população turca, como me parece, já começa a acordar e entender em que situação eles estão", avalia Yuri Mavashev.

    A Aliança Nacional é formada pelo Partido Republicano do Povo (CHP, na sigla em turco), o Partido Iyi (Bom), o Partido da Felicidade Islâmica (Felicity), e o Partido Democrático.

    Mavashev considera que os líderes da oposição mais populares atualmente são Ekrem Imamoglu, prefeito de Istambul, e o prefeito de Ancara, Mansur Yavas, ambos do CHP.

    Ekrem Imamoglu (d), prefeito de Istambul, e Mansur Yavas (e), prefeito de Ancara, deixam mesquita de Kocatepe após as orações de sexta-feira em Ancara, Turquia, em 26 de abril de 2019
    © AFP 2021 / ADEM ALTAN
    Ekrem Imamoglu (d), prefeito de Istambul, e Mansur Yavas (e), prefeito de Ancara, deixam mesquita de Kocatepe após as orações de sexta-feira em Ancara, Turquia, em 26 de abril de 2019
    "Isso se não levarmos em conta o chefe do Partido Republicano do Povo, Kemal Kilicdaroglu, mas eu não diria que ele seja um líder tão carismático [...]. Também, evidentemente, queria indicar [o ex-primeiro-ministro Ahmet Davutoglu], apesar de não estar dentro do sistema, ou seja, seu partido não está no Parlamento [Partido Futuro], de qualquer forma é uma figura muito importante. E, com certeza, Meral Aksener, presidente do chamado Partido Bom."

    O orientalista recorda que o Partido Democrático dos Povos (HDP, na sigla em turco) foi ilegalizado recentemente. O HDP é um partido curdo e a terceira força no Parlamento, com 55 deputados eleitos em 2018.

    "É considerado que ele [HDP] de alguma maneira teria alegadamente cooperado com o terrorismo. Mas tudo isso é claramente bobagem, porque havia o objetivo principal de remover o líder do HDP, Selahattin Demirtaş, que está preso agora. Ele poderia competir com Erdogan e certamente o governo ficou muito assustado com isso", frisa.

    Mavashev assinala que Erdogan não preparou um sucessor: "O próprio Erdogan criou aquele sistema em que, além dele, o sucessor só pode ser ele mesmo, como [Aleksandr] Lukashenko", o presidente de Belarus. Por isso, o orientalista não descarta a possibilidade de Erdogan antecipar as eleições, como ele fez em 2018. Inicialmente, as eleições estavam previstas para 3 de novembro de 2019, mas foram realizadas 24 de junho de 2018.

    "Erdogan gosta muito de todos estes jogos com eleições antecipadas, para supostamente desarmar seus adversários. Mas a verdade é que nesse caso não tenho certeza de que isso seja uma boa ideia. Nessas condições, quando todas as perguntas estão sendo colocadas ao partido, porque ele já declarou que ele é o único que está no poder no país, respectivamente, sob estas condições as eleições antecipadas indicam que ele já não tem autoconfiança", conclui.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Recep Tayyip Erdogan, Turquia, Istambul, Ancara, AKP, eleição, eleição, eleições, eleições, reeleição, reeleição, inundações, incêndios, incêndio florestal
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