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    Ex-intérprete afegão Ismail Khan arriscou sua vida para ajudar as forças especiais dos EUA entre 2006 e 2012. Embora ele viva agora nos EUA, ele avisa sobre o futuro sombrio do Afeganistão, especialmente para os afegãos que ajudaram as forças americanas.

    "Eu arrisquei tudo [...] Minha casa era uma zona segura para as forças especiais, planejamos muitos encontros na minha casa, conversamos com líderes das tribos e fizemos tudo o que pudemos para garantir que eles tivessem sucesso", disse Khan. "Eu estava verdadeiramente feliz fazendo isso, [mas] não sabia as consequências naquela época, o que isso traria para minha família".

    Milhares de afegãos estão tentando fugir do Afeganistão, à medida que a retirada dos Estados Unidos se aproxima do fim e a ofensiva militar do movimento Talibã (organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países) para reconquistar o país se intensifica.

    "Eles [os talibãs] perseguem todos [os intérpretes], eles não terão piedade [...] Isso é algo que está acontecendo lá, é doloroso para aqueles que estavam com o governo dos EUA em uma época em que mais precisavam deles, mas agora eles são deixados para trás", continuou.

    O veículo de imprensa Politico reportou, citando um funcionário americano, que o Departamento de Estado americano planeja evacuar neste mês mais 4.000 requerentes de vistos especiais de imigração, junto com seus parentes, o que eleva o total para 20.000 refugiados. O primeiro grupo de cerca de 250 afegãos que trabalharam para missões militares e diplomáticas americanas na República Islâmica chegou à Virgínia na semana passada.

    Além disso, o Departamento de Estado dos EUA disse na segunda-feira (2) que os Estados Unidos estão ampliando a elegibilidade para admissão prioritária de milhares de afegãos que trabalharam com as forças dos EUA, mas não são elegíveis para o Visto Especial de Imigrante.

    Nos últimos meses, afegãos que serviram como intérpretes e em outras funções para os EUA têm enfrentado crescentes ameaças do Talibã.

    Khan contou que muitos de seus amigos e parentes que colaboraram com as forças americanas ainda aguardam para ser evacuados do Afeganistão.

    "Um dos meus primos, que trabalhou por cerca de dez anos com as forças especiais dos EUA, - em 2013, seu filho de nove anos de idade foi sequestrado pelo Talibã e eles estavam pedindo US$ 150.000 [cerca de R$ 780 mil]. Eles deram algum dinheiro e trabalharam com o governo e libertaram o filho. Há cerca de quatro meses, eles mataram seu filho mais velho", disse, adicionando que "eles vão matar cada um [dos intérpretes] se assumirem o controle do país."

    Khan adverte que os Estados Unidos estão se retirando do Afeganistão no momento errado e prevê que aconteça uma situação similar ao Iraque, quanto a retirada das tropas americanas foi seguida do surgimento do Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países).

    "Se eles [os EUA] quisessem se retirar, deviam o ter feito em 2006, deviam o ter feito em 2010, este não é o momento certo para fazê-lo e com aquele curto período de tempo em que os Talibãs estão em alta e são mais violentos", disse Khan.

    "Eles [os talibãs] não têm nenhum interesse [na paz]", disse Khan. "Eles nunca farão a paz". Se eles quisessem fazer a paz, já o teriam feito há muito tempo, mas há anos ouvimos falar destas negociações e conversações. Eles são mais violentos a cada dia", afirmou.

    Os Estados Unidos prometeram concluir a retirada de todo o contingente americano do solo afegão até 31 de agosto deste ano. Além disso, eles conclamaram os países vizinhos, como o Paquistão, a fazer mais para trazer estabilidade à região após a saída dos EUA, mas Khan não acredita que isso seja realista. O Afeganistão cairá em mais tumultos e se tornará um porto seguro para os terroristas, inclusive para o Daesh.

    "O Daesh já está lá [no Afeganistão] e, se o Talibã assumir o controle, será um refúgio seguro para a maioria dos terroristas", concluiu.

    O Departamento de Defesa dos EUA disse na terça-feira (3), no relatório trimestral do inspetor-geral especial para a Reconstrução do Afeganistão que as forças governamentais afegãs vão enfrentar uma crise a menos que a ofensiva militar do movimento Talibã seja revertida.

    O relatório constata que a ausência da maioria das tropas americanas criará um desafio ainda maior para o governo do Afeganistão ante a crescente pressão dos insurgentes.

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    Tags:
    Afeganistão, Talibã, retirada, EUA
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