06:54 12 Maio 2021
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    Ex-embaixador de Israel nos EUA explica à Sputnik por que o "relacionamento profundo" entre Washington e Tel Aviv não vai chegar ao fim em caso de divergências no novo acordo nuclear com a República Islâmica.

    O secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, está realizando uma visita de dois dias a Israel. No domingo (11), Austin se encontrou com o seu homólogo israelense Benny Gantz, e nesta segunda-feira (12) deve ter uma reunião com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Durante o encontro, o secretário de Defesa dos EUA deve pedir a Israel que não sabote os esforços diplomáticos dos EUA para conseguir um novo acordo nuclear com o Irã. Netanyahu, por sua vez, provavelmente exigirá garantias de que o acordo com o Irã não prejudicará a segurança israelense.

    "Eles vão falar sobre o Iraque, Síria, Líbano, o [movimento rebelde] houthis [no Iêmen] e o [grupo palestino] Jihad Islâmica [organização terrorista proibida na Rússia e em vários outros países]. Até certo ponto, eles vão ponderar sobre a questão palestina, especificamente a cooperação de segurança e as repercussões potenciais das eleições palestinas", afirmou à Sputnik Danny Ayalon, ex-embaixador de Israel nos EUA.

    Irã no topo da agenda

    Mas o ex-diplomata acredita que essas não serão suas principais preocupações. O principal tópico de discussão será o Irã e o acordo nuclear entre Teerã e Washington, garante Ayalon.

    Na semana passada, Teerã sentou-se, em Viena, na Áustria, para uma série de negociações com a Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha, a fim de restabelecer o Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, na sigla em inglês), um acordo assinado em 2015 entre o Irã e China, França, Alemanha, Rússia, Reino Unido, EUA, Alemanha e a União Europeia em uma tentativa de controlar a atividade nuclear na República Islâmica.

    No entanto, três anos depois, o então presidente norte-americano, o republicano Donald Trump, retirou unilateralmente os EUA do acordo, prometendo sancionar empresas estrangeiras por fazerem negócios com setores-chave do Irã, a menos que Teerã concordasse com um novo conjunto de termos mais estritos.

    Enrique Mora, secretário-geral adjunto do Serviço Europeu de Ação Externa e Abbas Araghchi, vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, aguardam o início de uma reunião da Comissão Mista do acordo nuclear em Viena, Áustria, 6 de abril de 2021
    © REUTERS / Delegação da União Europeia em Viena, Áustria
    Enrique Mora, secretário-geral adjunto do Serviço Europeu de Ação Externa e Abbas Araghchi, vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, aguardam o início de uma reunião da Comissão Mista do acordo nuclear em Viena, Áustria, 6 de abril de 2021

    Olhos voltados para novo acordo

    Israel é um oponente ferrenho ao renascimento desse acordo. Tel Aviv acredita que a remoção da pressão econômica vai encorajar a República Islâmica e aproximá-la do desenvolvimento de uma bomba atômica. A partir daí, será apenas uma questão de tempo até que Teerã cumpra suas promessas de aniquilar o Estado judeu, acreditam as lideranças israelenses.

    Irã rejeitou repetidamente essas e outras alegações semelhantes, enfatizando que seu programa nuclear visa apenas fins pacíficos. Mas Israel não está convencido, e Ayalon diz que as autoridades querem ter certeza de que Washington vai estabelecer um "bom acordo" com o Irã, um pacto que reflita as necessidades de segurança de Israel de maneira mais competente do que o que foi assinado em 2015 pela administração do democrata Barack Obama.

    Do ponto de vista israelense, um acordo melhor não limitaria apenas o programa de enriquecimento de urânio do Irã, como o JCPOA fez em 2015. Israel precisaria ver garantias que incluiriam o fechamento das instalações nucleares existentes do Irã, o controle do desenvolvimento de suas centrífugas e o bloqueio dos planos de Teerã de mísseis balísticos.

    Durante a reunião desta segunda-feira (12), Netanyahu deve reiterar essas expectativas ao emissário do presidente dos EUA.

    Em seu primeiro discurso de política externa no início de fevereiro, o democrata Joe Biden afirmou estar comprometido com a segurança de Israel, e Ayalon acredita que o presidente norte-americano cumprirá suas promessas, dado o fato de ser "um presidente amigo" de Israel.

    Presidente iraniano, Hassan Rouhani, segundo da direita e chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, Ali Akbar Salehi, visitam usina nuclear iraniana em Teerã, 11 de abril de 2021
    © AP Photo / Gabinete Presidencial do Irã
    Presidente iraniano, Hassan Rouhani, segundo da direita e chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, Ali Akbar Salehi, visitam usina nuclear iraniana em Teerã, 11 de abril de 2021

    Relações não azedam

    Amizade à parte, os interesses norte-americanos podem diferir daqueles que Israel está perseguindo atualmente e se o acordo a que Washington eventualmente chegar com Teerã não for do agrado das autoridades israelenses, isso pode levar a uma potencial ruptura nas relações entre os dois países.

    No entanto, o ex-diplomata sugere não tirar conclusões precipitadas.

    "As relações não sofrerão, mesmo que Washington chegue a um acordo que não seja o que Israel desejava. Assim como não rachou em 2015 sob [a administração] Obama, que era menos amigável com Israel do que o atual líder [norte-americano]", garante Ayalon.

    Não se trata apenas de camaradagem. Israel é o maior receptor de ajuda externa dos EUA. Ao longo dos anos, recebeu cerca de US$ 146 bilhões (aproximadamente R$ 830 bilhões) em assistência bilateral e financiamento de defesa antiaérea e antimísseis, embora também tenha obtido pacotes econômicos e militares significativos.

    Em Israel, no entanto, essa assistência é vista como cooperação de quase iguais, não como doações generosas.

    Míssil israelense lançado pelo sistema de defesa aérea Cúpula de Ferro
    © AFP 2021 / Menahem Kahana
    Míssil israelense lançado pelo sistema de defesa aérea Cúpula de Ferro

    "Os US$ 3,8 bilhões [R$ 21,6 bilhões] que os norte-americanos investem em Israel também atendem aos interesses deles [EUA]. Isso cria empregos nos EUA. Isso deixa o lobby militar e os políticos felizes. Além disso, os EUA precisam de nossa inteligência, nossa segurança cibernética e nossas tecnologias de defesa antimísseis, como a Cúpula de Ferro. Claro que somos o parceiro pequeno nessa cooperação, mas é uma situação vantajosa para ambos os lados e não vejo esse relacionamento profundo chegando ao fim", comentou Ayalon.

    Aumento das tensões

    Enquanto os EUA estão liderando uma série de conversas indiretas com o Irã, relatos sugerem que o incidente que ocorreu na instalação nuclear iraniana de Natanz no domingo (11) foi resultado de um ato de sabotagem israelense.

    Washington vai querer ter certeza de que as tensões não aumentarão mais. Os EUA não estão interessados em surpresas e é por isso que, conclui Ayalon, a reunião desta segunda-feira (12) entre Austin e Netanyahu será principalmente sobre "estabelecer os limites", corresponder às expectativas e garantir que os dois parceiros de longa data estarão de acordo com o Irã e o programa nuclear iraniano.

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    Tags:
    acordo nuclear, Acordo Nuclear Iraniano, Benjamin Netanyahu, Lloyd J. Austin, Israel, EUA, Irã
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