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    Por décadas, as relações entre Israel e Turquia foram marcadas por altos e baixos, mas especialistas creem que Erdogan sinaliza para uma melhora das relações. Será que Israel aceita?

    Em 1949, a Turquia se tornou o primeiro país com maioria muçulmana a reconhecer o Estado de Israel.

    Apesar da decisão, ao longo das décadas as relações entre ambos os países foram marcadas por aproximações, cooperação, mas também mútuos desentendimentos. A partir de 2003, com a ascensão de Recep Tayyip Erdogan como primeiro-ministro turco, as relações começaram a passar por uma nova fase.

    Se, por um lado, durante anos Tel Aviv e Ancara caracterizaram suas relações tendo por base suas preocupações com segurança no Oriente Médio, em especial em relação à Síria, Erdogan buscou mudar tal orientação e melhorar as relações com países vizinhos.

    Com o início da Segunda Intifada palestina, iniciada em 2000, a Turquia rejeitou convites para se encontrar com autoridades israelenses, mas tentou manter boas relações para intermediar o diálogo entre a Síria e Israel.

    Conforme publicou o The Times of Israel, a Turquia também realizou consideráveis compras de material de defesa do país entre 2000 e 2010.

    Contudo, a situação piorou drasticamente em maio de 2010, quando durante a abordagem da chamada Flotilha da Liberdade, formada por um grupo de ativistas que tentou furar o bloqueio naval israelense à Faixa de Gaza, militares de Israel acabaram matando dez cidadãos turcos a bordo do navio Mavi Marmara. Em resposta, Ancara retirou seu embaixador de Israel e somente em 2013 ocorreu uma pequena reaproximação entre os países por intermédio do presidente norte-americano Barack Obama.

    Navio turco Mavi Marmara (foto de arquivo)
    © Foto / Wikipedia / Free Gaza movement
    Navio turco Mavi Marmara (foto de arquivo)

    Os altos e baixos continuaram, tendo em 2016 os países retomado relações diplomáticas de forma completa. Porém, em 2018 Erdogan deu passo atrás chamando de volta seu embaixador após fortes protestos na fronteira entre Israel e Gaza terminarem na morte de dezenas de palestinos.

    Reaproximação definitiva?

    Em dezembro passado, durante coletiva de imprensa em que comentou as relações com Israel tendo como fundo a Palestina, o presidente turco afirmou:

    "Nosso coração deseja que possamos levar nossas relações com eles [Israel] a um nível melhor."

    Analisando a declaração, a pesquisadora do Instituto de Estudos de Segurança Nacional em Tel Aviv, dra. Gallia Lindernstrauss, disse:

    "A declaração de Erdogan é significante [...]. É parecida com sua declaração anterior ao acordo de normalização de 2016. Então, ela é certamente um testemunho de intenções sérias do lado turco."

    Existem diversas razões que levariam a Turquia a ter tal comportamento. Entre elas está a complicada relação de Erdogan com o recém-empossado presidente norte-americano Joe Biden.

    Ainda durante o governo Trump, as relações entre Ancara e Washington testemunharam certa amargura devido ao fato de o país ter adquirido o sistema de defesa antiaérea russo S-400, o que levou os EUA a bloquear a aquisição pela Turquia dos caças F-35.

    Contudo, ainda em 2014, quando Biden era vice-presidente de Obama, segundo a mídia, ele teve que pedir desculpas a Erdogan após dizer que as políticas do presidente turco contribuíram para o fortalecimento do Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e em outros países).

    Além disso, parte da mídia turca descreve Biden como um dos envolvidos na tentativa de golpe militar contra Erdogan em 2016, segundo o especialista Hay Eytan Cohen Yanarocak do Instituto para Estratégia e Segurança de Jerusalém.

    É válido ressaltar que, no contexto da tentativa de golpe, a Turquia acusou o líder da oposição Fethullah Gulen, exilado nos EUA, de encabeçar a ação. Ancara pediu a extradição de Gulen, o que foi negado pela administração Obama.

    Policiais estão em um veículo militar depois que as tropas envolvidas no golpe se renderam na Ponte do Bósforo, em Istambul, Turquia 16 de julho de 2016.
    © REUTERS / Murad Sezer
    Policiais estão em um veículo militar depois que as tropas envolvidas no golpe se renderam na Ponte do Bósforo, em Istambul, Turquia 16 de julho de 2016.

    Ainda no ano passado, enquanto era candidato, Biden caracterizou Erdogan como "autocrata", ao passo que sinalizou mudança em sua política relativamente à Turquia.

    "Eu acho que o que nós devemos fazer é ter uma política diferente com ele [Erdogan] agora, deixando claro que apoiamos a liderança da oposição", publicou a Reuters em agosto passado a fala de Biden.

    Segundo Cohen, seria a nova administração de Washington que estaria por trás da tentativa de Erdogan de fortalecer os laços com Tel Aviv.

    "A mudança atual na política externa turca deriva do fato de que há uma nova liderança em Washington [...]. Erdogan está tentando reparar as cercas com Joe Biden. Para fazer isso, ele lançou uma nova reaproximação não só com os EUA, mas também com os aliados dos EUA, ou seja, Israel e a União Europeia", afirmou.

    Além disso, o cenário na região do Mediterrâneo poderia apontar para uma Turquia mais isolada.

    Devido à sua busca por gás na região, Ancara tem protagonizado uma verdadeira troca de farpas com a Grécia e Chipre, tendo estes países recebido forte apoio do Egito, que parece não ter esquecido o apoio turco à Irmandade Muçulmana.

    Ao cenário também se soma a França e Israel, os quais têm desenvolvido maiores laços no campo da defesa com Atenas.

    Para tratar de questões ligadas ao gás no Mediterrâneo, Chipre, Egito, Grécia, Israel, Itália, Jordânia e Palestina criaram o EastMed Gas Forum, organismo criado por tais países ainda em 2020 sem a presença da Turquia.

    Israel toparia uma reaproximação?

    Fortalecendo os laços com Israel, o país poderia buscar um novo caminho para agradar o Ocidente.

    "Na visão turca, Israel é considerado o representante do governo dos EUA no Oriente Médio", disse Cohen.

    A reaproximação poderia, pelos cálculos de Erdogan, propiciar uma melhora nos laços com Washington. Da mesma forma, tal passo não exigiria uma mudança radical da Turquia.

    Contudo, o cenário mudou no Oriente Médio, tendo Israel aumentado a lista de países árabes com os quais possui relações diplomáticas, comerciais e de segurança.
    A nova posição de Israel poderia fazer com que este exigisse três coisas da Turquia.

    Em primeiro lugar, a total proibição de Ancara das atividades militares do movimento palestino Hamas em seu território. Em segundo lugar, a Turquia teria que ser “mais transparente” em relação a suas atividades em Jerusalém Oriental, onde a influência do país tem aumentado através da Irmandade Muçulmana.

    Em último lugar, Israel demandaria que Ancara baixasse seu tom de críticas às políticas de Israel, em particular em relação a Gaza.

    "Se todos estes termos foram aceitos pela Turquia, todas as autoridades em Jerusalém se alegrariam e aceitariam tal normalização genuína [...]. Israel ainda quer abraçar a Turquia, mas não está correndo para seus braços", afirmou Cohen.

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    Tags:
    gás, mar Mediterrâneo, Oriente Médio, relações diplomáticas, EUA, Turquia, Recep Tayyip Erdogan, Israel
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