05:21 22 Outubro 2018
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    Poço de petróleo no campo Rmeilane, província de Hasakeh, Síria, julho de 2015 (foto de arquivo)

    Rússia e China poderiam virar concorrentes na Síria após fim da guerra?

    © AFP 2018 / YOUSSEF KARWASHAN
    Oriente Médio e África
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    O chefe da diplomacia chinesa, Wang Yi, prometeu que a China ajudará a recuperar a Síria depois do fim da guerra. A Síria é rica em petróleo e Pequim há muito tempo que mostra interesse pelo país, diz um artigo do jornal Vzglyad. Estará na hora de Moscou se preocupar com a influência chinesa?

    O chanceler chinês se encontrou na quinta-feira passada (27) com seu homólogo sírio Walid Muallem às margens da Assembleia Geral da ONU e afirmou que Pequim aprecia muito as relações sírio-chinesas e "não se absterá" da recuperação da Síria, segundo cita a agência Xinhua.

    Porém, ressalta o colunista do Vzglyad Mikhail Moshkin, Pequim manteve laços coma a Síria mesmo durante a guerra, e Damasco, segundo afirmou em março de 2016 o presidente Bashar Assad, espera que "o processo [de recuperação] se baseará na ajuda dos três principais Estados que apoiaram a Síria durante a crise: a Rússia, a China e o Irã".

    Mulher zambiana caminhando ao longo de trilhos nos arredores de Lusaka, Zâmbia (foto de arquivo)
    © AFP 2018 / Gianluigi Guercia
    Antes da guerra, a China era o maior exportador de produtos à Síria ao mesmo tempo investindo ativamente no setor de petróleo do país árabe, sublinha o autor do artigo. Vale destacar que, em 2010, a Corporação Nacional de Petróleo da China, junto com a anglo-holandesa Royal Dutch Shell, se tornou acionista da principal companhia de refino de petróleo síria, Al-Furat Petroleum.

    Além disso, Pequim considerou a Síria como uma das "interfaces" da iniciativa Nova Rota da Seda: a China planeja criar um dos roteiros do sistema de transporte euroasiático através do Irã e Iraque para a Síria e seus portos mediterrâneos.

    Quanto à parceria político-militar entre os dois países, esta remonta à época de Mao Tsé-Tung, nota o colunista, acrescentando que Pequim ajudou no desenvolvimento do programa de mísseis sírio.
    Neste contexto, se vê como lógica a visita de navios da Marinha chinesa à costa síria em 2013, quando a guerra estava no auge e faltavam dois anos até o início da operação russa: assim, a China "marcou sua presença", mas de uma forma cautelosa, frisa Moshkin.

    O especialista em assuntos chineses Aleksei Maslov lembra que a China recebeu várias propostas para participar na operação de paz no país árabe, mas Pequim nunca se envolveu em ações militares.

    "A China ficou observando em que resultaria o confronto entre Damasco e a oposição síria, por um lado, e entre a Rússia e os EUA, por outro lado. Agora a China começou a anunciar estar pronta para prestar ajuda humanitária. É uma tática comum chinesa", opinou o analista.

    Quanto maior era sucesso do exército sírio, apoiado pela Força Aeroespacial russa, na luta contra os terroristas, tanto mais ativamente Pequim prometia participar da recuperação da Síria, diz o artigo. Assim, em 2017 o governo chinês anunciou planos de investir cerca de 2 bilhões de dólares na construção de um parque industrial no país árabe. Mais tarde, foi informado que a gigante chinesa de equipamentos para redes de comunicação Huawei poderia se encarregar de restaurar as telecomunicações sírias.

    "Primeiro, a China está interessada em entrar na Síria para recuperar a infraestrutura. Pois quem possui infraestrutura, vias ferroviárias, possui o país. Segundo, Pequim tem interesse na exploração dos campos de petróleo sírios", apontou Maslov.

    O analista acredita que no momento já não é tão importante quem vencerá a guerra síria, mas quem vai recuperar sua economia, e a China "quer que isso [recuperação] siga um modelo seu".

    Neste ponto irá de certo modo competir com a Rússia, sublinha, que "sofreu as maiores despesas e baixas na Síria", e que também está interessada na recuperação, sendo esta vantajosa para Moscou do ponto de vista geopolítico.

    "A recuperação da Síria significará que os países que participem do processo reconhecerão que o ‘regime de Assad' deve permanecer pelo menos até às próximas eleições […] Assim, a participação chinesa da recuperação também é uma questão política e não apenas econômica", comentou ao Vzglyad Konstantin Simonov, diretor do Fundo de Segurança Energética Nacional.

    Resumindo, o autor do artigo ressalta que, tal como Pequim, Moscou tem seus interesses econômicos na Síria, de que falou o presidente Putin durante sua Linha Direta anual.

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    Tags:
    economia, petróleo, presença, concorrência, Nova Rota da Seda, Royal Dutch Shell, Wang Yi, Bashar Assad, Vladimir Putin, Irã, Síria, China, Rússia
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