20:25 21 Agosto 2018
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    Família iraniana caminha em frente a grafite anti-Estados Unidos em Teerã.

    Pressão externa ou fatores internos: o que levou aos problemas econômicos do Irã?

    © AFP 2018 / ATTA KENARE
    Oriente Médio e África
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    O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou que a decisão de Washington de sair do acordo nuclear com o Irã e reestabelecer as sanções causam problemas econômicos e minam o apoio público ao governo iraniano, sublinhando com isso que os problemas econômicos de Teerã foram provocados pelas influências externas.

    Para os especialistas entrevistados pela Sputnik Persa, os problemas econômicos do Irã foram provocados, em parte, pela interferência externa nos assuntos iranianos.

    O ex-conselheiro do ministro do Exterior do Irã e especialista em assuntos do Oriente Médio, Sabbah Zanganeh, declarou que a economia iraniana, exceto o setor petrolífero, não depende de forças externas. Essa influência reflete-se na pressão psicológica por parte dos EUA e na proibição de realizar transações em dólares.

    "A República Islâmica do Irã consegui transformar a sua economia, não a ligando apenas às receitas da venda de petróleo. Por isso a eficácia da influência externa sobre o Irã, em particular contra sua economia, poderia ser avaliada em 20%. O Irã começou a usar o euro, bem como as divisas nacionais de outros países (real, rublo, lira turca) nos pagamentos, livrando assim sua economia da pressão do dólar norte-americano", explicou o especialista.

    Segundo Zanganeh, as declarações de Netanyahu fazem parte de uma pressão psicológica contra o Irã que visa fortalecer os interesses dos EUA, seus aliados principais na região.

    "Benjamin Netanyahu não deveria falar sobre a pressão econômica 'grave' sobre o Irã, mas responder por seus próprios crimes econômicos: corrupção, trapaça e abuso de confiança", declarou ele.

    Vladimir Mesamed, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, sublinhou que nem todas as declarações das autoridades israelenses em relação a Teerã são objetivas. Entretanto, o professor lembrou a pressão de Israel contra o Irã a nível internacional que levou às manifestações no Irã.

    "Hoje em dia em Israel declara que o Irã está atravessando uma situação econômica muito grave […] Que o país está à beira de colapsar. Acho que a situação não é tão difícil como é descrita em Israel", disse ele.

    Nos últimos 40 anos o Irã tem sofrido sanções econômicas. Por várias décadas o país não tinha relações econômicas devido ao boicote bancário, ao isolamento do sistema de pagamentos bancários internacionais SWIFT. Entretanto o Irã, tal como a Rússia e, anteriormente, a União Soviética, tenta adaptar-se às sanções.

    Quanto ao JCPOA, o Plano de Ação Conjunto Global, para Mesamed seu fracasso é a decepção mais grave para o povo iraniano. O JCPOA, assinado em 2015 entre o Irã e Grupo 5+1 (EUA, Rússia, Reino Unido, França, Alemanha e China) limitou o programa nuclear de Teerã em troca do levantamento das sanções internacionais. O país esperava que esse acordo lhe desse uma plena liberdade econômica, bem como a possibilidade de vender seu petróleo a outros países e o acesso ao dinheiro congelado nos bancos dos países ocidentais. Entretanto, esses sonhos não se tornaram realidade.  Em 8 de maio, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou sua decisão de retirar-se do acordo nuclear. Washington também decidiu reintroduzir medidas restritivas contra a República Islâmica.

    "Todos esses fatores levaram a uma situação econômica e social difícil. As manifestações incessantes no Irã, que começaram em dezembro de 2017, revelam que a maioria do povo iraniano está preocupado não apenas com a política interna do país, mas também com a externa. Essas manifestações foram acompanhadas por slogans 'Fora a presença iraniana dos países vizinhos!', 'Não precisamos de Gaza, achamos que vivemos no Irã'. Houve também slogans que apelavam à diminuição da presença militar iraniana na Síria […] O dinheiro encaminhado à ajuda para Gaza e Síria é dinheiro que poderiam ser canalizados ao abastecimento das necessidades econômicas internas do Irã. É o fardo que carrega o Irã por não ter realizado seus programas econômicos", opinou Mesamed.

    Para o especialista, tanto os fatores internos, como os externos contribuíram para o agravamento da situação econômica no país. Se os países ocidentais não tivessem adotado as sanções contra Teerã, o Irã não estaria atravessando dificuldades sociais e financeiras tão graves como as de hoje.

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    Tags:
    sanções econômicas, acordo nuclear, JCPOA, EUA, Irã
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