21:25 12 Dezembro 2019
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    Bandeiras da Índia e da China (foto de arquivo)

    Tensão com os EUA pode aproximar China e Índia?

    © REUTERS / Adnan Abidi/File Photo
    Oriente Médio e África
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    A crescente hostilidade entre a China e os Estados Unidos devido a conflitos comerciais tem feito Pequim tentar consertar suas relações com a Índia. Nos últimos anos, os laços econômicos entre as superpotências asiáticas se deterioraram devido a disputas fronteiriças, aumentando a desconfiança mútua, segundo afirmaram especialistas à Sputnik.

    O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, concordou em realizar visitas não oficiais a Wuhan, na região central da China, onde encontrará com o presidente chinês Xi Jinping entre 27 e 28 de abril. A informação foi divulgada em uma declaração após encontro entre os ministros de Relações Exteriores dos dois países no domingo (22).

    O último sinal de melhoras das relações entre os países foi uma surpresa, levando em conta que Modi tem demonstrado uma posição forte contra Pequim desde que assumiu o poder, em maio de 2014.

    Enquanto países vizinhos da região, tais como Paquistão, Nepal e Bangladesh, apoiaram o plano de infraestrutura e comércio chinês da "Nova Rota da Seda", a Índia continua a ser um dos poucos países da região que não aderiram ao projeto chinês.

    Esse encontro ocorre ainda sob a a fumaça das tensões entre Pequim e Nova Delhi que eclodiram no ano passado devido a disputas na fronteira da região de Doklam, ou Donglang em chinês, próximo ao estado indiano de Sikkim.

    Lá, Nova Delhi apoia uma reivindicação territorial do Butão. A posição irredutível de Modi e a resposta também firme de Pequim colocaram a região sob tensão militar de 10 semanas entre China e Índia.

    Ambos se beneficiam com a Globalização

    Diante da política externa assertiva de Narendra Modi, a China se recusou a fazer concessões em qualquer sobre qualquer disputa com os indianos e evitando demonstrar fraquezas na relação bilateral com o país. 

    No entanto, enquanto Pequim enfrenta uma crescente pressão dos Estados Unidos em uma dura disputa comercial, a China pode encontrar um espaço comum com a Índia em relação a questões de comércio global, segundo sugerem alguns analistas.

    "A China quer terminar as tensões com a Índia porque há uma ameaça da administração de Donald Trump de uma possível guerra comercial, o que poderia ter também um grande impacto sobre a Índia. Isto porque isso é parte da globalização. Os líderes dos dois países apoiam a globalização e são contra o protecionismo sobre o comércio, o que poderia ser uma ameaça aos dois países. Enquanto novos atores na globalização, eles [China e Índia] estão ambos se beneficiando de exportações e importações. Isso poderia possivelmente explicar porque a China está interessada em sediar esse encontro informal". afirmou a Sputnik o professor Srikanth Kondapalli, da Universidade Jawahaelal Nehru, em Nova Délhi, Índia, que escreveu um livro sobre a iniciativa chinesa da Nova Rota da Seda.

    Guardas de fronteira da China e da Índia
    © AFP 2019 / DIPTENDU DUTTA
    Guardas de fronteira da China e da Índia

    O acadêmico indiano explicou que Nova Delhi aceitou o ramo de oliveira de Pequim porque assim reduziria a desconfiança mútua, o que poderia ajudar a Índia a assegurar a estabilidade de sua fronteira com seu vizinho mais poderoso. 

    "A situação na fronteira [entre a China e a Índia] é mais confortável para o lado chinês, porque seu poder nacional abrangente é 3-4 vezes maior que o da Índia. A China tem uma posição militar dominante no Tibete, tanto em capacidades de mísseis convencionais como nucleares. A estabilidade fronteiriça pode não ser uma grande preocupação para a China, mas é uma importante preocupação para a Índia. O incidente de Doklam expôs as vulnerabilidades em relações bilaterais. A desconfiança mútua aumentou e se manteve a níveis altos. O encontro informal pode levar a mais compreensão sobre as posições entre os dois países", disse o acadêmico.

    Diferenças fundamentais continuam

    Três dias antes da visita de Modi à China, a Índia novamente falhou em expressar apoio à Nova Rota da Seda no anúncio divulgado após o encontro de ministros de Relações Exteriores da Organização de Cooperação de Xangai, realizado em Pequim. Todos os outros ministros da organização reafirmaram o apoio à iniciativa.

    O professor Kondapalli salientou que a China precisa tratar a questão das preocupações de soberania da Índia sobre a área da Caxemira antes que Nova Delhi possa considerar entrar na iniciativa chinesa. 

    "A atual posição chinesa é que o Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC [na sigla em inglês]) é o programa principal da Nova Rota da Seda. O projeto da CPEC passa por Gilgit-Baltisan, no Paquistão, região que a Constituição Indiana menciona como parte do território da Índia. O lado indiano está basicamente dizendo 'como vocês podem construir uma estrada ou uma barragem hidrelétrica em meu território?'. Se a China é sensível ao Tibete e a Taiwan e pede a todos que assinem a Política da China Única, como a China ignora a exigência da soberania da Índia? A posição indiana é moderada comparada à firme posição da China em questões de soberania", disse ele.

    Índia e Paquistão estão presos em um conflito territorial sobre a região da Caxemira desde a divisão da Índia, em 1947, engajando-se em três guerras, em conflitos militares contínuos.

    Primeiro-ministro da Índia Narendra Modi
    © AP Photo / Saurabh Das
    Primeiro-ministro da Índia Narendra Modi

    Todavia, os acadêmicos chineses argumentam que é impossível para a China mudar sua posição em relação ao projeto da CPEC, e pedem para que a Índia evite politizar um projeto que é puramente econômico.

    "A Nova Rota da Seda tem foco na cooperação econômica e não está relacionada a nenhuma questão política ou de soberania. O projeto da CPEC foi confirmado após negociações prolongadas entre a China e o Paquistão. É irreal mudar a rota da CPEC apenas para satisfazer a Índia. É também impossível que a China e o Paquistão, duas nações soberanas, mudem seu acordo bilateral por causa de um terceiro estado soberano. O CPEC é um projeto econômico, que não está relacionado à política. É desencessário para a Índia preocupar-se demasiadamente acerca desse tema", disse à Sputnik News o pesquisador Hu Zhiyong, do Instituto de Relações Internacionais da Academia de Ciências Sociais de Xangai.

    Ele acredita que é improvável que Narendra Modi e Xi Jinping cheguem a um consenso sobre a Nova Rota da Seda após o fim do encontro marcado para a sexta-feira (27).

    A carreira política de Modi

    Melhorar as relações bilaterais entre a China e a Índia pode beneficiar a carreira política de Modi no futuro, já que ele enfrentará diversos desafios nas eleições da Índia, marcadas para 2019, diz o acadêmico chinês.

    O líder chinês, Xi Jinping, e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi.
    © Sputnik / Grigory Sysoev
    O líder chinês, Xi Jinping, e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi.

    "A política de Modi é falha, porque ele sempre vê a China como um rival estratégico para a Índia. É por isso que ele toma uma posição de confrontação [contra a China] em várias questões. Se ele não mudar esse tipo de política, ele pode deteriorar as relações bilaterais entre as duas nações. Isso pode trazer problemas a ele e fere suas chances de ser reeleito durante as próximas eleições na Índia, em 2019. Modi precisa disso e ajustar sua política com a China de acordo com essa necessidade. Cooperando com a China, a Índia pode se beneficiar da Nova Rota da Seda", disse Hu.

    Parecido com a situação de ter que resolver a disputa de fronteiras com a Índia após o encontro dos BRICS no ano passado, Xi decidiu encontrar Modi novamente como parte do esforço nacional para criar um clima positivo antes de sediar o encontro da Organização de Cooperação de Xangai em Qingdao, em junho, segundo concluiu o especialista chinês.

    Tags:
    nova rota da seda, conflitos índia-paquistão, Instituto de Relações Internacionais da Academia de Ciências Sociais de Xangai, Universidade Jawahaelal Nehru, Srikanth Kondapalli, Hu Zhiyong, Xi Jinping, Narendra Modi, Estados Unidos, EUA, China, Índia
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