06:11 18 Setembro 2019
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    Irã teste míssil de médio alcance S-200 na costa do golfo Pérsico

    Atividade nuclear do Irã não viola leis internacionais, mas em que resultará?

    © AP Photo / Amir Kholousi, ISNA
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    Dois eventos ligados ao Irã provocaram uma forte ressonância no mundo. O primeiro foi o início de testes de novas centrífugas IR-8 no âmbito de pesquisa científica para enriquecer urânio de acordo com o programa nuclear do Irã. O segundo foi o teste de um míssil balístico. Quais são as particularidades dessas atividades realizadas por Teerã?

    Eis os comentários do analista político e orientalista, Vladimir Sazhin que foi entrevistado pela Sputnik Persa:

    "Realmente, esses dois eventos ocorreram quase ao mesmo tempo no fim de janeiro. É interessante notar que eles tiveram lugar durante a tomada de posse do já presidente dos EUA, Donald Trump e da formação da sua Administração e doutrina política oficial. É necessário lembrar que ainda durante a campanha eleitoral, o senhor Trump fez declarações contra o Irã, chamando o acordo nuclear com o Irã de ‘horrível' e de 'vergonha para os EUA' (se trata do Plano de Ação Conjunto Global, aprovado pelos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas em conjunto com a Alemanha e o Irã em julho de 2015)."

    Neste momento o presidente Donald Trump mantém sua opinião anterior. Recentemente, ele declarou que o "Irã foi oficialmente avisado por ter lançado um míssil balístico. Deveria estar agradecido por esse negócio horrível ao que os EUA assinaram com eles". Mas é necessário destacar que o acordo foi assinado não só pelos EUA, mas também por seis representantes autorizados da comunidade internacional. Além disso, esse "negócio" foi aprovado e legalmente autorizado pela resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas 2231 de 20 de julho de 2015.

    Assim, será que Teerã violou as leis e acordos internacionais construindo a centrifuga IR-8 e testando mísseis?

    Quanto às centrifugas, o acordo diz que "o Irã continuará realizando pesquisas científicas na área do enriquecimento, mas isso não deverá levar à acumulação de urânio enriquecido.  Durante dez anos, conforme os planos do Irã para realizar pesquisa e desenvolvimento na área de enriquecimento no Irã, serão usadas apenas as centrifugas IR-4, IR-5, IR-6 и IR-8".

    Além disso, segundo apontam os especialistas na área nuclear, a eficiência e segurança das centrifugas iranianas de nova geração não pode ser comparada com as da Rússia, França ou de outros países ocidentais, mesmo as de gerações anteriores.

    Consequentemente, podemos dizer certamente que o Irã cumpre suas obrigações previstas no Plano de Ação Conjunto Global e na resolução 2231. Assim, as preocupações da mídia e alguns analistas políticos com a intensificação da atividade nuclear do Irã são exageradas e excessivas.

    Quanto aos mísseis e seus testes que causaram uma tempestade de descontentamento entre os oponentes do Irã, é necessário sublinhar que em 29 de janeiro o Irã realizou o lançamento de teste de um míssil balístico de médio alcance. Recordemos que essa classe de mísseis tem um alcance de voo de 1.000 a 5.500 quilômetros.

    No entanto, os EUA acusaram o Irã de violar o Plano de Ação Conjunto Global e a resolução 2231, expressaram sua indignação e ampliaram a lista das sanções contra o Irã, incluindo nela 13 pessoas físicas e 12 empresas ligadas ao programa de mísseis iraniano ou ao Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica, mas de fato não houve violação alguma por parte do Irã.  Como sabemos, o Plano de Ação Conjunto Global não proíbe testes de mísseis e a resolução 2231 só apela ao Irã para não realizar lançamentos usando tecnologias que possam transportar ogiva nuclear.

    Washington não tencionava levantar as sanções, mas teve de mudar a interpretação de suas acusações. Assim, o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, declarou que o teste de míssil realizado pelo Irã não representa uma violação direta do acordo nuclear, mas, segundo as palavras dele, "não há dúvidas que o lançamento do míssil viola o espirito do acordo". Então é a violação do espirito que se tornou a razão para introdução de novas sanções.

    Mesmo que os acordos internacionais não tenham sido violados, Teerã deverá ser repreendido por não seguir os conselhos da ONU.

    Ao mesmo tempo, os especialistas militares afirmam que o uso de mísseis balísticos de médio alcance, e especialmente de mísseis intercontinentais, só podem ser eficientes em versão nuclear. Eles são muito caros para lançá-los com materiais explosivos comuns. Neste sentido, o programa nuclear pode causar preocupações, pois mísseis de grande alcance não existem sem armas nucleares.

    Entretanto, não se deve esquecer que o programa de mísseis iraniano (bem como o nuclear) está sob a égide do Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica. Essa estrutura está em oposição ao rumo político atual do presidente do Irã, Hassan Rohani, pois muitos oponentes estão contra os acordos entre o Irã e a comunidade internacional, indicando que esse acordo prejudicou o programa nuclear do país.

    O analista político e orientalista destaca que há forças consideráveis que não apoiam o acordo nuclear com Teerã, tanto no Irã, como nos EUA, Israel e Arábia Saudita. Está em curso uma dura luta política e ideológica no Irã e à volta do país.

    "Assim", conclui Sazhin, "podemos fazer um balanço." O analista político e orientalista resumiu que nem o uso de centrifugas IR-8, nem os testes de mísseis balísticos de médio alcance, realizados pelo Irã, violam suas obrigações internacionais, mas, como se diz, ficou um ressentimento.

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    Tags:
    armas nucleares, acordo nuclear, direito internacional, violação, médio alcance, míssil balístico intercontinental, lançamento, Conselho de Segurança da ONU, Hassan Rohani, Donald Trump, Washington, EUA, Teerã, Irã
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