03:39 21 Agosto 2017
Ouvir Rádio
    Cineasta boliviana Carla Ortiz em frente às ruinas da cidade síria de Aleppo

    'Estive no meio do tiroteio e nunca vi mídia ocidental nas zonas de conflito na Síria'

    © Foto: Carla Ortiz
    Oriente Médio e África
    URL curta
    313421360

    A cineasta boliviana Carla Ortiz, que esteve filmando a guerra na Síria, voltou recentemente deste país devastado pela guerra e compartilhou suas impressões sobre o que ela viu na realidade.

    Sapadores do exército da Rússia trabalham na parte histórica de Palmira, Síria, 9 de abril de 2016
    © REUTERS/ Russian Ministry of Defence
    Em entrevista à Sputnik Mundo, Ortiz falou a respeito da inconsistência por parte da mídia ocidental quando tratava de informar sobre os acontecimentos do conflito.

    Carla Ortiz é uma famosa atriz da Bolívia. Em março de 2016, ela viajou até à Síria para realizar o trabalho de investigação para um documentário sobre o papel das mulheres na guerra síria. Ortiz percorreu 75% do território sírio visitando zonas protegidas pelo governo, áreas libertadas e regiões controladas por rebeldes. Durante sua viagem, a atriz conversou com gente da oposição, pessoas comuns e apoiantes do governo sírio.

    Durante sua visita mais recente, Ortiz esteve em Aleppo durante os dias da libertação da cidade. Eis o que ela conta à Sputnik Mundo:

    "Em Aleppo você ouve uma explosão a cada 30 segundos. Constantemente. Ao chegar cá, um estrangeiro se dá conta que passar seis anos nestas condições não pode ser uma vida digna."

    Carla Ortiz junto a uma escultura num prédio destruído, na Síria
    Carla Ortiz
    Carla Ortiz junto a uma escultura num prédio destruído, na Síria

    O documentário que a atriz boliviana está fazendo se intitula "Voz da Síria". Essa obra visa mostrar a experiência da guerra "a partir do clamor real das pessoas como cidadãos". A estreia do filme acontecerá em junho de 2017, na Bolívia e na Síria ao mesmo tempo.

    Na opinião de Ortiz, o erro do Ocidente é achar que o Oriente Médio vive em conflito permanente, sendo um caso impossível de solucionar.

    "Esquecemos que as grandes potências sempre estão perseguindo seus interesses geopolíticos e econômicos", acha a atriz.

    "Com o nosso desejo desesperado de ajudar, temos confiado em ativistas e organizações dos direitos humanos que afirmavam estar nessas áreas de conflito e que não conseguiram transmitir de maneira fidedigna como os sírios estão vivendo", ressalta Ortiz.

    Segundo a atriz boliviana, ao contrário do que se diz, existe uma oposição moderada na Síria. Ela explica que é toda essa gente que desde o início pedia reformas ao seu governo.

    • Cineasta boliviana Carla Ortiz junto a uma idosa na Síria
      Cineasta boliviana Carla Ortiz junto a uma idosa na Síria
      © Foto: Carla Ortiz
    • Carla Ortiz ao lado de crianças sírias
      Carla Ortiz ao lado de crianças sírias
      © Foto: Carla Ortiz
    • Cineasta boliviana Carla Ortiz mostrando imagens para crianças
      Cineasta boliviana Carla Ortiz mostrando imagens para crianças
      © Foto: Carla Ortiz
    • Carla Ortiz numa foto conjunta com crianças sírias
      Carla Ortiz numa foto conjunta com crianças sírias
      © Foto: Carla Ortiz
    • Carla Ortiz caminha entre prédios destruídos da cidade
      Carla Ortiz caminha entre prédios destruídos da cidade
      © Foto: Carla Ortiz
    1 / 5
    © Foto: Carla Ortiz
    Cineasta boliviana Carla Ortiz junto a uma idosa na Síria

    Quanto à origem dessa desinformação, Ortiz destaca que os meios de comunicação criaram uma propaganda que foi apoiada com intenções boas e más:

    "Tenho visitado a Síria em várias ocasiões e nunca vi nenhum representante da mídia ocidental em locais de massacres", constata.

    A atriz boliviana conta que nas seis frentes de guerra que cobrem toda Aleppo oriental, onde ela esteve, ela não viu nenhuma mídia exceto Russia Today:

    "Então, como eles podem fazer cobertura da guerra pela libertação da cidade ou declarar que Aleppo está em chamas se eles não estavam lá durante esses dias? Eu sim, estive no meio do tiroteio e posso contar sobre isso para você. De onde eles pegam informações?", indaga Ortiz.

    Ela acrescenta que a mídia hegemônica não cobre tais informações e em vez disso se focam no conflito bélico onde se trata de uma guerra civil. Mas essa mídia esquece de contar sobre todos os grupos estrangeiros que causaram a verdadeira desestabilização.

    "Quando cheguei a Palmira, depois de ela ter sido libertada do Daesh (grupo terrorista proibido na Rússia em vários outros países), era uma cidade fantasma. A gente na rua contava como lhes cortavam o pescoço com latas de sardinhas. As crianças nos contavam essas histórias. Temos cometido muitíssimos erros. Nos deixámos levar e repetimos notícias sem verificar as fontes que nos trazem essas notícias", explica Ortiz.

    A atriz boliviana descreve que os sírios como povo têm um amor infinito pela sua terra, um povo laico, multilíngue, que crê mais nas relações humanas que na religião.
    Ortiz destaca que há 16 exércitos presentes nesse pequeno país e que já não se trata de uma guerra civil. Na opinião dela, a mídia esquece de mencionar que a Rússia, Irã, EUA, Turquia, Arábia Saudita, França, Reino Unido, bem como 47 grupos rebeldes, dos quais 40 são terroristas, estão presentes no país.

    Carla Ortiz a caminho entre cidades sírias
    © Foto: Carla Ortiz
    Carla Ortiz a caminho entre cidades sírias

    No final, a atriz aponta que hoje os civis sírios são vítimas de terrorismo e da guerra:

    "O que eles querem é que acabe a destruição de suas casas e os assassinatos de suas crianças", conclui.

    Mais:

    Opinião: importância da aliança Rússia-Irã na Síria cresce diariamente
    Exército turco está na vanguarda da luta contra Daesh na Síria
    Reino Unido intensificará ataques contra terroristas na Síria em 2017
    Tags:
    propaganda, filme, conflito sírio, guerra, cobertura, mídia ocidental, Russia Today, Sputnik, Rússia, EUA, Oriente Médio, Ocidente, Bolívia, Aleppo, Síria
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar no FacebookComentar na Sputnik