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    Brasil vs. coronavírus no fim de maio de 2021 (47)
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    Em entrevista à Sputnik, economista considera animador superávit registrado pelo Brasil em abril, mas ressalta que o mesmo é majoritariamente influenciado por fatores externos e que o país precisa se empenhar mais no combate à pandemia e na implementação de reformas para poder deslanchar.

    Em balanço divulgado nesta quinta-feira (26), o Banco Central informou que o Brasil registrou um superávit em suas transações correntes de US$ 5,663 bilhões (cerca de R$ 30 bilhões) em abril. A autoridade monetária, por sua vez, estimava um superávit US$ 5,7 bilhões (cerca de R$ 30,114 bilhões).

    Segundo Fernando Rocha, chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central do Brasil, o superávit de quase 5,7 bilhões de dólares das transações em conta corrente registrado em abril foi o maior para qualquer mês de toda a série histórica da instituição, que teve início em 1995.

    Além disso, no mesmo mês de 2020, o saldo da conta corrente foi positivo em 199 milhões de dólares (cerca de R$ 1 bilhão). Já no acumulado de 12 meses, a diferença entre o que país gastou e o que recebeu nas transações internacionais relativas a comércio, rendas e transferências unilaterais alcançou um saldo negativo de US$ 12,389 bilhões (cerca de R$ 65,5 bilhões), o equivalente a 0,84% do Produto Interno Bruto estimado pela autoridade monetária. 

    Em março, o déficit foi equivalente a 1,23% do PIB e o Banco Central calcula um superávit de US$ 2 bilhões (R$ 10,5 bilhões) para este ano de 2021.  

    Em entrevista à Sputnik Brasil, o economista Eduardo Mekitarian, professor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo, afirma que o dado relativo ao superávit registrado em abril é "bastante animador", dado que o desempenho em 2020 foi "irrisório", de US$ 199 milhões, quando o mundo todo sofria com a pandemia.

    Na opinião de Mekitarian, os resultados mostram que o setor externo da economia vai muito bem, enquanto no setor interno a situação segue bastante complicada. Para o economista, a alavancagem econômica de alguns países, como China, Europa e Estados Unidos, que são países que têm um relacionamento comercial e econômico significativo com o Brasil, "tem sido benéfica e continuará sendo benéfica" para o país.

    Segundo o professor da FAAP, essa alavancagem de alguns países se reflete nos resultados da balança comercial brasileira, que somou um total de US$ 26,6 bilhões (R$ 140,5 bilhões), um aumento de 50,7% em relação a 2020.

    "O crescimento econômico desses países, o elevadíssimo aumento das commodities brasileiras exportáveis para os outros países, principalmente a China, que tem se recuperado de uma forma mais intensa [...] Isso certamente levou o Brasil a ter esse superávit comercial", avalia Mekitarian.

    Outro resultado divulgado pelo Banco Central foi de que o déficit em conta corrente acumulado em 12 meses, de US$ 12,4 bilhões (R$ 65,5 bilhões), foi o menor desde março de 2008, quando atingiu a marca de 10,8 bilhões de dólares (R$ 57 bilhões). Além disso, o chefe do Departamento de Estatísticas da autoridade monetária assinalou que, se a projeção de superávit de 3,6 bilhões de dólares (R$ 19 bilhões) feita pelo Banco Central para maio se confirmar, o déficit acumulado em 12 meses cairá para 8,3 bilhões de dólares (R$ 44 bilhões).

    Para Eduardo Mekitarian, a balança comercial brasileira apresentou um crescimento extraordinário, devido à "demanda internacional pelas commodities brasileiras", como soja, milho e minério de ferro, que tiveram grandes elevações de preço.  Além disso, o economista aponta que a desvalorização cambial do real também tem ajudado a trazer "um o resultado em dólares para o Brasil bastante elevado".

    Outro fator importante apontado pelo professor da FAAP diz respeito às importações, que também tiveram uma alta expressiva. Para o economista, isso é um bom sinal para a economia brasileira porque as "importações de bens de capital vão direto para o setor produtivo", e estas vêm, de uma certa forma, sendo gradualmente elevadas.

    "Substituição de máquinas, equipamentos, inovações tecnológicas, isso pode se traduzir, em um futuro próximo, em algo que venha a trazer maior produtividade para a economia brasileira, uma grande alavancagem para a indústria do país e, consequentemente, para a geração de divisas externas", avalia.

    Contudo, o economista ressalta que há uma conjunção de fatores relativos à estabilidade econômica do Brasil que não se enxergam neste momento. Com inflação em alta, taxa de juros em alta, e reformas que não saem, o país ainda se mostra muito desarticulado internamente e com muitos de seus setores bastante atingidos pela pandemia de COVID-19. 

    Além disso, o professor da FAAP destaca o tratamento dado pelo país ao meio ambiente, com relativo descaso em relação às demandas internacionais de combate ao desmatamento, o que tem prejudicado a chegada de mais recursos do exterior, já que muitos países estão deixando de investir no Brasil por conta das questões ambientais.

    Em suma, o professor avalia que "a questão política, a questão ambiental e a questão da saúde têm feito com que o investimento direto no Brasil diminuísse em relação a anos anteriores" e que o crescimento econômico do país, que é estimado pelo Banco Central em entre 3,5% e 4%, "depende do combate à COVID-19 e da restauração da economia brasileira".

    "Nós temos tido políticas econômicas equivocadas no Brasil ao longo de seis, oito anos, que têm levado a uma queda constantemente do PIB. Para recuperar a economia brasileira, [é necessário] uma política econômica ajustada e que [o governo] faça a imediata implementação dessa política, para que o país consiga subir", opina Mekitarian, que considera que o combate à pandemia e as reformas precisam ser efetuadas como o fator preponderante para que a economia brasileira deslanche no ano de 2022.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Tema:
    Brasil vs. coronavírus no fim de maio de 2021 (47)

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    Tags:
    crescimento econômico, COVID-19, transações correntes, superávit, balança comercial, economia, Brasil
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