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    Ao mesmo tempo em que o mundo cobra e o agro de exportação busca se adequar às exigências ambientais, a bancada ruralista atua contra a sustentabilidade e é responsável por retrocessos observados no Brasil nessa área, afirma especialista ouvido pela Sputnik.

    Nesta terça-feira (25), Dia do Trabalhador Rural, realizou-se a quarta edição do Agrisummit, evento que debateu a importância da inovação e da sustentabilidade para o agronegócio, setor de grande destaque na economia brasileira. 

    Agrisummit 2021, realizado nesta terça-feira, 25 de maio de 2021
    © Foto / Screenshot / Divulgação
    Agrisummit 2021, realizado nesta terça-feira, 25 de maio de 2021

    Nos últimos anos, tem crescido a pressão em todo o mundo por práticas sustentáveis de cultivo agrícola e na pecuária, com o Brasil sendo colocado constantemente em xeque devido ao aumento da devastação ambiental no país. A fim de responder a essa pressão, grande parte dos produtores brasileiros tem buscado se organizar em torno de iniciativas mais sustentáveis e também mais transparentes, na tentativa de evitar inclusive possíveis boicotes, sobretudo de compradores internacionais.

    "A sustentabilidade do agronegócio brasileiro é tema que está em destaque nas mais diversas pautas. O Brasil é visto com destaque por órgãos internacionais ligados à ONU devido à sua relevância na produção de alimentos no mundo, mas é necessário que essa produção agrícola venha acompanhada de um modelo rigoroso de compliance socioambiental, dada a importância do nosso meio ambiente e nossa biodiversidade para todo o mundo", afirma em entrevista à Sputnik Brasil Paulo Henrique Amorim da Silva, gerente do Canal de Agronegócio da Imagem, empresa brasileira de tecnologia líder em sistemas de informações geográficas, responsável pelo evento. 

    ​De acordo com Silva, há décadas, o Brasil vem andando na direção de um desenvolvimento sustentável, como demonstrado, por exemplo, pelo setor sucroenergético, que "criou toda uma cadeia de produção energética a partir de biomassa da cana, limpa e renovável", ou pelos avanços nas leis ambientais, como o Código Florestal de 2012.

    Nessa caminhada, ele explica, as novas tecnologias têm sido "uma peça fundamental para um crescimento contínuo da sustentabilidade do agronegócio".

    "Como exemplo, temos implantado o sistema ArcGIS (sistema de informações geográficas) em diversos players do agronegócio, como usinas de cana de açúcar, indústria florestal, agroquímicas e trades, para gerar análises socioambientais das áreas de originação e produção. Além disso, o uso de sistemas como o ArcGIS tem conectado mapas com diversas informações, como dados agrícolas, telemetria de máquinas e os mais diversos tipos de apontamentos em campo, gerando insights para tomada de decisões mais assertivas nas operações agrícolas, gerando um uso mais eficiente de agroquímicos, e, inclusive, reduzindo o consumo de diesel através de uma logística mais eficiente."

    ​​O avanço contínuo da tecnologia no campo deve contribuir para o monitoramento e rastreamento ambiental como um dos componentes principais das certificações, segundo o gerente.

    "Por exemplo, atualmente, estão disponíveis algumas constelações de satélites fornecendo imagens semanais com acesso aberto à comunidade, servindo como insumo ao monitoramento ambiental. E o nosso desafio é o uso constante dessas imagens para gerar informações consistentes do uso do solo."

    Com a adoção crescente de parâmetros mais sustentáveis, e tendo a tecnologia como aliada, Paulo Henrique Amorim da Silva acredita que há espaço para expandir ainda mais o agronegócio brasileiro.

    "A sustentabilidade e a produtividade devem andar lado a lado e a tecnologia é um grande catalizador para isso. Pois, devido a todos os movimentos dos nossos maiores mercados consumidores, a sustentabilidade alinhada à produtividade será a única forma de exportarmos nossa produção agrícola para o mundo."

    Bancada ruralista milita contra legislação ambiental 

    Também em entrevista à Sputnik Brasil, o secretário executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, explica que as discussões em torno da importância da sustentabilidade no campo têm impactos diversos entre os diferentes tipos de produtores rurais, mas, de maneira geral, costumam ser tratadas com seriedade pelos grandes exportadores, que não querem ter seus produtos e suas marcas vinculados à devastação, sobretudo da floresta amazônica. Ainda assim, "esse mesmo agro que tem essas iniciativas" mais sustentáveis na Amazônia não teria necessariamente a mesma preocupação no cerrado. 

    ​Entre os produtores não exportadores, considerando-se principalmente aqueles com grande representatividade na política, no Congresso Nacional, em vez de se observar um avanço, o ambientalista acredita que está ocorrendo um retrocesso, com apoio do atual governo brasileiro. 

    "Já na questão ruralista, a coisa não avança. E, na verdade, o que nós estamos vendo é um retrocesso. E a grande equação que nós temos é que, hoje, esse agro exportador é um agro que, para as decisões políticas, tem uma participação que não é tão grande quanto a dos ruralistas. E os ruralistas, na tomada de decisão política, são maioria e ditam as regras. Eles estão em maior número no Congresso. Portanto, a bancada lá que tem não é a bancada do agro exportador, é a bancada ruralista. E essa bancada ruralista é a que escreve, é a que milita diariamente contra a legislação ambiental, a legislação de proteção do meio ambiente no Brasil", afirma. 

    ​Segundo Astrini, o presidente da República, Jair Bolsonaro, também seria, em última instância, um representante desse grupo ruralista, sendo guiado pelos mesmos pensamentos "de décadas atrás", baseados em teorias da conspiração, que fundamentam a atuação desses produtores. 

    "Na verdade, ao mesmo tempo em que o mundo cobra dos produtos brasileiros, nesse mercado de exportação, cada vez mais compromisso com a sustentabilidade, internamente, no país, a gente regrediu porque os ruralistas tomam conta hoje da política nacional dentro do Congresso e, agora, também, dentro da presidência da República."

    Para o secretário executivo do Observatório do Clima, a mudança de comportamento observada entre os produtores do agro de exportação pode ocorrer também entre aqueles que ainda demonstram resistência às pautas ambientais. Mas isso passaria necessariamente por uma participação maior do poder público na promoção desse discurso e dessas práticas mais ajustadas à realidade atual. 

    "Vale lembrar que, entre 2004 e 2012, o Brasil diminuiu o desmatamento da Amazônia em cerca de 83%, ao mesmo tempo em que o Brasil avançou muito no PIB nacional e avançou muito na capacidade de negócio mundo afora, negócios, exportação de commodities, em negócios com o mercado exterior. Inclusive, baseado muito na boa performance de combate ao desmatamento e na boa performance de melhoria dos seus padrões de clima e socioambientais, de governança socioambiental no Brasil. Portanto, a melhoria da questão ambiental é um selo muito positivo e que impulsiona economicamente, de forma decisiva, o agronegócio no Brasil." 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Observatório do Clima, Jair Bolsonaro, sustentabilidade, tecnologias, agronegócio, agropecuária, ruralistas, economia, Brasil
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