22:36 10 Maio 2021
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    Embora o Brasil pareça ter compreendido que as circunstâncias mudaram e que é preciso se adaptar a certas exigências do exterior, dificilmente isso levará a uma rápida ratificação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, acredita especialista ouvido pela Sputnik.

    Em encontro virtual com membros da União Europeia na última quarta-feira (14) sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável, os ministros Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Carlos França, das Relações Exteriores, foram cobrados pelo comissário da UE para Meio Ambiente, Virginijus Sinkevicius, pela falta de ambição do Brasil na questão do clima e na preservação de sua biodiversidade.

    No entendimento da UE, o Brasil, um parceiro estratégico do bloco, deixou de ser uma referência na luta contra a emissão de gases de efeito estufa para se tornar, nos últimos anos, uma fonte de preocupação, devido ao aumento do desmatamento no país.

    "O desmatamento precisa cair de forma importante" e urgente, disse o lado europeu, citado pela coluna de Jamil Chade, no UOL, cobrando o fortalecimento de leis ambientais, regulamentações e monitoramento da situação nas florestas brasileiras. 

    ​Salles, por sua vez, rebateu as críticas europeias afirmando que as emissões do Brasil ainda estão muito abaixo das da União Europeia, e que o país teria a lei ambiental "mais restritiva do planeta". 

    O ministro também se queixou da falta de apoio internacional conforme prevista pelo Acordo de Paris e afirmou que, se o Brasil fosse recompensado com base nas regras do mercado europeu pelo que deixou de emitir de gases entre 2006 e 2017, o país receberia o equivalente a US$ 290 bilhões (R$ 1,6 trilhão).

    "O Brasil recebeu próximo de US$ 1 bilhão [R$ 5,62 bilhões]. Isso mostra que há espaço para o apoio da UE", disse Salles. 

    ​Segundo o professor de relações internacionais Kai Enno Lehmann, da Universidade de São Paulo (USP), apesar da expectativa de que contatos como esse entre o Brasil e a Europa na área ambiental possam atenuar as dificuldades de ratificação do acordo comercial firmado entre o Mercosul e a União Europeia, ainda está fora da agenda de vários países europeus dar um passo no sentido de conceder uma "vitória política" ao governo do presidente Jair Bolsonaro.

    No caso do Estado-líder da UE, a Alemanha, por exemplo, o especialista lembra que estão previstas eleições federais para o final de setembro. E, nesse período que precede o pleito, dificilmente, a coalizão da chanceler Angela Merkel correrá o risco, de acordo com ele, de ser vista como aliada de Bolsonaro, como quem concedeu uma vitória de política externa a um governo que não tem uma boa reputação na Europa.

    "Por outro lado, eu acho que há um reconhecimento e uma esperança na Europa que, com a saída de Donald Trump da presidência dos Estados Unidos e a chegada de Joe Biden, que também faz questão muitas vezes de alertar sobre o futuro da floresta amazônica, isso vá mudar, pelo menos um pouco, a postura do governo brasileiro em relação ao meio ambiente", diz Lehmann em entrevista à Sputnik Brasil. 

    ​E é dentro dessa expectativa, acredita o professor, que a participação de Salles em negociações ambientais com os países europeus já mostra que o governo brasileiro parece ter compreendido que as circunstâncias mudaram e que é preciso se adaptar a elas. 

    "Eu acho que isso é visto como um ponto positivo. Porém não acredito que isso vá levar à ratificação do acordo no curto prazo."

    Além da questão ambiental e das eleições na Alemanha, a pandemia da COVID-19, na opinião do professor, também deve ser vista como um fator extra de dificuldade para a implementação desse importante acordo comercial. De um lado, porque os esforços dos países ainda seguem voltados para o combate ao novo coronavírus. De outro, porque o Brasil, mais uma vez, é visto como um péssimo exemplo também nessa área.

    "O acordo com o Mercosul simplesmente não está, atualmente, entre as prioridades políticas do bloco [europeu]." 

    Assim com a visão da União Europeia sobre a política ambiental brasileira no atual governo não deve mudar, Lehmann também acha que não deve mudar a visão que o Brasil tem da política agrícola da UE, considerada muito protecionista, o que, inclusive, foi uma das razões para a demora dos dois blocos em chegar a um acordo.

    "A Política Agrícola Comum, por mais que ela tenha mudado bastante ao longo dos últimos 30 anos, continua sendo uma política bastante protecionista. E isso não vai mudar no curto prazo, porque é uma área muito sensível em alguns países europeus. Por exemplo, na França, o presidente [Emmanuel] Macron não vai abrir mão disso a um ano das eleições presidenciais. Não tem chance de isso acontecer." 

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    protecionismo, COVID-19, pandemia, USP, Ricardo Salles, Jair Bolsonaro, França, Alemanha, acordo, Mercosul, UE, União Europeia, Brasil
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