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    COVID-19 no final de março de 2021 no Brasil (116)
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    "Antes tarde do que nunca", o Brasil terá a chance de centralizar as ações de combate à pandemia, mas isso só será possível se o comitê nacional anunciado pelo governo tiver autonomia para tomar suas decisões, afirma um especialista em gestão de crise na saúde ouvido pela Sputnik.

    Na última quarta-feira (24), após reunião com governadores e ministros no Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro anunciou a criação de um comitê nacional de enfrentamento à COVID-19, mais de um ano depois do início do surto do novo coronavírus no país. 

    ​O comitê em questão deverá ser formado por governos estaduais, Congresso e União, e definirá as medidas a serem tomadas por todo o Brasil a fim de conter o agravamento da crise sanitária, que se encontra em seu pior momento.

    A iniciativa marca uma mudança no comportamento do governo em relação à pandemia, muitas vezes minimizada pelo chefe de Estado e alguns de seus aliados próximos. Um dos principais defensores da ideia, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, aproveitou a situação para cobrar mais protagonismo do Executivo no combate ao novo coronavírus. Segundo o parlamentar, citado pela Agência Senado, trata-se de um pacto nacional "liderado por quem a sociedade espera que lidere".

    Com mais de 300 mil vítimas fatais, atualmente, o Brasil lidera a lista de países com maior número de mortes diárias causadas pela COVID-19, com hospitais lotados, falta de medicamentos e vacinação caminhando a passos lentos. Entre as ações a serem priorizadas pelo comitê, espera-se que estejam uma oferta maior de leitos em unidades de saúde, oxigênio e imunizantes. 

    ​Para o médico Josier Vilar, especialista em gestão de crise na saúde ouvido em entrevista pela Sputnik Brasil, a situação crítica na qual o país se encontra é resultante justamente da ausência de uma "política pública capaz de integrar os poderes da República" na busca de uma solução, de uma resposta comum à pandemia. 

    "Acho ótima a ideia da criação do comitê nacional de enfrentamento à pandemia. Eu acho que esse comitê de crise já vem com atraso de um ano, já deveria ter sido formado há muito tempo. Mas antes tarde do que nunca. Que seja um comitê que tenha autonomia de decidir", afirma.

    De maneira a funcionar plenamente, Vilar espera que as decisões do comitê fiquem a cargo, exclusivamente, das autoridades do setor de saúde, seja no que diz respeito à adoção do lockdown em uma determinada área ou à importação de determinada vacina contra a COVID-19.

    A desorganização e a falta de orientações centralizadas ao longo do último ano, segundo o médico, criaram tanta "confusão" no país que muitas pessoas se tornaram resistentes às recomendações sanitárias básicas.

    "Eu nunca vi uma coisa tão confusa como essas vozes de comando múltiplas que negam, que resistem, que criam muito mais confusão do que solução para o problema gravíssimo que nós estamos vivendo. Portanto, eu acho que é muito bem-vinda, eu parabenizo o governo federal, eu parabenizo o Legislativo e o Judiciário, e os governadores, por estarem imbuídos do propósito único de construir uma solução."

    De imediato, o especialista destaca que é extremamente fundamental reduzir o número de mortes e internações por COVID-19 no Brasil, a fim de evitar um colapso nacional do sistema de saúde. Nesse sentido, o comitê "tem uma responsabilidade muito grande" de tentar fazer "aquilo que já deveria ter sido feito desde o início", que é justamente buscar uma resposta centralizada para a crise.

    "Não pode o comitê decidir uma coisa e a presidência da República ou o governo do estado dizer que não vai cumprir isso. Não faz o menor sentido. Então, tem que envolver os governadores, todos têm que estar comprometidos com isso, e o Ministério da Saúde liderar. Precisa ter um líder. O Ministério da Saúde tem que liderar as ações operacionais. E o comitê definir o que é que precisa ser feito. Na realidade, o comitê vai fazer a governança e o Ministério da Saúde faz a gestão compartilhada com os governadores dos estados. Se não for assim, não vai funcionar." 

    ​Junto com esses esforços conjuntos, Josier Vilar aponta também a necessidade de se colocar em prática uma "grande campanha de comunicação, utilizando todos os recursos possíveis", a fim de convencer a população do "dramático e perigosíssimo momento" pelo qual o país está passando, de recrudescimento da pandemia. Essa campanha, o especialista sublinha, deve ser dirigida principalmente aos jovens, que são os que, segundo ele, estão resistindo mais às medidas de prevenção.

    "De afastamento social, de uso de máscara, de evitar aglomerações. Porque eles acreditam que, por serem jovens, a doença não os afetará com a mesma gravidade que afeta os idosos. Não é verdade. Está morrendo muito jovem agora. Os idosos, uma boa parte, já se vacinaram. E uma boa parte deles já está protegida das formas graves da doença. Os jovens estão morrendo."  

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    COVID-19, novo coronavírus, pandemia, doença, Brasil, saúde, governo, surto
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