23:39 27 Setembro 2021
Ouvir Rádio
    Análise
    URL curta
    215616
    Nos siga no

    Além de destruir empresas, empregos e a economia brasileira, a operação Lava Jato jogou uma "pá de cal na democracia do país" ao criminalizar a política, disse especialista à Sputnik Brasil.

    Segundo levantamento feito pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), a operação fez o país perder R$ 172,2 bilhões. 

    O estudo, encomendado pela CUT (Central Única dos Trabalhadores), diz ainda que o Brasil deixou de arrecadar 40 vezes mais do que o valor recuperado com a operação (R$ 4,3 bilhões).

    Para Clarisse Gurgel, professora da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), o relatório apenas confirma agora o que já era percebido no dia a dia da população brasileira. A cientista política diz que o levantamento "consegue traduzir por números fenômenos que têm sido cada vez mais cotidianos". 

    "Algo que já tinha se experimentado no dia a dia da população brasileira, mas que agora se confirma em dados e números mais precisos, que é um contexto de absoluto abandono de um país que foi devastado, seja no que diz respeito a sua natureza, ao seu desenvolvimento, a sua independência, seja no que diz respeito as suas liberdades, a sua participação popular, a sua democracia e as suas instituições republicanas", disse Gurgel. 

    Empregos destruídos

    O estudo do Dieese também indica que o país deixou de arrecadar R$ 47,4 bilhões em impostos. Dessa quantia, R$ 20,3 bilhões seriam em contribuições sobre a folha de salários.

    Segundo o levantamento, as consequências da operação Lava Jato provocaram o fechamento de 4,4 milhões de empregos. O setor mais afetado foi o da construção civil, que perdeu 1,1 milhão de postos de trabalho no país. 

    Para Gurgel, empreiteiras "foram cirurgicamente perseguidas pela Lava Jato", que, segundo ela, teve como resultado nefasto a perda de investimentos que essas empresas e a Petrobras geravam. Além disso, Gurgel ressalta que esses empregos produziam "consumo e tributos". 

    "Tudo aquilo que o governo Lula e o governo Dilma produziram de perspectiva de autonomia na geração de empregos e mercado, ruiu a partir do governo Temer e Bolsonaro", disse a professora. 

    Nesta segunda-feira (8) a Lava Jato sofreu um duro golpe, com a anulação de duas condenações e dois processos contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o ex-juiz Sergio Moro, que foi titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, não era o "juiz natural" dos casos. A Procuradoria-Geral da República (PGR) deve recorrer da decisão.

    'Manto de neutralidade'

    Para Clarisse Gurgel, a Lava Jato, sob um "manto de neutralidade e imparcialidade", combateu uma política de autonomia brasileira em relação aos Estados Unidos, e de aproximação com novos parceiros, como países da África, América Latina e China, e que tinha como uma de suas bases o "fortalecimento de empreiteiras e da Petrobras". 

    Em relação ao aspecto político, Gurgel diz que a Lava Jato "não pode ser subestimada", pois "representou muita coisa para o Brasil".

    "Ela foi o pano de fundo legitimizador de uma política de criminalização da política. Foi a partir da Lava Jato, a partir, principalmente, da figura de Moro, que a política pôde ser afastada da perspectiva do brasileiro, que já sofre, desde a década de 50, uma restrição da democracia por imposição dos norte-americanos", avaliou a especialista. 

    'Expurgar a política'

    Segundo ela, a Lava Jato, ancorada em uma falsa pretensão de imparcialidade, buscou imprimir uma "espécie de assepsia e higienismo da sociedade brasileira como um todo".

    Para a pesquisadora, é como se tivesse ocorrido uma "transferência de poder para o judiciário", que passou a "ser o mais apto a dizer quem deve ter poder ou não". Segundo ela, a democracia brasileira, que já era frágil, sofreu um golpe brutal a partir da Lava Jato e seus desdobramentos. 

    "É como se o judiciário viesse para expurgar a política da vida dos brasileiros. Isso fez com que se terminasse de colocar uma pá de cal na democracia do país", disse Clarisse Gurgel.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

    Mais:

    'Eram nossos nudes', diz ex-integrante da Lava-Jato sobre diálogos entre procuradores
    'Precisamos atingir Lula na cabeça', diz procuradora da Lava Jato em conversa vazada
    Fachin anula todas as condenações de Lula na Lava Jato
    Tags:
    Luiz Inácio Lula da Silva, Sergio Moro, Lava Jato, Jair Bolsonaro, Michel Temer, economia, justiça, Dilma Rousseff, Petrobras
    Padrões da comunidadeDiscussão
    Comentar na SputnikComentar no Facebook
    • Comentar