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    Apesar da oposição interna e forte rejeição da população local, presidente da França, Emmanuel Macron, insiste em manter tropas francesas no Norte da África.

    Apesar da pressão da opinião pública francesa, o presidente da França, Emmanuel Macron, decidiu não reduzir o número de tropas francesas engajadas em operações militares no Norte da África, em região conhecida como Sahel.

    As declarações foram feitas após encontro entre a França e o chamado G5 do Sahel, composto por Burkina Faso, Chade, Mali, Mauritânia e Níger, no dia 16 de fevereiro.

    "Oportunamente, mudanças significativas serão feitas no nosso sistema militar no Sahel. Mas elas não serão realizadas imediatamente", declarou Macron.

    A decisão marcou uma concessão por parte do presidente francês, que havia declarado a intenção de reduzir o contingente de cerca de cinco mil soldados franceses alocados na região do Saara-Sahel, no Norte da África.

    "Eu não chamaria essas operações de uma 'guerra' no sentido literal da palavra, mas, sim, de ações assimétricas destinadas a eliminar grupos terroristas armados", disse o pesquisador do Instituto de Informação Científica em Ciências Sociais da Academia de Ciências da Rússia (INION-RAN, na sigla em russo), Aleksandr Sidorov.

    A presença militar francesa não constitui uma invasão, uma vez que "é realizada com base em um sistema de acordos bilaterais entre a França e os países participantes", cumprindo "todas as normas internacionais", relatou Sidorov.

    Grupo armado posa para foto na região do rio Níger, na cidade de Gao, Mali (foto de arquivo)
    © AFP 2021 / Joel Saget
    Grupo armado posa para foto na região do rio Níger, na cidade de Gao, Mali (foto de arquivo)

    "Deve-se admitir, porém, que a busca por uma estratégia de saída da região está atrasada, e a liderança francesa, aparentemente, não tem plena consciência da complexidade dos problemas da região", ponderou o especialista.

    As operações francesas atingiram alguns de seus objetivos, como o enfraquecimento do Daesh (organização terrorista proibida na Rússia e demais países) na região.

    No entanto, elas enfrentam uma série de dificuldades, como a "grande extensão territorial da região e a heterogeneidade étnica e confessional da população".

    Autoridades francesas disponibilizam mapa com as posições militares francesas no Sahel, durante reunião do G5 do Sahel realizada por vídeo conferência, Paris, França, 16 de fevereiro de 2021
    © AP Photo / Francois Mori
    Autoridades francesas disponibilizam mapa com as posições militares francesas no Sahel, durante reunião do G5 do Sahel realizada por vídeo conferência, Paris, França, 16 de fevereiro de 2021

    "Outra enorme dificuldade é identificar corretamente o inimigo", alerta o especialista. "É muito difícil distinguir entre grupos terroristas armados e grupos armados com os quais se pode tentar negociar."

    A pulverização de grupos armados na região e a desestabilização de países como o Mali estendem o conflito indefinidamente.

    "Inicialmente, a presença militar [francesa] era para ser temporária, com o objetivo de evitar a captura de Bamako, a capital do maior país da região, Mali, e restaurar a integridade territorial do Estado", relatou Sidorov.

    Passados oito anos, o governo central malinês não controla todo o seu território e depende de uma força de 15 mil homens comandada pela Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização do Mali (MINUSMA) para manter o controle da capital.

    Soldados das forças de paz da ONU no Mali
    © flickr.com / UN Mission in Mali
    Soldados das forças de paz da ONU no Mali

    A ausência do Estado nas zonas rurais de países como o Mali é uma oportunidade para grupos terroristas, que fornecem serviços sociais às comunidades.

    "O vácuo de poder nas zonas rurais, especialmente em áreas remotas, está sendo preenchido por estruturas protoestatais. Essas estruturas assumem funções que deveriam ser desempenhadas pelos órgãos constituídos", disse Sidorov.

    Atualmente, "o principal objetivo da presença militar francesa no Mali e na região é [...] enfraquecer grupos terroristas armados a ponto de tornar atividades estatais viáveis no país".

    "De acordo com as estimativas da alta liderança militar da França, o cumprimento dessa meta pode levar até 15 anos", disse Sidorov.

    Desafios

    A operação francesa é criticada por empregar abordagem violenta contra a população civil.

    De acordo com a revista The Economist, em 2020 mais civis teriam sido mortos pelas forças governamentais no Sahel do que pelos grupos classificados como "jihadistas".

    Muitos apontam o caráter neocolonial das operações, uma vez que a França explorou boa parte dos territórios, que hoje alega ajudar.

    Para Sidorov, contudo, "a ineficiência dos Estados da região não deve ser diretamente associada ao legado colonial".

    "É claro que não se pode negar que a delimitação das fronteiras dos Estados da região do Saara-Sahel foi realizada sem a devida consideração pelas características étnico-confessionais da população autóctone", concedeu o especialista.

    Esse legado "virou uma bomba-relógio para o desenvolvimento socioeconômico da região" e "deu origem à parte significativa dos problemas atuais".

    Militantes de grupo Tuareg se reúnem na cidade de Menaka, Mali, 14 de março de 2020
    © AFP 2021 / Souleymane Ag Anara
    Militantes de grupo Tuareg se reúnem na cidade de Menaka, Mali, 14 de março de 2020

    No entanto, "outros países da região conseguiram superar as dificuldades do desenvolvimento pós-colonial".

    "Nesse sentido, o Mali, que é um país localizado no centro da região do Saara-Sahel, sem acesso direto ao oceano, marcadamente dividido entre norte e sul, virou um elo fraco", acredita Sidorov.

    As operações francesas enfrentam a oposição das populações locais. A conferência do G5 do Sahel em 2020 foi recebida por protestos na capital do Mali, Bamako.

    Manifestantes protestam contra a presença militar francesa e pela unidade territorial do país na Praça da Independência da capital do Mali, Bamako, 15 de novembro de 2019
    Baba Ahmed
    Manifestantes protestam contra a presença militar francesa e pela unidade territorial do país na Praça da Independência da capital do Mali, Bamako, 15 de novembro de 2019

    A morte de cinco soldados franceses em ataques realizados por grupo ligado à Al-Qaeda (organização terrorista proibida na Rússia e demais países) em janeiro tampouco contribui para a imagem da guerra dentro da França.

    "Parte da opinião pública francesa [...] se opõe à presença militar francesa no Sahel, defendendo a retirada das tropas", disse Sidorov. "Mas essa formulação ainda não tem o apoio das mais altas lideranças político-militares da França."

    A saraivada de críticas e temor de que o esforço de guerra não tenha data para acabar levam especialistas a defender que a França encoraje os governos locais a dialogar com alguns grupos armados.

    Militante de grupo terrorista na cidade de Gao, Mali (foto de arquivo)
    © AFP 2021 / Issouf Sanogo
    Militante de grupo terrorista na cidade de Gao, Mali (foto de arquivo)

    "Será necessário ampliar o número de participantes nas negociações e tornar esse processo mais inclusivo", acredita Sidorov. "Na minha opinião, deixar tudo como está e privar qualquer chance de progresso em direção a uma solução pacífica é contraproducente."

    Para ele, está cada vez mais claro que "é impossível resolver esses problemas complexos [...] por meios puramente militares".

    A França lançou a Operação Serval no Mali após aprovação de resolução do Conselho de Segurança da ONU em 2012. Em 2014, os objetivos e escopo territorial das ações militares foram ampliados com o lançamento da Operação Barkhane, que segue em atividade até hoje.

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    Emmanuel Macron, Norte da África, operação militar, terrorismo, Sahel, França, Mali
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