05:12 09 Março 2021
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    A substituição na presidência da gigante petrolífera brasileira gerou receios e esperanças entre os diferentes grupos afetados pelas decisões da Petrobras. Afinal, a mudança de comando na estatal pode indicar novos rumos para o setor?

    Na última sexta-feira (19), o presidente Jair Bolsonaro anunciou a substituição do presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, pelo general Joaquim Silva e Luna, atual diretor da usina binacional de Itaipu e ministro da Defesa durante o governo do ex-presidente Michel Temer.

    A demissão de Castello Branco, em meio a descontentamentos provocados por reajustes nos preços dos combustíveis e ameaças de greve por parte dos caminhoneiros, gerou grandes preocupações no mercado, derrubando o valor das ações da empresa. 

    ​A dúvida do momento é se, ao assumir o comando da Petrobras, Luna manterá a atual política da companhia, seguindo os preços internacionais do petróleo, ou se adotará uma política de controle de preços, a fim de conter a indignação de alguns setores, como o dos transportadores.

    "Espero que não caiamos na tentação de controlar preços, já se tentou isso tantas vezes antes, com resultados desastrosos", disse, em declarações à Sputnik Brasil, o especialista Jorge Camargo, vice-presidente do Conselho Curador e coordenador do Núcleo de Energia do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), afirmando ser difícil prever o que acontecerá daqui para frente.

    Neste sábado (20), o presidente Bolsonaro voltou a falar sobre o tema, defendendo seu direito de trocar "peças que por ventura não estejam dando certo" e prometendo novas mudanças para a próxima semana.

    Insatisfação com a gestão Castello Branco 

    Apesar de bem avaliada pelo mercado, a presidência de Roberto Castello Branco está longe de ser unanimidade entre os diversos grupos afetados por sua gestão. E o ponto de insatisfação que une petroleiros, engenheiros, caminhoneiros, consumidores e presidente da República tem nome e sobrenome: política de preços paritários de importação (PPI). 

    "Produzimos petróleo, refinamos e produzimos combustíveis no Brasil, mas a direção da Petrobras, desde 2016, decide adotar preços proporcionais aos da importação para os combustíveis produzidos nas suas refinarias. Com preços altos em relação ao custo de importação, o diesel da Petrobras fica encalhado nas suas refinarias e parte do mercado brasileiro é transferido para os importadores. A ociosidade das refinarias brasileiras aumenta, há redução do processamento de petróleo e da produção de combustíveis no Brasil. Aumenta a exportação de petróleo cru. Combustíveis produzidos nos Estados Unidos são trazidos ao Brasil por multinacionais estrangeiras da logística e distribuídos pelos concorrentes da Petrobras", explica a Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet).

    De acordo com a Aepet, por conta do alinhamento aos preços internacionais do petróleo e à cotação do câmbio, ao mesmo tempo em que a estatal perde com a redução de sua participação no mercado, o consumidor paga mais caro, desnecessariamente, pelos produtos. Ganham, por outro lado, principalmente, as refinarias norte-americanas, as multinacionais do setor de logística e as distribuidoras privadas. 

    ​Em nota à qual a Sputnik Brasil teve acesso, a associação também condena a redução dos investimentos na gestão Castello Branco e as privatizações — BR Distribuidora, Transportadora Associada de Gás (TAG), Liquigás, reservas de petróleo e participações na produção de biocombustíveis —, que promoveriam uma desintegração vertical e nacional da maior companhia brasileira.

    Segundo a Aepet, a privatização de refinarias, terminais, dutos e distribuidora traz prejuízos muito mais graves à resiliência e sobrevivência da Petrobras, na conjuntura de preços relativamente moderados de petróleo, do que supostos benefícios pela redução dos gastos com juros decorrentes da antecipação da redução da sua dívida.

    "A empresa estatal integrada de petróleo e energia representa a possibilidade de se garantir o suprimento nacional de combustíveis aos menores custos possíveis, assim como assegura a resiliência empresarial necessária para esta indústria que é submetida à volatilidade do preço do petróleo, fixado em mercados financeiros internacionais e, em especial, no caso brasileiro, à volatilidade do valor relativo da moeda nacional."

    O que esperar de Joaquim Silva e Luna?

    Para o economista Edmar Almeida, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), independentemente das intenções e das expectativas em torno da troca no comando da Petrobras, não existe muito espaço para o novo presidente da companhia "promover uma política de desalinhamento dos preços dos combustíveis".

    "A empresa se encontra em uma situação financeira ainda muito frágil e, por isso, ela não tem espaço para não acompanhar o preço no mercado internacional", afirma o especialista em entrevista à Sputnik Brasil.

    Na opinião de Almeida, o governo tomou a decisão de substituir Castello Branco por Luna com base em uma estratégia puramente política, para sinalizar, sobretudo para os caminhoneiros, um suposto empenho em impedir a continuação dos aumentos dos preços

    ​"Na prática, eu não vejo muito espaço para que a Petrobras seja utilizada para dar descontos significativos nos preços dos combustíveis. De toda maneira, o governo usa essa ferramenta de mudança do presidente da Petrobras como uma moeda de troca política. Na minha opinião, isso não vai afetar, de forma significativa, a tendência de mais longo prazo para o desempenho da Petrobras."

    As opiniões expressas nesta matéria podem não necessariamente coincidir com as da redação da Sputnik

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    Tags:
    estatal, combustível, preços, Roberto Castello Branco, Joaquim Silva e Luna, presidente, petróleo, Petrobras, Brasil
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